segunda-feira, 16 de maio de 2011

TENDÊNCIAS SUICIDAS

É nos minutos inúteis que surgem as melhores ideias, é nesses minutos que a criatividade, liberta de constrangimentos, embalada pelo ócio, entra em erupção. É nesses minutos que os homens melhor se afirmam enquanto homens. Excepto os portugueses, que desconhecendo a natureza desses minutos desperdiçam toda a sua riqueza pensando-se a si próprios. Não é difícil encontrar razoabilidade no diagnóstico elaborado por Miguel de Unamuno: «Portugal é um povo triste − e é-o mesmo quando sorri» (Os Portugueses, um Povo Suicida). Classificar os portugueses de povo suicida não nos socorre na manifesta propensão genética que temos para a desgraça. Antes nos livra do fardo que levou Manuel Laranjeira a concluir, na carta reproduzida pelo amigo espanhol, que «um minuto de vida bem empregada vale mais do que a eternidade da vida inutilmente vivida». Mas a eternidade da vida inutilmente vivida é a essência da própria vida. Com isso não se conformam os fadistas, encalhados entre o oceano e sucessivas invasões. A solução dos portugueses reside em fugirem de si próprios como o diabo da cruz. Daí que se detestem, daí que se ocupem tanto zurzindo contra si próprios, daí que se mostrem tão afáveis e complacentes para com aquilo que vem de fora e implacáveis para com aquilo gerado dentro. Li algures um retrato cómico da sociedade portuguesa: é uma espécie de bolha onde todos dizem mal uns dos outros sem terem a noção de que os outros são essa massa indefinível entre os quais também nós nos encontramos. Sendo que cada um de nós é sempre um outro, não resta nada de bom entre os portugueses. No entanto, a nossa desgraça tem sido a nossa força. Sabemos rir da aspereza com que nos crucificamos. Aos 22 anos, José de Almada-Negreiros reflectia os portugueses com acentuada acutilância: «o sentimento-síntese do povo português é a saudade e a saudade é uma nostalgia mórbida dos temperamentos esgotados e doentes». Talvez esteja aqui a raiz dessa lúgubre inclinação para o suicídio, não necessariamente físico, mas também moral, uma espécie de “genocídio” focalizado no ânimo com que poderíamos encarar a inutilidade das nossas vidas. A aceitação desta inutilidade afigura-se fundamental, na medida em que se impõe como a única atitude verdadeiramente útil à nossa fatal condição elegíaca. É ainda Almada quem afirma: «O português, como os decadentes, só conhece os sentimentos passivos: a resignação, o fatalismo, a indolência, o medo do perigo, o servilismo, a timidez, e até a inversão. Quando é viril manifesta-se instintivamente animal a par do seu analfabetismo primitivamente anti-higiénico». Ou seja, o povo «mais apaixonado do que sentimental» de que falava Miguel de Unamuno. Há uma matemática inquestionável a sustentar estas doutrinas: em XVIII governos constitucionais, entregámos os nossos desígnios ao PS e ao PPD/PSD, tendo ambas as facções, em épocas e contextos diversos, sido coadjuvadas pelo CDS/PP. Portanto, estamos a caminho de 37 anos de governos sucessivamente legitimados por um povo masoquista que apenas vota para poder continuar a dizer mal de quem o governa. Com uma variante: em muitas eleições, os não votantes, os votantes em branco e nulo, assim como os votantes em partidos de menor expressão, todos juntos, perfazem percentagens superiores às dos eleitores que votaram nos partidos que vêm formando governo. Isto quer dizer que uma imensa parte da população não se revê em quem a governa ou se está nas tintas para quem a governe, uma imensa parte que, bem vistas as coisas, é a maioria. Como pode não ser suicida um povo destes? Não se trata de uma categoria ontológica fundamentada indutivamente, com base na experiência de casos particulares. Os suicídios de Antero, Soares dos Reis, Camilo, Mouzinho de Albuquerque, Trindade Coelho, enumerados por Unamuno, são meros resíduos numa sociedade toda ela suicidária. A orgânica deste país não poderá ser outra enquanto persistirmos na saudade, na lamentação, nesse pó cavernoso que a todos inspira versos melancólicos e esmorecidas elegias. Sobre toda essa tralha, um lençol de gargalhadas estridentes e a consciência interna da maior das forças vitais: nada há mais útil nesta vida efémera que a inutilidade decretada das coisas que dão prazer e fazem rir.

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