terça-feira, 14 de junho de 2011

A NOITE




Pouco sei da noite
mas a noite parece saber de mim,
e para mais, conforta-me como se me desejasse,
cobre-me a consciência com as suas estrelas.

Talvez a noite seja a vida e o sol a morte.
Provavelmente a noite é nada
e nada as conjecturas sobre ela
e nada os seres que a vivem.
Talvez as palavras sejam tudo o que existe
no enorme vazio dos séculos
que nos arranham a alma com as suas recordações.

Mas a noite há-de conhecer a miséria
que bebe do nosso sangue e das nossas ideias.
Ela há-de atirar ódio às nossas observações
sabendo-as cheias de interesses, de desencontros.

Mas sucede que ouço a noite chorar nos meus ossos.
A sua lágrima imensa delira
e grita que algo partiu para sempre.

Um dia voltaremos a ser
.


Alejandra Pizarnik, in Las Aventuras Perdidas (1958)


Versão de HMBF

22 comentários:

lebredoarrozal disse...

a pizarnik é tão grande:D

Mariana disse...

Que poema mais lindo! Os dois primeiros versos, maravilhosos, e que seja uma mulher a falar traz outra nuance. Um homem diante da noite é, desde sempre, um homem diante da noite, é tudo que se tem. Uma mulher diante da noite é pura modernidade.

Obrigada por disponibilizar a versão.

Anónimo disse...

O poema é lindo, sem dúvida, de tirar o ar. Mas sempre que se descobre que a obra de repente se viu acompanhada de comentários que a procuram tratar a partir de um ponto de vista absolutamente sexista, acaba-se tomando certa antipatia da obra. E isso independente do gênero do autor e da qualidade da obra. Independente de o autor ter ou não se importado em exercer ponto de vista sobre qualquer que seja a coisa. Pelo menos acontece comigo.

Sandra R. disse...

A Pizarnik e este poema são imensos...

Mariana disse...

Estou um pouco cansada de comentar em blogues, principalmente quando aparecem anônimos com esse tipo de comntário-réplica: "O poema é lindo, sem dúvida, de tirar o ar. Mas sempre que se descobre que a obra de repente se viu acompanhada de comentários que a procuram tratar a partir de um ponto de vista absolutamente sexista, acaba-se tomando certa antipatia da obra. E isso independente do gênero do autor e da qualidade da obra. Independente de o autor ter ou não se importado em exercer ponto de vista sobre qualquer que seja a coisa. Pelo menos acontece comigo."

O que me espanta nesses comentários é o anonimato da fala, de quem fala. Enquanto eu, ao comentar, assumo uma identidade e dou a cara à pata, oooops!, à tapa, o anônimo se vê resguardado pela carapuça do anonimato. E assim foge à tréplica, que aqui vai, de todo modo, caso o administrador do blogue aceite publicar este comentário. E assim diz os maiores disparates, como a expressão “ponto de vista absolutamente”. Ora, desde Nietzsche, desde os românticos, aliás, se sabe que é incompatível pressupor ao mesmo tempo o absoluto e o ponto de vista: é como se fosse possível admitir que o absoluto e o relativo fossem possíveis, pudessem coexistir, ser concomitantes. Creio que só sistemas matemáticos sofisticados poderão ensejar esta possibilidade...

O problema é que eu não estava falando em sexismo, estava pensando em Deleuze e em tanta coisa que li/vivi. Estava pensando em Ulisses e Penélope, Leopold e Molly Bloom. Homens e mulheres são diferentes, sentem diferentemente, e quem quiser continuar negando isso precisará olhar com mais vagar o próprio corpo. Perdão, caro anônimo, por ter desembelezado o poema. É a última vez que o faço, prometo.

P.S. Prezado Henrique, gosto muito do seu blogue, continuarei lendo. Mas não vou comentar mais. Esteja à vontade para publicar ou não este comentário.

Abraço.

Anónimo disse...

Concordo. É devido também a comentários como este (o homem diante da noite é só o homem diante da noite), de pura androfobia, que a misoginia, por sua vez, segue viva no pensamento de gente como o escritor indiano V.S. Naipaul - para quem se pode reconhecer o texto de uma mulher desde o primeiro parágrafo. Ainda ei de ver qualquer obra ser lida a partir de seus "próprios méritos", e não tendo qualquer sexismo ou preconceito como bússula.

hmbf disse...

Mariana, eu gosto muito dos teus comentários e seria uma pena, para mim, se eles desaparecessem. Os anónimos são anónimos, deixá-los ser. O meu critério para a publicação de comentários anónimos é simples: desde que não ofendam terceiros, serão publicados. Podem, inclusive, ser ofensivos para comigo. É-me indiferente. Abraço transatlânico, Henrique.

P.S.: concordo com a tua perspectiva.

Anónimo disse...

Há os que acreditam que as diferenças entre homens e mulheres são diferentes apenas biológicas. Sou um deles. Ora, homens e mulheres "sentem diferente" por terem diferentes personalidades, diferentes prespectivas do mundo/vida, e não diferentes sexos. Há de se tomar tal premissa como base se não se quer voltar a viver sob certos moldes da Idade Média.
E determinado ponto de vista pode sim carregar algo de absoluto. Isso não quer dizer que esgote as outras perspectivas, mas que salte aos olhos apresentando carregado tom.
Agradeço ao moderador pela inclusão de comentários anônimos, desde que não sejam ofensivos. Concordo com a sua prerrogativa.
Afinal a Internet não nos torna a todos anônimos?, ou quase? Poucos que aqui visitam, ou retribuem visitas, se conhecem, não é?
E deixar de comentar, ou deixar de colocar a cara a pata ou tapa ou o que for, é levar os termos ao extremo.
Ora, se se comenta, que esteja preparado para ouvir (ler) ponto de vista contrário (absoluto ou não, anônimo ou não). E que exerça a retórica! Sei que há outros casos, mas o meu específico é manter o respeito sempre, pois ainda que lute pelo direito de não concordar, admiro aqueles que defendem até o fim o seu pensamento.

Anónimo disse...

E, para arrematar, pois estou cansado de replicar sobre o assunto, passo um link sobre isso de ver a literatura por gênero (a matéria, se o moderador permitir a publicação do link, lança ponto final ao debate): http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/928299-machismo-do-escritor-indiano-vs-naipaul-faz-rir-dizem-criticas.shtml

Mariana disse...

Prezado Henrique: entendo perfeitamente a publicação dos comentários anônimos, faz parte. O que questionei foi a não assunção de uma identidade pela pessoa na discussão. Um conhecido disse-me uma coisa muito interessante: a gente responde pelo que publica; portanto deve-se pensar bem antes de colocar a assinatura numa fala, seja ela virtual ou impressa. O comentário anônimo foge deste pacto da pólis. Mas ele representa um discurso, uma identidade: apenas o autor não aparece. Então foi apenas isso que disse: seria mais corajoso assumir a autoria. E é claro que os comentários anônimos devem ser publicados, pois representam uma expressão, e vivemos num mundo onde a liberdade de expressão, pelo menos em tese, é defendida a unhas e dentes (e por outras armas também).

Ano passado perdi uma amizade que supunha das melhores por conta dessas contendas intelectuais (o texto/discurso é ou não é misógeno, é ou não é isso, aquilo, aquilo outro...). Deixei o amigo e sua intransigência irem, afinal uma coisa não combina mesmo com a outra. Não sou racista, não sou homofóbica, não sou misógina nem androfófica (nem sabia que esta categoria existia). Mas não sou homem, não leio como homem, não adianta. Como disse o Cortázar:

"Já vivera o suficiente para suspeitar daquilo que, embora esteja debaixo do nariz de todos, poucas vezes se percebe: o peso do sujeito na noção do objeto."

Neutralidade quem sabe lá na Lua, atmosfera zero. Apenas o poema me suscitou uma coisa diferente, a relação da mulher com a noite, tão bonita, tão própria. Foi isso que falei, apenas. Fui quietinha lá poema e revelei uma emoção daquele momento, uma intuição. Não imaginava ser tomada por preconceituosa ou coisas afins.

De qualquer forma, muito obrigada pela acolhida aos meus comentários. Estou até achando graça já disso tudo :)

Abraço transatlântico.

Anónimo disse...

Ler como "homem", ler como "mulher"; ler partindo do pressuposto de que o autor-artista é homem ou mulher; tudo isso é reducionista, pior, é tentativa de generalizar a arte. A partir daí estamos a um passo de julgar uma obra boa apenas por o artista ser mulher ou homem.

Anónimo disse...

gostei do pensamento da Clarice Lispector: "Quando escrevo, não sou homem nem mulher, sou homem e mulher". foi o que de melhor surgiu do inutil debate.

Mariana disse...

Aos anônimos deste post recomendo o conto "Os desastres de Sofia", de Clarice Lispector. E, por favor, não ofendam a inteligência alheia com citação de citação: citar a Clarice de segunda mão, citada pela crítica Leyla Perrone-Moisés, citada por seu turno por uma jornalista é desdenhar do medalhão machadiano. Cadê as fontes? Onde a Clarice falou isso?

O argumento probatório de que o narrador de "A hora da estrela" é um homem é tão inconsistente que se anula por si próprio. Há vários estudos mostrando como Clarice Lispector fez disso uma estratégia para deixar mais em evidência o aviltamento do capitalismo (ou agora a literatura também estará proibida de falar dos/nos pobres? Então é melhor nem citar Clarice Lispector, altamente sensível à questão, como se pode ler em várias crônicas de "A descoberta do mundo").

Debate? Não fui eu que comecei isso. Eu não queria debater nada, só fui no poema transmitir uma impressão. Mas já que estraguei o poema, o post e o mais com minha percepção distorcida do fato literário (atire a primeira, a segunda, a terceira pedra aquele que julgar ter uma percepção acima das contingências), então agora vou falar.

O debate é inútil? E por que o estimado anônimo está aqui ainda pondo lenha na fogueira?

"Gostei do pensamento de Clarice Lispector". Clarice Lispector tinha um pensamento!? Então vamos lá, ao que disse a própria sobre a faculdade de pensar e os bem-pensantes, em "As negociatas":

Depois que descobri em mim mesma como é que se pensa, fazendo comigo mesma negociatas, nunca mais pude acreditar no pensamento dos outros." (A descoberta do mundo, p. 408).

E eu vou lá acreditar nos bem-pensantes da folha de são paulo? Faça-me o favor! Clarice Lispector era uma artista, não uma mexedora de ovos... para quem quiser se arriscar em "O ovo e a galinha"...

Mais um: "O erro dos inteligentes":

Mas é que o erro das pessoas inteligentes é tão mais grave: elas têm os argumentos que provam. (p.391)

Senhores anônimos e desconhecidos: prazer em desconhecê-los. Não tenho os argumentos que provam, não tenho folha de são paulo para citar, não tenho nada, exceto meus livros. Mas a Clarice Lispector é tão sagrada para mim que, estando eu à revelia no meio dessa confusão, não vão usar o nome dela assim em vão. Ela não merece, pela força de sua obra, pela via crucis que foi a vida dela, mesmo que eu esteja me valendo de uma arrogância pavorosa.

Prezado Henrique: desculpe-me por prolongar isso.

Anónimo disse...

Os comentários do anônimo que "debatia", ou seja, eu, vão até a indicação do link. Não posso responder por todo e qualquer anônimo. E não vou igualmente me prolongar dizendo que é sim válida a citação da Clarice Lispector do outro anônimo, ainda que ele o tenha feito em "apud" (a crítica Leyla também tem livros, não?).

Anónimo disse...

Acabou de usar o nome em vão, não?

Anónimo disse...

Seguem os méritos da "mexedora de ovos" (não é argumento, o narrador da "A Hora da Estrela", livro meu de cabeceira, é homem):
Professora emérita da USP, Leyla Perrone-Moisés é uma das mais destacadas críticas literárias do Brasil. Coordenadora do Núcleo de Pesquisa Brasil-França, do Instituto de Estudos Avançados da USP, é especialista em literatura brasileira, portuguesa e na obra do semiólogo francês Roland Barthes, que traduziu para o português e organizou a publicação no Brasil.

Autora de vasta obra, publicou Falência da crítica – Um caso-limite: Lautréamont (Perspectiva); Texto, crítica, escritura (Martins Fontes); Inútil poesia e outros ensaios breves (Companhia das Letras); Vinte Luas – Viagem de Paulmier de Gonneville ao Brasil (1503-1505) (Companhia das Letras); Roland Barthes – O saber com sabor (Brasiliense), entre outros livros.

Recebeu o prêmio Alejandro José Cabassa (2002), da União Brasileira de Escritores; o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, na categoria ensaio (1993); as comendas de Officier de l’Ordre des Palmes Académiques (1986) e de Chevalier de l’Ordre des Palmes Académiques (1970), ambas concedidas pelo Ministério da Educação da França.

Anónimo disse...

Ia me esquecendo: como faz questão da fonte, a biografia resumida é da orelha do livro "Vinte Luas", de autoria da Leyla, e cujo título é bem sugestivo à noite, não é?

Anónimo disse...

Não tenho nada contra uma literatura dirigida maiormente às mulheres (ou preocupada em se mostrar feminina ou mesmo masculina) - o que não é o caso de Clarice Lispector, mas me parece ser da Lygia Fagundes Telles, por exemplo. Conheço mulheres que não leem Henry Miller por considerar seus livros literatura dirigida para homens. Ora, tanto uma coisa quanto a outra, não é ser reducionista???
"Gêneros são rótulos convenientes e, às vezes, formas convenientes, apenas isso", como disse Freeman na matéria indicada no link do anônimo.
Mas o poema da Pizarnik publicado aqui no blog, se não me engano (não conheço muitos outros da poeta), vai além dessas generalidades. Percebe-se nitidamente que Pizarnik não estava preocupada em dizer: "sou uma mulher diante da noite".
O sexismo do comentário, aliás, nem vem dessa "impressão" (uma mulher diante da noite), mas quando se diz "o homem diante da noite, desde sempre, é só o homem diante da noite, é tudo o que se tem".
Esse "desde sempre" é indigesto e por isso concordo com o anônimo que começou toda a peleja.
Ora, o poema é de ímpar beleza, mas é tão bom que tenha sido escrito por uma mulher, quanto o poderia ser se tivesse sido escrito por um homem. Que o prove Fernando Pessoa:
"Ó noite onde as estrelas mentem luz, ó noite, única coisa do tamanho do universo, torna-me, corpo e alma, parte do teu corpo, que eu me perca em ser mera treva e me torne noite também, sem sonhos que sejam estrelas em mim, nem sol esperado que ilumine do futuro."

Mariana disse...

Síntese (Gottfried Benn)

Noite silenciosa. Casa silenciosa.
Mas sou a mais calma estrela,
Eu também produzo luz própria
Além dos limites da minha noite.

Cerebralmente, voltei para casa
De infernos, céus, lixo e gado
E também o que se concede à mulher
É obscura e doce masturbação.

Revolvo o mundo. Agonizo a presa.
E depois dispo-me na alegria:
Não há morte, nem pó malcheiroso
Que me leve, eu-conceito, de volta ao mundo.

Synthese

Schweigende Nacht. Schweigendes Haus.
Ich aber bin der stillsten Sterne;
Ich treibe auch mein eignes Licht
Noch in die eigne Nacht hinaus.

Ich bin gehirnlich heimgekehrt
Aus Höhlen, Himmeln, Dreck und Vieh.
Auch was sich noch der Frau gewährt,
Ist dunkle süße Onanie.

Ich wälze Welt. Ich röchle Raub.
Und nächtens nackte ich im Glück:
Es ringt kein Tod, es stinkt kein Staub
Mich, Ich-begriff, zur Welt zurück.

http://www.youtube.com/watch?v=fYkV9YWC8Nk

[Poesia expressionista alemã: uma antologia. Org. e trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.50-51].

Anónimo disse...

lugar II - Herberto Hélder

Há sempre uma noite terrível para quem se despede
do esquecimento. Para quem sai,
ainda louco de sono, do meio
do silêncio. Uma noite
ingénua para quem canta.
Deslocada e abandonada noite onde o fogo se instalou
que varre as pedras da cabeça.
Que mexe na língua a cinza desprendida.

E alguém me pede: canta.
Alguém diz, tocando-me com seu livre delírio:
canta até te mudares em cão azul,
ou estrela electrocutada, ou em homem
nocturno. Eu penso
também que cantaria para além das portas até
raízes de chuva onde peixes
cor de vinho se alimentam
de raios, seixos límpidos.
Até à manhã orçando
pedúnculos e gotas ou teias que balançam
contra o hálito.
Até à noite que retumba sobre as pedreiras.
Canta - dizem em mim - até ficares
como um dia órfão contornado
por todos os estremecimentos.
E eu cantarei transformando-me em campo
de cinza transtornada.
Em dedicatória sangrenta.

Há em cada instante uma noite sacrificada
ao pavor e à alegria.
Embatente com suas morosas trevas.
Desde o princípio, uma onde que se abre
no corpo, degraus e degraus de uma onda.
E alaga as mãos que brilham e brilham.
Digo que amaria o interior da minha canção,
seus tubos de som quente e soturno.
Há uma roda de dedos no ar.
A língua flamejante.
Noite, uma inextinguível
inexprimível
noite. Uma noite máxima pelo pensamento.
Pela voz entre as águas tão verdes do sono.
Antiguidade que se transfigura, ladeada
por gestos ocupados no lume.

Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.
Às mulheres amadas darei as pedras voantes,
uma a uma, os pára-
-raios abertíssimos da voz.
As raízes afogadas do nascimento. Darei o sono
onde um copo fala
fusiforme
batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro.
Dá-nos tua ardente e sombria transformação.
E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes,
lentamente uma sobre a outra.
Quando se esclarecem as portas que rodam
para o lugar da noite tremendamente
clara. Noite de uma voz
humana. De uma acumulação
atrasada e sufocante.
Há sempre sempre uma ilusão abismada
numa noite, numa vida. Uma ilusão sobre o sono debaixo
do cruzamento do fogo.
Prodígio para as vozes de uma vida repentina. [...]

Anónimo disse...

[...]
E se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama
sentam-se e dizem:
ama-nos. E ele ama-as.
Desaperta uma veia, começa a delirar, vê
dentro de água os grandes pássaros e o céu habitado
pela vida quimérica das pedras.
Vê que os jasmins gritam nos galhos das chamas.
Ele arranca os dedos armados pelo fogo
e oferece-os à noite fabulosa.
Ilumina de tantos dedos
a cândida variedade das mulheres amadas.
E se ele acorda, então dizem-lhe
que durma e sonhe.
E ele morre e passa de um dia para outro.
Inspira os dias, leva os dias
para o meio da eternidade, e Deus ajuda
a amarga beleza desses dias.
Até que Deus é destruído pelo extremo exercício
da beleza.

Porque não haverá paz para aquele que ama.
Seu ofício é incendiar povoações, roubar
e matar,
e alegrar o mundo, e aterrorizar,
e queimar os lugares reticentes deste mundo.
Deve apagar todas as luzes da terra e, no meio
da noite aparecente,
votar a vida à interna fonte dos povos.
Deve instaurar o corpo e subi-lo,
lanço a lanço,
cantando leve e profundo.
Com as feridas.
Com todas as flores hipnotizadas.
Deve ser aéreo e implacável.
Sobre o sono envolvida pelas gotas
abaladas, no meio de espinhos, arrastando as primitivas
pedras. Sobre o interior

da respiração com sua massa
de apagadas estrelas. Noite alargada
e terrível terrível noite para uma voz
se libertar. Para uma voz dura,
uma voz somente. Uma vida expansiva e refluída.

Se pedem: canta, ele deve transformar-se no som.
E se as mulheres colocam os dedos sobre
a sua boca e dizem que seja como um violino penetrante,
ele não deve ser como o maior violino.
Ele será o único único violino
Porque nele começará a música dos violinos gerais
e acabará a inovação cantada.
Porque aquele que ama nasce e morre.
Vive nele o fim espalhado da terra.

herberto helder
lugar (poema II)
poesia toda
assírio & alvim
1981

Anónimo disse...

Uma Clara Meia-noite
Walt Whitman

Esta é tua hora, Oh Alma, teu voo livre
Para o espaço sem palavras,
Longe dos livros, longe da arte,
O dia extinto, a lição terminada,
E tu plenamente emergindo, silenciosa,
Observando, ponderando
Sobre teus temas diletos:
Noite, sono, morte e as estrelas.

(Walt Whitman - Folhas de Relva - Editora Iluminuras - 2005)