sábado, 15 de outubro de 2011

ESQUECI-ME COMO SE CHAMA





Se há domínio da edição livreira portuguesa onde podemos falar de mercado com substância, esse domínio é o do livro infantil. Felizmente estamos bem servidos, com propostas bastante diversificadas. Dentro das alternativas, cabe-nos sublinhar o excelente trabalho desenvolvido por projectos editoriais como a Orfeu Negro (vide colecção Orfeu Mini), a Planeta Tangerina ou a Bruaá Editora. Neste último caso, esse trabalho é de tal modo excepcional que será um “crime de lesa bom gosto” passar ao lado de objectos artísticos tais como Lágrimas de Crocodilo, Eu Espero…, O Arenque Fumado ou o mais recente Esqueci-me como se Chama, volume que recupera algumas histórias infantis do russo Daniil Harms, mudadas para português pela dupla de tradutores Nina Guerra e Filipe Guerra, com ilustrações bonitas, inteligentes e adequadas de Gonçalo Viana.

Trata-se de uma opção arriscada, mas distintiva. O universo literário de Daniil Harms, mesmo no território infanto-juvenil, não é de fácil penetração. Aparentemente caótico na sua espiral de acidentes, envia o leitor para uma arena onde se propõe um conflito com a lógica que determina a nossa forma de olhar, ver e organizar o mundo. O desafio consiste não apenas em superar essa lógica, mas em admitir no seio da mesma a existência de hipóteses invisíveis, cúmulos absurdos, novelos de associações infinitas que a linguagem permite ao pensamento. A tendência para ler estas histórias como quem lê meras anedotas, trocadilhos engraçados ou chalaças, desvirtua a raiz dos problemas sugeridos pelas mesmas. E esses problemas têm uma função didáctica imprescindível, a de tornar possível à imaginação uma liberdade que a transporte para lá dos constrangimentos impostos pelas leis científicas com que vamos compondo a realidade.

Não é de espantar, por isso, que o autor tenha merecido a censura do regime soviético, onde a regra era olhar para o mundo através de um padrão estritamente definido. Harms acabou por morrer de fome, ostracizado pelo regime de então, sem qualquer reconhecimento que extravasasse as fronteiras de um ínfimo círculo de amigos. Que mereça agora a sorte que não teve em vida:





ÓLEO DE PEIXE



Uma vez perguntaram a um rapaz:
− Ouve lá, Vova, como é que tu aguentas engolir óleo de peixe? Olha que o sabor não é nada agradável.
− É que a minha mãe, quando tomo uma colher de óleo de peixe, dá-me uma moedinha − disse o Vova.
− E o que é que tu fazes com essa moedinha? − perguntaram ao Vova.
− Meto-a no mealheiro − disse o Vova.
− E depois o que acontece? − perguntaram ao Vova.
− Depois, quando no meu mealheiro se acumulam dois rublos − disse o Vova −, a minha mãe tira-os e compra-me outro frasco de óleo de peixe
.

2 comentários:

carol disse...

Pois!
Não conheço. Vou ter de procurar. Obrigada pela informação/sugestão.

Beijinho

Parapeito disse...

:))
Inocente!!