segunda-feira, 5 de março de 2012

O QUE NÃO LI


Há vegetais com filhas grafitadas nas paredes do coração, aprendem a chorar com a morte dos outros, descobrem a dança nas sombras da dor, semeiam tempestades, colhem ventos. Deles se aproximam piratas com poemas na bagagem, vêm das ilhas e dizem coisas como pão. A gente desconfia sempre dos piratas até nos transformarmos em pernas de pau, depois abrimos os veios e deixamos escorrer pelas folhas o alimento da sede. O sono vai-se-nos e perguntamos: queres ser? Foi mais ou menos assim que tudo aconteceu, e um dia se fez prémio o produto dessa máquina de produzir texto que era o homem em indómita respiração. Eu digo que são metáforas vivas, a realidade voltada do avesso, porque tu metes as palavras a fazerem amor umas com as outras e geras tensões onde há pouco mais do que cuidados, vergonha, timidez, subserviência. Ficou o teu poema branco por debaixo da terra devastada e os críticos manifestaram-se: Rui Costa e T. S. Eliot, o mesmo campeonato (Mexia); não conheço o Sr. Rui Costa (Pitta). Foi então que constatámos a absoluta necessidade de conferir vida aos livros com a biografia dos seus autores, badanas onde possa aparecer pouco mais do que a manifestação de um desejo e capas que não mostrem apenas o olhar sabiamente juvenil de um irmão. Como ler um livro cujo autor se desconhece?

Vieste mais perto, comemos peixe e bebemos vinho branco, demos um mergulho, visitámos a casa do Ruy Belo, acabámos nas salinas a cantar canções dos ABBA. Havia clivagens, tu rabo de saia, eu sem corpo para isso. Tu voltado para fora, eu voltado para dentro. Tu minando a terra, eu furando um covil. Havia o encontro da verdade, um gosto que aproxima quem vê para lá do arrivismo pacóvio das múmias, uma incontrolável inclinação para o terrorismo poético que junta piratas das ilhas e solitários pistoleiros do Oeste. E tudo isso num longo poema em prosa premiado de romance, as relações de poder entre agentes sociais num cenário futurista, fantástico, a alegoria da caverna de pernas para o ar, a verdade nas sombras, ficção científica com emoção nas leis porque uma lei científica pode ser tão comovente quanto um verso. Não há lugar para homens azuis nas editoras portuguesas, os leitores são estúpidos e não entendem as dificuldades do coração, os editores são merceeiros preocupados com a sustentabilidade das empresas que os contratam, os editores deixaram de ser o suporte dos autores para passarem a ser conselheiros de imagem. Estamos feitos. Resta-nos um minuto de antena na televisão nacional, pouco mais que isso para dizer ao mundo que não há dificuldade alguma nas sombras, apenas e tão só a sabedoria da música.


Irmão cosmológico, a poesia morreu. Um dia far-se-ão exposições em sua honra no Palácio de Cristal, teremos poetas agrupados por classes, fadas e feiticeiros, bruxas malvadas e princesas virgens, só as crianças poderão compreender-nos. Talvez venhamos a merecer uma escultura de areia num festival algarvio, cabeças de dinossauro antropomórfico. É o lado para onde durmo melhor. Andamos todos tão angustiados com a falta de chuva, olhamos para o relógio e contamos os minutos que nos faltam para um silêncio absoluto, e enquanto assim o mundo rodar negligenciaremos o amor sem vontade alguma de voltar a perguntar: queres ser? Delmore Schwartz esteve vários dias na morgue sem que alguém reclamasse o seu corpo. Muitos de nós passarão uma vida inteira sem se verem reclamados. Escreveremos por razões inúteis, sim, e soltaremos os dedos pelas páginas como quem solta leões na praça de um Coliseu. Mas há a lógica das coisas que é preciso minar, questionar, há essa organização mental do mundo que importa provocar com uma dúvida ou, talvez, uma aporia ou, porque não, um paradoxo: as limitações do amor são infinitas.

4 comentários:

alice macedo campos disse...

"tive muitas divergências com o Rui Costa e continuarei a ter muitas divergências com o Rui Costa, e ainda bem" (Henrique Fialho).

dama disse...

Não te saíste nada mal, pezinho grácil :)

hmbf disse...

:-)
não dançava, se é que se pode chamar dançar àquele balanço, há uns bons 10 anos

olha, valeu

:-)

Uma Rapariga Simples disse...
Este comentário foi removido pelo autor.