sábado, 15 de dezembro de 2012

A SOCIEDADE ESTÁ PODRE


A sociedade está podre
já fede
e não lhe cheira,
o mal só se vê nos outros
só cheira nos outros:
quando o mal é nosso
pegaram-nos
é um mal estranho.
Disseram que o homem é um animal social
aí o têm
arranjaram-na bonita.
E se calhar estão todos como eu.
Quem nos teria posto em sociedade?
Quem fez de «todos» uma realidade
ou estava a pensar na lua
ou doente de paranóia.
Que linda ideia: «Todos!»
E mais ainda: «o bem de todos!»
Serei parvo ou imbecil
só entendo cada um.
Vejo até por mor de todos
dar cabo de cada um.
Não quero mal a ninguém
mas já tenho raiva a todos.
Isto de levar cada um a ter raiva a todos
é igualzinho a desejar o bem comum
lindas maneiras de eliminar a cada um.
Porque a sociedade é de alguns
alguns daqui e alguns d'acolá
«alguns» não pode deixar de ser contra alguns
é a guerra de grupos de cá e de lá
bem diferente das batalhas de cada um.
E quando nós pertencemos a um grupo
ou contra ele ou não somos de nenhum
o mesmo dá
andam connosco às voltas
e nós a zero
no cabide
esquecemo-nos de nos levar connosco
fizeram-no-lo esquecer
falaram-nos no bem de todos.
Todos! essa conta que ninguém sabe somar
e que nos faz suar
a nós, as suas parcelas
todos juntos para simplificar
mais simples que todos é impossível
quem foi o da ideia?
Lindas maneiras de eliminar a cada um.
Em qualquer sítio onde um seja apanhado
aí mesmo o fazem soldado
e dão-lhe o sítio pra defender
um pedaço de terra com significação
pois que chamam civilização
andarem os homens agrupados
e como há vários lados em toda a combinação
fazem-nos parte de todos os de um lado
e não entendemos todos
que nos matam um por um por todos os lados
em nome da sociedade.
Que nos mate a morte já o sabíamos
mas que ponham o ferro a explodir
para não escapar nem um
que outro sentido poderá agora ter a morte
do que o de um acidente provocado?
Isto tira valor à morte
como à vida lhe tiraram todo o sentido
foi a tal ideia de «todos»
que pôs isto neste estado.
Pode limpar as mãos à parede
o homem que teve a ideia de sociedade
e também aquele que disse
que éramos um animal social.


José de Almada Negreiros (manuscrito s/d, publicado pela primeira vez nas Obras Completas, INCM, 1985)

2 comentários:

Anónimo disse...

Chamem-lhe coincidência ou o que seja, mas isto está constatemente a acontecer-me. Isto o quê? Simplesmente ler ou ouvir algo que brevemente 'encaixa' em algo. Lido há uns minutos, A Gaia Ciência, Nietzsche, aforismo 149 - Malogro Das Reformas: "(...) Quando mais se vê um indivíduo, ou o pensamento desse indivíduo, agir de maneira geral, e absoluta, mais necessário é que a massa sobre a qual ele agiu tenha sido uniforme e baixa; os movimentos de oposição revcelam, pelo contrário, necessidades opostas que exigem também que se satisfaçame imponham. Inversamente: pode-se sempre concluir por um elevado grau de cultura quando se vêm naturezas poderosas, dominadoras, chegar apenas a exercer uma influência restrita, limitada a seitas(...). Onde se domina, existem massas: onde há massas, há uma necessidade de escravatura."

Ivo disse...

(Anónimo <-> Ivo)