Em 1966, o realizador italiano Sergio Corbucci
(1927-1990), desprezado pela crítica, mas bastante popular, estreou Django, um
western-spaghetti que acabou por se transformar num filme de culto. Quentin
Tarantino (1963), cujos genes misturam o que de melhor alguma vez a natureza
inventou (italianos, irlandeses e índios), há-de ter sido um dos cultores. Na
sua origem, o denominado western-spaghetti é um western, de baixa produção,
saído da Cinecittà, com o recurso algo interesseiro a actores norte-americanos
de série B, muita violência e música épica a condizer. O autor de Pulp Fiction (1994),
também ele acostumado às produções de orçamento reduzido, há muito deixou de
ser um filho da contracultura, adoptado que foi pela máquina de consumo que domina
a indústria cinematográfica. No entanto, sejamos justos: no caldo fantasista e embusteiro
da cultura de massas, Tarantino ainda é osso com carne.
Argumentista de primeira, consegue fazer-se implodir a si
próprio, gordo que nem um texugo, numa das cenas do seu mais recente filme. A nota,
de uma auto-ironia reveladora do espírito galhofeiro que o realizador imprime nas
suas obras, é relevante, pois revela-nos uma atitude em conformidade com o
estilo. E Tarantino é, sobretudo, estilo. Django Unchained está longe de ser um
western-spaghetti “epigonal”, embora preste culto disciplinado aos mestres. Estão
lá Leone (a entrada em cena de DiCaprio lembra, em tudo, a primeira aparição de
Henry Fonda em Once Upon a Time in the West), a música de Ennio Morricone, a
violência, o grotesco, o humor. Há nesta atitude tanto de humildade como de
exibicionismo, pelo que não nos deveremos deixar deslumbrar pelas evidências.
Exímio argumentista, com um imaginário densamente povoado
por referências culturais que a todo o momento extravasam fronteiras, Quentin
Tarantino oferece-nos em Django Unchained alguns dos momentos mais
dignificantes desse género maior que é o humor negro. Negro, negríssimo, como
mais negro não pode haver, fazendo-nos rir da crueldade com uma genuinidade desconcertante.
Talvez a polémica em torno do filme tenha aí a sua justificação. Mais do que o
problema do racismo, tão amplamente filmado, escrito, discutido, representado,
este filme enceta na assistência o desconforto de uma promiscuidade entre o que
é visto e o que apenas é sugerido. Quando privado das suas confortáveis fronteiras
e certezas absolutas, o público reage. Este filme merece que reaja com a
renovada inocência dos primeiros espectadores das gun operas, um conceito que
nunca terá feito tanto sentido desde a invenção do western por Edwin S. Porter.
A violência desta autêntica gun opera, que faz escorrer pelo menos tanta
tinta nos papéis como a utilizada durante as filmagens para caracterizar
corpos estilhaçados, desfeitos, dentados, rasgados, partidos, perfurados por
balas fatais, chega a ser um toque de requinte na construção de um universo
artístico que desde sempre tem na exibição do corpo uma das suas matrizes. Nada
que choque tanto quanto a consciência do que foi/é essa realidade chamada
escravatura, aqui clara e voluntariamente caricaturada e desfigurada com impressionantes
requintes de malvadez.
Podemos até supor uma eventual necessidade catártica nas
personagens engendradas por Tarantino e irrepreensivelmente interpretadas por Jamie
Foxx, Christoph Waltz, DiCaprio, Samuel L. Jackson, Don Johnson... O que importa reter é o que o filme nos oferece: a possibilidade de especularmos
sobre o gozo que dá desfazermos mitos sem outra preocupação que não seja a de
refazermos a nossa própria história. E nesse sentido é de uma extrema
inteligência trazer à liça uma ópera de Wagner (O Anel do Nibelungo) misturada
com um western, ainda por cima, spaghetti, porque, de facto, quando tocamos no
essencial todas as fronteiras desaparecem e tudo se interliga. Entre as salas
de teatro e as salas de cinema não é assim tanta a distância, como entre a
realidade e a ficção, a dor e o prazer, o amor e o ódio, o humor e a crueldade. A vida e a morte.
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