terça-feira, 25 de junho de 2013

INCONSTANTE VENTO

De passeio pelas velharias, encontrei um pequeno volume, datado de 1941, com as Sátiras de Nicolau Tolentino (1740-1811), esse que dizem ter inspirado o poeta Alexandre O’Neill. Estava marcado a 2€. Fui para pagá-lo com uma nota de 10€, mas como o sucateiro não tinha troco ficou-me com as moedas que trazia na carteira. Custaram-me as Sátiras 0,87€. No prefácio, Rodrigues Lapa diz o seguinte: Até à sua morte, em 22 de Junho de 1811, Tolentino levou uma vida tranqüila e apagada, apenas cortada de um ou outro sobressalto, como foram as invasões francesas. As suas obras poéticas corriam já o mundo, em cópias manuscritas. Lembrou-se de as imprimir à custa do Estado. Recomeçou as suas choradeiras em verso a êste e àquele, alegando agora as suas dívidas. O certo é que conseguiu uma vez mais o que queria: em 1801 saíu a edição, em dois volumes. Ladino como era, negociou logo a propriedade da obra, que não lhe custara vintém, pela soma exagerada de 4.800.000 réis! Inocêncio da Silva, que dá esta informação, nota que o pobre Bocage vendera em 1791 a propriedade do tomo I das suas Rimas por 48.000 réis. Ora, há que aprender com Tolentino. Continua Rodrigues da Lapa: Para viver, só um recurso: bajular os grandes, os senhores da vélha fidalguia que detinham o poder. Assim se formou a raça de poetas parasitas, que já vinha do século XVII e alastrou por todo o século XVIII. Como há vírus inextinguíveis, pelo séc. XIX continuaram, no XX se instalaram e no XXI permanecem bajulando a troco por vezes de migalhas, outras vezes de cargos, outras tantas de meros encómios que garantam, pelo menos, lugar cativo na primeira fila da plateia. Com uma diferença, foi-se-lhes o estro e mais não sabem escrever do que decalques sem mestria. Ora tomem lá do Tolentino:




Vai, mísero cavalo lazarento,
pastar longas campinas livremente;
não percas tempo, enquanto to consente
de magros cãis faminto ajuntamento.

Esta sela, teu único ornamento,
para sinal de minha dor veemente,
de torto prego ficará pendente,
despojo inútil do inconstante vento.

Morre em paz, que, em havendo algum dinheiro,
hei-de mandar, em honra de teu nome,
abrir em negra pedra êste letreiro:

«Aqui piedoso entulho os ossos come
do mais fiel, mais rápido sendeiro,
que fôra eterno, a não morrer de fome».

3 comentários:

Rui Almeida disse...

Diz o O'Neill, num poema:

«Dizem que me junqueiro, que me tolentino
o até que me paulino,
que tenho tudo e todos no ouvido
e não sou nada original.

Sim senhores, tem visos de verdade!»

hmbf disse...

E mais:

AUTOCRÍTICA:

Talento?
Tolentino?

Tolos!

Rui Almeida disse...

«- Ó Gaspar Simões, conte-lhes Você...
- Dos dois ou três nomes que o surrealismo...»

E o JGS conta:
«Alexandre O'Neill vem do surrealismo, e o seu opúsculo Tempo de Fantasmas, publicado em 1951 pelos Cadernos de Poesia, se deixava adivinhar um poeta de seguros recursos formais, ainda nos não habilitava a ver nele uma espécie de Nicolau Tolentino do nosso tempo. É com a mão no nariz que o vamos encontrar agora diante do Reino da Dinamarca, que é não só a poesia, certa poesia, dos nossos dias, mas toda uma classe da sociedade contemporânea. Bem certo que este novo Nicolau Tolentino não se louva nos destemperos pedinchões do seu émulo setecentista. Mas está hoje esclarecido que o feitio louvaminheiro e as arremetidas pedinchonas do grande mestre da nossa poesia do século XVIII escondiam uma sagacidade burlesca em que havia, por assim dizer, a duplicidade de um truão. Eram os vícios, não os homens, que ele dizia verberar. E à sombra desta subtil cambiante, ei-lo a expor à irrisão dos povos aqueles mesmos a quem estendia a mão de olhos baixos e verbo encomiástico.»
(artigo de 3-VII-1958, recolhido em Crítica II)