domingo, 20 de outubro de 2013

TORTURA

Toda a minha vida foi passada a calcular o mal menor, na merda da política, é isso sujar as mãos.
José Sócrates
 
 
A Revista do Expresso desta semana é, a todos os títulos, memorável. Clara Ferreira Alves, sobre quem Vasco Pulido Valente escreveu, em tempos, isto (convém não esquecer), entrevista o ex-PM José Sócrates, figura política ambivalente que, diga-se o que se disser, consegue com esta entrevista fazer algo de absolutamente inovador na política portuguesa contemporânea: falar claro. Isto não quer dizer que concordemos/acreditemos na sua versão dos acontecimentos. É apenas uma versão. Quer apenas dizer que admiramos a clareza, e já agora a inteligência, venha ela de onde vier. O próprio prefácio à entrevista, na crónica habitual da Pluma Caprichosa, não deixa grande espaço para dúvidas. Quem não se sente, não é filho de boa gente. Veremos se a reacção dos visados será tão sóbria e discreta, que é o mesmo que dizer calculista, como costuma ser. Os famigerados silêncios do Presidente da República, outrora tabus, sempre foram muito pedagógicos. Mas diz CFA:
 
«Este Governo, o de Pedro Passos Coelho, nasceu de uma infâmia. No livro “Resgatados”, de David Dinis e Hugo Coelho, insuspeitos de simpatias por José Sócrates, conta-se o que aconteceu. O então primeiro-ministro chamou Pedro Passos Coelho a São Bento para o pôr a par do PEC4, o programa que evitava a intervenção da troika em Portugal e que tinha sido aprovado na Comissão Europeia e no Conselho Europeu, com o apoio da Alemanha e do BCE, que queriam evitar um novo resgate, depois dos resgates da Grécia e da Irlanda. Como conta Sócrates (…), Barroso sabia o quanto este programa tinha custado a negociar e concordava com a sua aplicação, preferível à sujeição aos ditames da troika, uma clara perda de soberania que a Espanha de Zapatero e depois de Rajoy evitou. Pedro Passos Coelho foi a São Bento e concordou. O resto, como se diz, é história. E não é contada por José Sócrates, que um dia a contará toda. No livro, conta-se que uma personagem chamada Marco António Costa, porta-voz das ambições do PSD, entalou Passos Coelho entre a espada e a parede. Ou havia eleições no país ou havia eleições no PSD. Pedro Passos Coelho escolheu mentir ao país, dizendo que não sabia do PEC4. Cavaco acompanhou. E José Sócrates demitiu-se, motivo de festa na aldeia».
 
Podemos acreditar que tudo se passou exactamente assim. Para as nossas vidas, é indiferente saber o que há de verdade ou conspirativo nestes jogos palacianos. Ganhamos o mesmo, vão-nos ao bolso sem vergonha nem piedade. Mas em dia de manifestação, depois de umas autárquicas com os resultados conhecidos, esta água oxigenada que pretende lavar as mãos do PS é a cereja no topo do bolo. O invisível Seguro bem pode continuar entregue às suas reflexões. 39 anos de democracia praticamente divididos entre dois partidos, os socialistas e os sociais democratas, com o apoio do apêndice populista em múltiplas e sempre interesseiras versões, que quase não se distinguem pela sua tradição oligárquica, distribuindo tachos pelos lacaios bem comportados, promovendo eventos ruinosos, políticas desastrosas e conluios criminosos, para não falar da eterna promiscuidade entre poderes político e económico, dando cabo da indústria, da agricultura, do pequeno comércio, trouxeram-nos aqui, a isto, a este lugar tão precário e irritantemente ardiloso que é o Portugal dos coelhos e dos portas e dos sócrates e dos barrosos e dos santanas… Um Portugal enraizado nessa coisa que em certos sítios se chama corrupção, mas que por cá vai assumindo a curiosa e eufemística corruptela de amiguismo com seus BPNs, cavacos, limas, loureiros… Este país é mesmo uma anedota. Clara Ferreira Alves conta-a com estilo, José Sócrates é a personagem ideal. Foi, claralvesmente, objecto de campanhas difamatórias torpes e de repugnantes ataques ao homem, foi aquele saco de boxe que os portugueses adoram ter à mão para se esquecerem do quão mesquinhos são quando toca a pôr as acções em conformidade com o pensamento. Faz o que eu digo, não faças o que eu faço, é o lema preferido deste povo, que se pela por um corrupto a quem apontar para, enquanto o aponta, não ter que se apontar a si próprio. Como tantas vezes se escuta por aí, “pudesse eu e faria o mesmo”. São assim as pessoas, mais não se pode esperar delas. É por isso muito provável que quando voltarem a ser chamadas a exercer o mais nobre dos seus direitos cívicos, elas já tenham recalcado os relvas, os gaspares, os machetes, as ministras swap (isso é tudo muito complicado), enfim os sócrates. Daí que seja tão importante não permitir que a probabilidade se transforme em facto.

1 comentário:

Carlos Azevedo disse...

Olha, olha, já nem me lembrava dessa badalhoquice do VPV. É útil não esquecer, sim, sobretudo porque, volta e meia, quase sucumbo ao estilo da escrita do homem (o conteúdo, esse, muitas vezes, nem para estrume serve).