segunda-feira, 27 de outubro de 2014

CORAÇÃO QUASE BRANCO

Numa breve nota de imprensa, Coração Quase Branco (Edições 50kg, Julho de 2013), de António Cabrita (n. 1959), aparece apresentado como breve romance sobre um misterioso crime. Não serei eu a retomar a discussão sobre a natureza do romance. Ainda há pouco deixei aqui nota de leitura sobre Apenas Uma Narrativa (1942), romance que assim era porque o seu autor não o pretendia de outra forma. O que me parece errado, até contraproducente, é conferir ao texto de Cabrita um tom policial. Tendo na origem a morte de Ricarte-Dácio de Sousa, o texto evolui para interrogações que transcendem qualquer tipo de especulação sobre essa morte. De resto, essa evolução parece-me até denotar uma recusa, ou uma resistência, a tal especulação.
   Mas quem foi Ricarte-Dácio de Sousa? Alfarrabista próximo dos grupos surrealistas lisboetas, não aparece mencionado nas antologias nem nas enciclopédias do movimento. Tornou-se, por um lado, tabu, por outro lado, numa espécie de mito indecifrável. A morte de Ricarte-Dácio parece esgotar o tema Ricarte-Dácio. Porquê? Porque se suicidou depois de ter disparado fatalmente sobre a mulher, o filho e o gato. Suicídio precedido de crime tão horrendo afecta até as mentes mais impúdicas, que rapidamente se encarregaram de não fazer as questões que António Cabrita agora faz: «Também eu como tu, no rodapé da miséria, desenganado, triste como as neves de Maio. E se eu tivesse uma arma?» (p. 9)
   Acautelemos, desde já, interpretações abusivas. Não se trata de desculpabilização, até porque a culpa tem muitas faces e quase sempre morre solteira (em certas matérias o povo é bom conselheiro). Trata-se, antes, de um esforço de compreensão, um esforço de compreensão porventura mais autocentrado do que possa parecer. A questão não é quem matou Ricarte-Dácio, mas por que não se mata António Cabrita. Colocada assim a questão escusamo-nos de explicar o erro em que incorreríamos se partíssemos para a leitura desta correspondência póstuma como se estivéssemos perante uma investigação criminal. Na realidade, o crime aqui investigado é apenas aquele que está por suceder. E isso desassossega-nos, inquieta-nos, pois o espanto não é que perante o infortúnio uns se matem, mas sim que outros permaneçam vivos.
   Sobre Dácio oferecem-se hipóteses tais como «um sentimento de impotência», «negócios e amigos ruinosos», «trombose da tua mulher bretã», «o dinheiro gasto em jogo da sorte», «o peso das dívidas», «o filho tardio», «o vinho»… Enfim, razões para a morte nunca há apenas uma e todas elas são vulgares. Também todas elas se conjugam e nenhuma serve de explicação. Mas sobre os que ficam algo se impõe na consciência: «O que mais me chocou é que nenhum deles, dos teus amigos de sempre, ousou duvidar. Receberam o teu crime como a abominação que aparentava, envergonhados por teres virado aos canos do sniper de Breton para o seio familiar. Algo tão grave como descobrir-se que Cristo afinal defecava» (p. 9). Mais do que ajuste de contas, a constatação comove. Aliás, todo este texto, quer na sua revolta expressiva, quer na sabotagem que faz da tragédia com elementos cómicos e memórias de situações caricatas, quer no que denota de exercício ou de exame de consciência é comovente. Comovente na forma como exige a dúvida perante o que aparenta certeza, comovente na capacidade de se interrogar sobre as razões do desespero, comovente também por nele a falência dos projectos não servir de justificação, pois o que aqui está em causa é uma necessidade, uma urgência, até uma missão que tem no esforço de compreensão da existência o seu motivo e o seu fim.
   Ao incluir no texto afirmações factuais, como, por exemplo, as do alfarrabista Luís Gomes aquando da morte deLuiz Pacheco, António Cabrita transporta a sua missiva para um lugar que pouco tem que ver com os domínios da ficção. As histórias que se contam no interior deste exame acabam por conferir à prosa um incontestável interesse autobiográfico. Já de Moçambique, falando de si e expondo a sua situação, o autor expõe-se: «A mim, tão cobarde e falido de esperança e de qualidades, engolindo em seco a áspera escama do escuro, só resta a pergunta: e se tivesse uma espingarda neste momento e caísse na tentação? Detestaria que depois falassem nos abismos da mente e nos infernos de cada um» (p. 15). De que falar, então, senão daquilo que nos desvia da tentação? Buganvílias? A mulher e as crianças que se ama? O homem sem dedos cuja agilidade assombra quem tem as mãos completas? Quem tem as mãos completas?
   O grande mistério sugerido por Coração Quase Branco é o da resistência, o dos modos com que cada ser humano se reinventa e inventa para a vida uma certa suportabilidade, pois precária é a existência de todo aquele que nasce à morte. Nenhuma tragédia, diria, há neste ritual, haverá porventura o drama da reinvenção. Cómico é que perante a certeza da morte haja quem a interrogue como se valesse a pena.

1 comentário:

antónio cabrita disse...

thanks, camarada, um abraço