quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O RESTO É PAISAGEM

Leio no Malomil, de enfiada, uma série de transcrições de entrevistas a escritores. Sou traído pela repetição. As primeiras provêm de uma entrevista a António Lobo Antunes, vou lendo da mais recente para a mais antiga. Às tantas, deixo de verificar a autoria do dislate e a sua proveniência. E no final dou com José Luís Peixoto. Lobo Antunes e Peixoto, um mesmo discurso, um mesmo tom, uma mesma frivolidade. Tudo tão tacanho que seria estúpido querer pertencer a um clube destes. Ah, que bem se está na paisagem deste país.

6 comentários:

Miguel (St. Orberose) disse...

Acho que é muito fácil pegar em frases, escrever "De Profundis" por cima delas em tom irónico, e induzir leitores a ver nelas algo de estúpido. Mais intelectualmente interessante seria ver António Araújo explicar, de forma cogente e clara, o que há de errado com elas. Porque eu, quando ainda levava o Malomil a sério, antes de ver nele mais um blog português maldizente, lia e relia estas frases a tentar perceber o que havia de errado nelas e invariavelmente não encontrava nada, ou então muito pouco.

Araújo é mais um crítico daquilo que eu chamo o "reino das auto-evidências." Neste reino a explicação e a persuasão são substituídas pela afirmação auto-evidente: "Isto é estúpido, isto é mau, porque eu o digo, porque eu tenho uma inabalável autoridade e posso abdicar da explicação."

A posse, tão à Pulido Valente, João Pedro George, Paulo Tunhas, Eduardo Cintra Torres, Luiz Pacheco, Pedro Mexia, não me impressiona nada. Lamento vê-lo ficar caído por ela; dava-lhe mais crédito.

hmbf disse...

Araújo parece-me situar-se nos antípodas do meu pensamento político (eu sou comunista), pelo que me sinto ainda mais à vontade para discordar de si. Leu, por exemplo, a recente crítica que ele assinou sobre uma "biografia" de Agostinho da Silva? Bolas, aquilo só é o "reino das auto-evidências" se entendermos por "reino das auto-evidências" explicar clara e inequivocamente o que é um péssimo livro.

hmbf disse...

Eh lá, e você mete o Mexia ao lado do Pacheco? Queira Deus que ninguém nos leia. :-)))))))

Miguel (St. Orberose) disse...

A resenha sobre a biografia é excelente; penso que foi o último bom texto dele. Daqui a um mês deve escrever algo de igual valor. Mas embora cada um faça o que quer com o seu blogue, pergunto-me porque é que o talento crítico dele só floresce quando se trata de mandar abaixo? Parece que em Portugal não há um único romance, ensaio, poema que mereça um elogio, mais, o apoio de um blogue popular como o Malomil que poderia apresentar um bom escritor ignorado a mais leitores.

Talvez pense assim porque a minha minha concepção da função do blogue nasceu toda da blogosfera anglo-americana, onde blogues literários são acima de tudo esforços de amor realizados por entusiastas que trazem à atenção literatura pouco comercial que o mainstream (New York Time, Pulitzer) finge não existir. Há um genuíno sentido de missão em combater a literatura comodificada. Aliás é por isso que gosto deste blogue, por lidar com a literatura mais obscura.

Quanto ao Araújo, não compreendo alguém que tenha necessidade de escrever 60 páginas word contra José Rodrigues dos Santos (que não sofrerá um avo nas vendas por isso) quando podia estar a escrever sobre bons mas ignorados livros. Como também não compreendo que um doutorado escreva um ensaio de 100 páginas contra Margarida Rebelo Pinto (e que seja considerado corajoso por isso; Harold Bloom é considerado corajosos por achar J.K. Rowling lixo?). Não conheço nenhum grande crítico anglo-americano que tenha perdido tempo a escrever 100 páginas contra Stephen King, Anne Rice, Dan Brown, Robert Ludlum. É inútil.

Quanto ao Mexia, noto nele o mesmo problema de Pacheco como resenhista: fala demais sobre o autor, muito pouco sobre o texto. Já li resenhas de ambos onde cheguei ao fim a saber exactamente o mesmo sobre o livro; mas fiquei a saber muitas coisas banais sobre a cor política e o que fazem quando não escrevem, e onde estudaram em miúdos, e quem foram os colegas de secretária - merdas inúteis, portanto.

O Pacheco tem a irritante agravante de ainda por cima falar sobre si mesmo, como se eu quisesse saber da vida do resenhista quando leio uma resenha. Eu sei que Pacheco está canonizado em Portugal, mas eu comparo-o a outros críticos literários - Kundera, Borges, Eliot, Calasso, Sena, Casais Monteiro, Barth (não o Barthes), Gass - e só vejo um peso-pluma intelectual que transformava cada resenha numa espécia de Big Brother onde expunha a sua vidinha insignificante, que, sejamos honestos, fascina mais os leitores ignaros do que as obras literárias, que assumem mero papel de catalisador para ele falar sobre o único tema que o apaixonou: ele próprio.

hmbf disse...

Já li textos muito elogiosos do AA. Por exemplo, o texto que escreveu sobre "Ouro e Cinza", do Paulo Varela Gomes. Mas não posso falar muito porque só acompanho o que vai sendo partilhado no Malomil e estou muito longe de ver tudo o que por lá se publica. Weblogs estrangeiros, só leio dois (ambos sobre westerns). A sua posição é semelhante à que tive relativamente ao trabalho crítico do João Pedro George. Também achei uma perda de tempo o ensaio/livro sobre a MRP publicado, curiosamente, pelo valter hugo mãe. E o texto sobre JRdS é pura diversão. Não ligo muito a essas coisas. Tenho pouco tempo e procuro aproveitá-lo de outra forma. O Luiz Pacheco tem textos críticos muito bons, outros são puro lixo (como diz). Não se é perfeito. A caracterização que faz do Mexia parece-me mais adequada ao Pitta, um biografista nato. Os escritores portugueses que escrevem sobre livros e que gosto de ler são outros: JMMagalhães, Jorge de Sena, António Ramos Rosa, Silvina Rodrigues Lopes, Pedro Eiras, João Barrento... Não gosto do conceito de crítico literário. É uma irritação. Gosto do que Borges fazia, muito inteligentemente, em textos breves e certeiros. E revejo-me no que diz a respeito deste weblog, agradeço-lhe a nota.

Miguel (St. Orberose) disse...

Sim, eu lembro-me do texto sobre Varela; mas foi para o Público. Geralmente escrever para um jornal obriga a um tom menos agressivo (compare-se o tom de Rogério Casanova no blogue, irritantemente cheio de asneiras como se fosse um adolescente, e os profissionais textos de imprensa) excepto quando demolições são encomendadas para gerar falario e vendas (penso no texto de Pulido Valente sobre Sousa Tavares)

Sobre Pacheco, tem tido mais sorte do que eu; só encontro o lixo; que bons textos críticos me recomendaria, em que livros se encontram? Nunca tenho contra mudar de ideias, se houver razão para isso.

Mexia consegue ser obtuso e encher um texto de redundâncias. Em 2001 escreveu sobre A Caverna, de Saramago, e passou mais de metade do texto a falar sobre a vida de Saramago antes do Nobel. Quando finalmente abordou o livro em si já não tinha tempo para muito, portanto começaram as "auto-evidências:" o livro é chato, é difícil, é pomposo, tudo sem explicar com exemplos do livro. Ao todo citou 3 palavras de um livro com 354 páginas. Foi o primeiro livro de JS após o Nobel, e percebia-se que a crítica era mais para atacar Saramago por ser comunista e ateu (Mexia é católico e de direita) do que em falar sobre o texto. É por isso que digo que ele fala mais sobre o homem do que a obra. Isso não é boa crítica para mim.