terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

DOIS LIVROS DE DANIEL JONAS

O episódio da baleia narrado no Livro de Jonas tem sido, ao longo dos tempos, objecto de várias exegeses, sendo certo que entre ter ido parar ao estômago do peixe e ter regressado à terra o profeta experienciou uma espécie de morte cujo significado alegórico será o da misericórdia divina. Talvez por afinidades homónimas, o poeta Daniel Jonas (n. 1973) serve-se do mesmo episódio em momentos diversos da sua obra. Meio ano separa as edições de Passageiro Frequente (Língua Morta, Outubro de 2013) e Nó - sonetos (Assírio & Alvim, Abril de 2014), recolhas distintas na forma mas próximas no conteúdo. No poema Spleen, do primeiro livro, a baleia surge enquanto resquício da imemoriabilidade: «Cemitério de todos os sóis / o mar, cinza / onde habita o beemote do tempo, / a grande baleia do oblívio / sob socalcos de aço, / na chapa recurva, / sucata de toda a metáfora. // Porquê dizê-lo? / Cansaço de o dizer… // O mar é uma maçada» (p. 43). Já no segundo livro, a baleia surge logo no primeiro verso enquanto evocação explícita do episódio bíblico: «Do ventre da baleia ergui meu grito: / Senhor!» (p. 9) , cujo subtítulo demarca o conjunto pela forma clássica dos poemas, não deixa de ser, contudo, um livro tão moderno quanto Passageiro Frequente o é. Não obstante, para sermos justos temos que afastar os parâmetros de clássico e de moderno desta poesia. A sua principal marca é, precisamente, a de uma intercepção dos tempos e das épocas através da prática de um lirismo consciente da história, assimilador do que toma por herança tanto a nível formal como a nível temático. A linguagem rica, eivada por vezes de um barroquismo extenuante, integra termos estrangeiros, locuções latinas, resgata para a contemporaneidade uma pontuação caída em desuso, com exclamações e reticências a rodos, numa densidade lexical que poderia soar enfatuada não fosse a extraordinária capacidade do autor para desfazer mitos com tiradas humorísticas, jogos de palavras, trocadilhos. Tomando os sonetos de como exemplo, veja-se o último verso da página 19: «Soneto, és um logro. Argh… Estás velho!» Remate irónico, até porque nada de velho há nestes sonetos erguidos a partir de um bestiário formado por caracóis, furões, ratazanas: «Ó pária dos postais, que te reparem / Os meus olhos é porque os vergam malas / E rasos de água andam, rente às valas. / De tanta água admira flor não darem…» (p. 50) O inusitado da fauna contrasta com a aparente seriedade de um discurso assente em referências bíblicas e clássicas, seriedade esta minada pela ligeireza de reflexões mais ou menos jocosas: «A vida… bem, tem dias… gosto dela… / Mas ela não é nada nem é grande. / Às vezes ela é tudo, às vezes nada. / Enfim… não há senão sem haver bela» (p. 12). Mesmo quando os temas são pesarosos, Daniel Jonas exibe um excepcional domínio prosódico no embalo do qual a linguagem oferece à forma clássica um tom verdadeiramente hodierno:

Pensar, pra quê? Que pensem outros. Raro
O pássaro que faz do céu seu ramo.
Eu quero pensar muito é nos que eu amo
Antes que a morte aponte a mim seu faro.
Pensar: que desperdício, que inocência!
Pensar que por pensar virá Atena…
Pensar é sonho, ordenha de éter, pena
Sovada no badminton da ciência.
Que deixarei de mim, um pensamento?
E este meu papel qual tumba fria
Parece querer beber a elegia,
Treinar aqui, qual pedra, o meu lamento…
Ó ópio, Ó óleo, Ó ócio deste ofício!
Pensar que toda a arte é artifício!

Se este soneto não é dos poemas mais modernos e actuais que a língua portuguesa conheceu nos últimos anos, então não sei o que possa ser. Moderna quando parece clássica, clássica quando parece moderna, a poesia de Jonas é de uma transversalidade formal impressionante. Podemos argumentar que, no limite, se trata de experimentação e trabalho de linguagem (como se toda a poesia o não fosse). Mas não é apenas isso. Não se observa aqui o vazio reflexivo que é possível apontar à maioria da poesia deste tempo que é o nosso. Não estamos na exclusividade do carácter lúdico que a poesia também aceita e os cursos de escrita criativa se encarregam de disseminar. Muitos dos poemas de Passageiro Frequente tendem, inclusive, a direccionar-se para uma interiorização de tipo pessoano que interpela o leitor. São disso exemplo poemas maiores tais como Imitação de Vida, Praia Pensada ou Olhando Para Trás, Ele Considera e Lamenta, mas também versos como estes do poema Autocarro: «Ah, autocarro, tudo é sensação, / até tu que não passas de símbolo de ti // e tu passares um simulacro, / que és espectro de ti mesmo, / e parares dares a volta ao mundo // pois tudo é princípio e fim / e volta sem passagem» (p. 16). Evocações de cidades como Londres e Paris misturam-se nestes poemas com uma flora que nos envia para lugares do pensamento, num percurso onde o lirismo sai frequentemente velado pelas subtilezas da ironia. Este passageiro que frequenta as “cicatrizes sociais” do seu tempo interroga-se sobre o ofício da escrita, coloca-se no centro das suas próprias reflexões sem se apartar das circunstâncias. Amiúde confessa: «Eu penso sobre mim e sou tão triste» (p. 8). Ou: «Oh, ónibus desta vida aziaga / que lenta é a minha tristeza!» (p. 15) Ou ainda: «Não sei se imitou a areia / as dunas do mar / se o mar / as ondas da areia // mas eu estou triste…» (p. 42) Também num dos sonetos dirá: «Ando sem gosto, amargo, sem esperança… / E agora estou tão só, oh, ando triste» (p. 40). A manifestação dos estados de alma, sobretudo da tristeza, faz-se acompanhar do tédio e do cansaço, da consciência do Tempo enquanto ditador que subjuga a vida às suas vontades, repetindo, desse modo, os grandes temas da poesia universal (amor, morte, tempo…) sem resvalar na banalidade. No fundo, é disto que se trata:

ESTOU PARADO

Estou parado
tentando não causar dano
com nenhuma das minhas acções.

Quando parado
sei que há menos possibilidades
de alguma coisa acontecer.

Por isso estou parado
revolvendo os olhos e a cor
como um cavalo-marinho

levitando

como o camaleão
que a própria espera altera
e reveste de cor reagente.

Não me mexerei
até que a inquietude de outros
envie Hermes a minha casa.

4 comentários:

Marina Tadeu disse...

Ora eis alguém que sabe o que está a fazer. E que ouvido apurado. Desconhecia. Muito obrigada, Henrique. Vou ver se o palmo numa livraria em Londres.

hmbf disse...

Olá Marina. Já agora, se não conheces, deixa-me acrescentar que o Daniel Jonas é um excelente tradutor. A versão que levou a cabo do "Paraíso Perdido", de John Milton, é das mais celebradas.

Miguel (St. Orberose) disse...

"Pensar, pra quê? Que pensem outros."

Confesso que não acho este soneto dos mais modernos e actuais que a língua portuguesa conheceu nos últimos anos, mas tenho uma ideia do que possa ser: um decalque de Alberto Caeiro, o poeta anti-pensamento, anti-filosofia, que via apenas sem reflectir sobre o que via.

O seguinte:

"Estou parado
tentando não causar dano
com nenhuma das minhas acções."

Vai também buscar os jogos paradoxais de Pessoa e a inacção que atravessa Ceiro e Reis.

Tem talento? Tem. É louvável que ainda haja alguém que saibe fazer rimas e métricas nesta era de vers libre mecânicos? É. Mas tenhamos calma nos elogios. Como tantos outros antes dele, ainda vive agrilhoado a Pessoa; e talvez de uma forma que Sena e sophia nunca viveram.

jardins da pele disse...

Engraçado como as pessoas embaraçadas às teias do passado, e às comparações obtusas que lhes conferem um espirro de erudição, não enxergam o NOVO em seu sentido genuíno, mesmo que esse lhes esbofeteiem o nariz.
As comparações sempre hão de nos perseguir (vide padre Antônio Vieira), pois vivemos pela leitura e dela evoluímos. O poeta Daniel Jonas deve ser elogiado sim, com pompas e circunstâncias, pois de um mar de "novos" poetas, ou de pseudos poetas e suas composições sofríveis e medíocres, ele é cabalmente um sopro fresco de poesia e originalidade.
Daniel Pimentel (aprendiz de poeta).