sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

OS DOIS SONETOS DE AMOR DA HORA TRISTE


I

Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro
do que tu - não deixes fechar-me os olhos
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
e ver-te-ás de corpo inteiro

como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
fecha-me os olhos com um beijo.
                                                        Eu, Marco Pólo,

farei a nebulosa travessia
e o rastro da minha barca 
segui-lo-ás em pensamento. Abarca

nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

II

Não um adeus distante
ou um adeus de quem não torna cá,
nem espera tornar. Um adeus de até já,
como a alguém que se espera a cada instante.

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar
de novo para ti, no mesmo barco
sem remos e sem velas, pelo charco
azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora

assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.


Álvaro Feijó (n. 1916 - m. 1941), in Corsário (1940). «O Novo Cancioneiro acolheu o espólio literário de dois poetas que a morte não deixou realizar quanto prometiam: Os Poemas (...), de Álvaro Feijó, cuja combatividade linear e límpida, desentranhando-se de uma anterior formação individualista tingida de erotismo juvenil, se vaza num imaginário de aventura marítima característico do neo-realismo inicial, e em símbolos de antigas vivências religiosas e infantis, às quais atribui um novo sentido revolucionário» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). « O seu primeiro livro e único publicado em via, Corsário, dava já, embora mesclado um pouco de sobrevivências literárias e de um sarcasmo algo superficial, o tom do seu lirismo tão peculiar, que nos poemas póstumos tem já uma voz inteiramente própria. A elegância de sentimentos e a segurança tradicional da expressão aliam-se a um sentido muito lúcido e ao mesmo tempo apaixonado dos contrastes do mundo real, para criar uma poesia áspera e fluente, que deu alguns dos melhores poemas da sua época, e em que o pormenor concreto se engasta admirávelmente numa visão directa que só transfigura metafóricamente o estritamente necessário à acção que o poema pressupõe» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas). 

3 comentários:

A VIDA NUMA GOA disse...

Nunca tinha ouvido falar neste poeta. O teu blog é uma verdadeira jóia.

hmbf disse...

Malogrado Feijó, tem versos muito bons. Este poema comove-me. Os dois últimos versos podem ser um programa de vida:

...A travessia é longa... Não atino
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.

J Rocha disse...

Não conhecia o poema Mas .. que poema. Há palavras dificeis de exprimirmos um comentário senão chorando prá dentro. Com este poema chorei prá fora tb.