quinta-feira, 21 de maio de 2015

EU AINDA SOU DO TEMPO

Eu ainda sou do tempo em que o Presidente da República enchia a boca com a palavra frugalidade enquanto, no dia da raça, erguia a bandeira nacional do avesso. Sou do tempo em que os governos recrutavam na blogosfera, Francisco José Viegas era secretário de estado da cultura e tinha dívidas ao fisco desvalorizadas por São Bento. Sou do tempo em que Eduardo Catroga era amigo de Passos Coelho, os portugueses aguentavam aguentavam e divertiam-se com pentelhos, a Celeste Cardona estava bem empregada e os jornalistas comiam nas fuças sem dizer água vai. Eu ainda sou do tempo em que o bom Governo de Portugal se preocupava mais com os fumadores passivos do que com os doentes nos hospitais, o Grupo Espírito Santo era fiável, a República tinha na Assembleia uma presidente reformada aos 42 anos (só bons exemplos). Sou do tempo em que isto era possível com a maior das naturalidades:  «o homem mais rico de Portugal, Américo Amorim, foi eleito na terça-feira presidente do Conselho de Administração da Galp, e leva consigo a sua filha, Paula Ramos Amorim, que ocupará o cargo de administradora não-executiva, com direito a um salário anual superior aos 45 mil euros. Recorde-se que, em 2008, a filha de Américo Amorim foi notícia pela acusação de fraude fiscal, quando vendeu um palacete, no Porto, a Filomena Pinto da Costa». Sou do tempo em que o Pingo Doce comemorava o 1º de Maio reduzindo trabalhadores e clientes ao estatuto de animais, do tempo em que as soluções para a economia passavam por exportar mais partéis de nata, o ministro da tutela dizia “coiso”, Miguel Relvas não podia sair à rua sem que o mandassem estudar. Sou do tempo em que o mesmo Miguel Relvas pedia desculpa por ameaçar jornalistas com a divulgação de dados sobre as suas vidas privadas, sou do tempo das grandoladas ao bom governo de Portugal. Sou do tempo em que o empreendedorismo era Bíblia, sugeria-se aos portugueses que emigrassem para posteriormente lhes pedirem que regressassem a troco de esmolas, do tempo em que os deputados faltosos do PSD queriam combater a parca assiduidade dos alunos com multas e trabalhos a favor da comunidade. Eu ainda sou do tempo em que o Primeiro-ministro impunha um confisco aos portugueses sem se lembrar de pagar as dívidas que o próprio tinha à Segurança Social, por ter trabalhado para uma empresa fantasma que lhe pagava com ajudas de custo (bons exemplos, por certo, aprendidos com esse exemplo de homem chamado Dias Loureiro). Sou do tempo em que os amigos eram todos muito amigos do seu amigo, Arnaut chegava a administrador da REN, Dias Loureiro gastava fortunas com os vestidos da mulher, os condenados do BPN eram contratados como directores de fundos criados pelo Estado, Passos Coelho dizia que acabar com o 13.º mês era um disparate, o ex-ministro Gaspar dirigia-se aos portugueses, do alto da sua sabedoria, para explicar as virtudes da austeridade e como tínhamos andado a viver acima das nossas possibilidades, pretendendo reduzir as gorduras do estado sem melindrar os bons amigos de seu amigo. Sou do tempo em que os portugueses saíam para a rua aos milhares, aos milhões, em Março, Setembro, etc., para que tudo continuasse na mesma. Sou do tempo em que a Helena Matos e a Isabel Jonet eram um must, o Dono Disto Tudo não era bem a formiga que Miguel Macedo desejava, Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz prometia acabar com a impunidade apoiando-se num CITIUS que mais parecia um coitos interruptus (também pediu desculpa). Sou do tempo em que o Primeiro-ministro se estava a lixar para as eleições, chamava piegas aos portugueses, Marques Mendes chamava assalto à mão armada ao gulag fiscal do governo e Bagão Félix apelidava-o de napalm fiscal, enquanto os portugueses, assaltados, agredidos, massacrados, se comoviam com um ministro das finanças que tentava devolver ao país o custo que este teve com a sua educação. Eu ainda sou do tempo em que Miguel Relvas norteava a sua vida pela simplicidade da procura do conhecimento permanente, Nuno Santos estava na RTP, um co-autor de relatórios do FMI laborava sobre pseudónimo para poder pagar-se a si próprio pela excelência dos seus relatórios, Ricardo Salgado esquecia-se de declarar 8,5 milhões ao fisco, o impulso jovem tinha muito punho, a ministra da Agricultura rezava para que chovesse, Paulo Portas demitia-se irrevogavelmente, Paulo Portas afinal não se demitia, um rapaz era esfaqueado por causa de um fio de ouro, outro era espancado por causa de uns óculos de sol, outro era assassinado sabe-se lá porquê, outro era esbofeteado, do tempo, do tempo, sou do tempo em que o Ministro da Educação também pedia desculpa. Este tempo, sou deste tempo, eu ainda sou. E há tempos perguntava o que agora volto a perguntar: querem apostar comigo que este será o tempo do mesmo povo que, depois de suportar Salazar durante 50 anos e Cavaco durante 20, irá masoquistamente voltar a legitimar no poder esta companhia de ignóbeis actores?

4 comentários:

álvaro esteves disse...

Fogo! És mesmo velho.

bea disse...

Ler o seu texto e saber que é verdadeiro, é muito deprimente, uma sexta feira santa no completo de si mesma.

MJLF disse...

eu sou do tempo em que os ministros se tornaram erros de informática :D saúde e bjs para toda a tribo

hmbf disse...

Sou do tempo das listas VIP.