sexta-feira, 23 de outubro de 2015

UM POEMA DE PEDRO MEXIA

PARÁFRASE

Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência
infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.

A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência 
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.

Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.


Pedro Mexia, in Avalanche, Quasi Edições, 1.ª edição, Dezembro de 2001, pp. 13-14.


Adenda: «(...) acho que um dos poemas mais representativos que escrevi é um que se chama «Paráfrase», que é um poema de amor em forma de análise literária de um poema de amor. Dizendo, aqui uma metáfora, depois há duas alegorias, depois usa-se uma imagética que vem do Petrarca, etc. Que é a maneira de, ao mesmo tempo, eu deixar escrito o que está escrito no poema mas de recuar um passo. Pessoalmente, acho que esse poema é mais interessante assim do que seria sem esse dispositivo. A mim interessou-me precisamente por isso, e tem a ver também, um bocadinho, com a ideia de que é complicado fazer paráfrases em poesia, ou de que é sempre muito empobrecedor» (Pedro Mexia entrevistado por Francisco José Viegas, in Revista LER, n.º 139, Outono de 2015, p. 29).

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