domingo, 17 de janeiro de 2016

OS LIVROS DOS CANDIDATOS


   Começa a ser tradição tudo o que é candidato apresentar-se ao mundo com livrinho na lapela. As presidenciais não são excepção, embora nem todos os 10 candidatos joguem com o mesmo baralho nesta matéria. 
   Depois de se ter apresentado com Uma Estratégia para Portugal (Lua de Papel, 2011) e Um Olhar Sobre a Indústria de Moldes (Gradiva, 2014), Henrique Neto aparece-nos agora de corpo inteiro numa obra assinada por Filipa Moreno: Henrique Neto – O Estratega (Gradiva, 2015). Mais sintomática do que o subtítulo frouxo – Histórias de vida de um homem de visão, é a apresentação da personalidade que aparece sobre fundo vermelho na capa: O menino pobre que gostava de ler e que criou o maior grupo de moldes do mundo. Por aqui se infere que Henrique Neto é o candidato do American Dream à portuguesa. 
   Sobre Sampaio da Nóvoa foram publicados quase ao mesmo tempo Sampaio da Nóvoa – Evidentemente, a Liberdade (Âncora Editora, 2015), de Fernando Madaíl, e António Sampaio da Nóvoa – O Candidato Improvável (Editorial Planeta, 2015), de Filipe S. Fernandes. Com o rosto do candidato estampado em ambas as capas, de resto sob fundos cinzentos deveras similares, estes livros funcionam como uma espécie de propaganda nos escaparates das livrarias. Poucos são os que os compram, menos serão os que os lêem. O que interessa é aparecer. 
   Cândido Ferreira, o candidato que ninguém conhece, é autor de vários livros, entre os quais se destacam O Senhor Comendador – Retratos de um Portugal de Abril (Padrões Culturais, 2006), o romance A Paixão do Padre Hilário (Padrões Culturais, 2008) e Setembro Vermelho (Minerva Coimbra, 2012). Presumimos que seja igualmente o autor de Pelas Crianças de Portugal (Padrões Culturais, 2010) e de Esmeralda – Sim!... – Histórias de uma menina que foi traficada (Padrões Culturais, 2008), obra onde, segundo José Pereira Santos, «o Dr. Cândido Ferreira pôs o mesmo empenho e o mesmo afinco com que Zola lutou ao lado do inocente Capitão Dreyfus». Que não tenhamos dado por nada só demonstra a miséria em que vivemos. 
   Edgar Silva, candidato apoiado pelo PCP, também tem a sua bibliografia, a qual se apresenta laconicamente inventariada na página da Wikipédia. São «obras sobre questões de desenvolvimento humano e social», geralmente em edição de autor. Um dos títulos surte especial curiosidade: Os bichos da Corte do Ogre usam máscaras de riso (2010). À venda no CustoJusto, por 12€, ficamos a saber que é «sobre o fenómeno da prostituição infantil e a problemática da exploração e abuso sexual de crianças e jovens na Região Autónoma da Madeira». 
   Que saibamos, Jorge Sequeira, o candidato psicólogo que quer ver cada português tratado como um cliente, não tem bibliografia publicada. 
   Vitorino Silva, mais conhecido por Tino de Rans, publicou em tempos o extraordinário De Palanque em Palanque, com prefácio de D. Manuel Martins. Está à venda no OLX por 7€ (preço negociável). Tenho um exemplar do livro e posso garantir que é um retrato fiel do candidato do povo. 
   Da ou sobre a socióloga Marisa Matias também não se conhecem livros, embora o Observador lhe tenha chamado a candidata improvável, decalcando o cognome escolhido por Filipe S. Fernandes para Sampaio da Nóvoa. 
   Maria de Belém Roseira participou na colectânea Contos Pouco Políticos da Porto Editora, mas por aí se ficou a sua inclinação para a literatura infantil. Graças a Deus. É da sua autoria a obra Mulheres Livres (A Esfera dos Livros, 2012). Infelizmente, ainda não lemos.
   Marcelo Rebelo de Sousa tem vasta biografia na área do Direito, quase tanta quantos foram os livros com que enxotou moscas nos comentários semanais na RTP1, na TVI e congéneres. Em 2005 publicou o primeiro volume de Crónicas da Revolução (Edições Tenacitas), ao qual se seguiu um segundo volume em 2006. O jornalista Vítor Matos escreveu-lhe a biografia autorizada até certo ponto que A Esfera dos Livros publicou em 2012. Mas como todos os portugueses sabem, Marcelo é muito melhor a vender livros do que a escrevê-los. 
   Por fim, Paulo de Morais tem duas obras no curriculum. O bestseller Da Corrupção à Crise – Que Fazer? (Gradiva, 2013), de quando ainda não era candidato, e o mais singelo Janela do Futuro - #Portugal2016 (Gradiva, 2015), de quando já era candidato. Apesar de aparecer com o rosto na capa em ambos, tendemos a apreciar mais a discrição e sobriedade do primeiro.