quarta-feira, 13 de abril de 2016

DOIS CONTOS DE RIMBAUD


FÁBULA

   Um Príncipe sentia-se humilhado por se ter exclusivamente dedicado à perfeição das generosidades mais comuns. Antevia assombrosas mutações no amor e suspeitava suas mulheres de poderem mais do que essa complacência embelezada de céu e de luxo. Ele queria ver a verdade, o momento do desejo e da satisfação essenciais. Fosse, ou não, uma aberração da piedade, ele quis. Pelo menos, possuía um poder humano assaz considerável.
   Foram assassinadas todas as mulheres que o haviam conhecido. Que devastação imensa do jardim da beleza! A cada golpe de sabre, o abençoaram. Não mandou vir outras. — As mulheres reapareceram.
   Matou todo o seu séquito, depois da caça ou das libações. — Todos o seguiam.
   Divertiu-se a degolar os animais de estimação. Mandou incendiar os palácios. Caía sem sobreaviso sobre as pessoas deixando-as dispersas, aos pedaços. — As gentes, os telhados de oiro, os animais de belo porte, não haviam desaparecido.
   Pode-se aceder ao êxtase pela destruição, rejuvenescer com a crueldade! O povo não rosnou. Ninguém se prestou a dar opinião.
   Certa noite, galopava ele com galhardia. Um Génio, de uma inefável beleza, inconfessável mesmo, fez a sua aparição. Da sua fisionomia e do seu porte ressaltava a promessa de um amor múltiplo e complexo!, de uma indizível felicidade, propriamente insuportável! O Príncipe e o Génio nadificaram-se, provavelmente num essencial bem-estar. Como poderiam eles não morrer disso? Juntos morreram, por conseguinte.
   Mas este Príncipe faleceu no seu Palácio, numa idade normal. O Príncipe era o Génio. O Génio era o Príncipe. 
   A música erudita falta ao nosso desejo.


Arthur Rimbaud, in O Rapaz Raro — Iluminações e Poemas, trad. Maria Gabriela Llansol, Relógio D' Água Editores, Maio de 1998, p. 41. Poema em prosa incluído em Illuminations (1886).


CONTO

   Aborrecia-se um Príncipe porque apenas se dedicara ao aperfeiçoamento das generosidades vulgares. Do amor, ele esperara espantosas revoluções, e suspeitava de que as suas mulheres podiam dar-lhe mais do que uma complacência coroada de céu e luxo. Queria ver a verdade, a hora do desejo e da satisfação essenciais. Fosse ou não fosse, isto, uma aberração mística, ele assim o quis. Dispunha, pelo menos, de largos poderes humanos.
   Todas as mulheres que possuíra foram assassinadas. Que estrago no jardim da beleza! Sob o sabre, elas abençoaram-no. Não encomendou novas mulheres. — As mulheres reapareceram.
   Matou todos aqueles que o seguiam quando vinha da caça ou das libações. — Todos o seguiam.
   Divertiu-se a degolar animais raros. Mandava incendiar os palácios. Precipitava-se sobre as pessoas e cortava-as às postas. — A multidão, os tectos de ouro, os belos animais subsistiam.
   Podemos extasiar-nos da destruição, rejuvenescer na crueldade! O povo não murmurou. Ninguém ofereceu o concurso de uma opinião.
   Uma noite, galopava ele altivamente, saiu-lhe ao caminho um Génio de uma beleza inefável, inconfessável, até! Da sua fisionomia e do seu porte nascia a promessa de um amor complexo e múltiplo, de uma felicidade inexprimível, insuportável, até! O Príncipe e o Génio aniquilaram-se provàvelmente na saúde primordial. Como poderiam ter sobrevivido? Juntos, tiveram de morrer.
   Mas o Príncipe faleceu no seu palácio, muitos anos depois. O Príncipe era o Génio. O Génio era o Príncipe.
   Falta ao nosso desejo música sábia.


Jean-Arthur Rimbaud, in Iluminações / Uma Cerveja no Inferno, trad. Mário Cesariny, Estúdios Cor, Colecção Mocho, Abril de 1972, pp. 26-28.

1 comentário:

Claudia Sousa Dias disse...

Não sei porquê, mas a versão do Cesariny parece-me muito mais intensa, apaixonada mesmo, do que a de Llansol!

Um grande sedutor, este Cesariny. E eu gosto de sedutores. Ah, se gosto.