domingo, 26 de junho de 2016

MAU LIVRO, MÁ EDIÇÃO, SUCESSO COMERCIAL

   Há 8 anos a trabalhar numa livraria são inúmeras as histórias acumuladas sobre Mein Kampf, o livro outrora proibido de Hitler que no ano em que voltou a ser publicado em Portugal conseguiu a proeza de ser o mais vendido da Feira do Livro de Lisboa. O facto tem o seu interesse, sobretudo numa época em que posições políticas racistas e xenófobas voltam a ganhar terreno por toda a Europa. Não partilho, no entanto, da incredulidade nem do espanto manifestados por algumas pessoas, pois estava certo do sucesso comercial da obra assim que a vi chegar à livraria onde trabalho. A par de O Livro de São Cipriano, foi provavelmente o título que mais me solicitaram ao longo dos anos. A estes dois devo acrescentar, para ser totalmente exacto, Os Filhos da Droga, durante largo período indisponível por razões incompreensíveis, e, mais recentemente, Maddie - a verdade da mentira, sobretudo enquanto foi retirado do mercado por decisão judicial.
   Entre os livros supracitados há um denominador comum, a sua popularidade. Uma primeira dúvida pode recair sobre as razões da sua popularidade. Em dois dos casos, o factor proibido será uma forte explicação. O fruto proibido é o mais apetecido, diz-se. Mas por si só a proibição não explica tudo, apenas pode justificar a estimulação de um desejo que a polémica se encarregará de promover. Se quisermos interpretar estes fenómenos com alguma distância, não podemos igualmente cair na tentação de supor que por detrás do sucesso comercial destas obras está uma putativa vontade de compreender o mundo. Em algumas pessoas ela existirá, embora seja um erro crasso reduzir a uma única razão o que leva tanta gente a adquirir um livro como Mein Kampf. Neste caso em concreto, o culto da personalidade alimentado em torno da figura de Hitler será uma outra explicação possível. Mein Kampf é, antes de mais, o livro de Hitler, o livro do homem-monstro para uns, do génio para outros.
   Provavelmente não existe uma única razão para a aquisição de um livro deste tipo, provavelmente cada leitor terá as suas e todas elas serão legítimas, provavelmente uns têm curiosidade mórbida, outros fascínio, outros interesse, outros serão coleccionadores, outros querem livros para enfeitar. Haverá até quem o adquira para simplesmente dizer que o tem, como se fosse uma obrigação ou um dever de qualquer ordem intelectual possuir em casa tamanho colosso. Não é isso que me interessa explorar, até pela exigência do tema e pelas dificuldades óbvias que coloca. Julgo mais interessante especular sobre o porquê de ter sido a edição da Guerra e Paz, e não outra, a mais vendida.



   A primeira edição do Mein Kampf a chegar recentemente ao mercado português, muitos anos depois das extintas edições da Afrodite, da Pensamento, da Hugin e de uma tal Casa de Berlim (?) foi a da E-primatur (Novembro de 2015), recuperando a versão das edições Afrodite do mítico editor Fernando Ribeiro de Mello. Aparecida inicialmente em 1975, logo após o 25 de Abril de 1974, causou celeuma, sobretudo, por não vir acompanhada de um estudo introdutório ou de uma contextualização histórica. A edição da E-primatur não preenche tais lacunas, limitando-se a acrescentar pouco mais do que uma nota prévia de 3 páginas assinada por António Costa Pinto. O livro em si é aqui exposto como documento histórico, esquivando-se o editor a quaisquer considerações de carácter político, sociológico, filosófico. É, por assim dizer, uma edição sóbria, sem outra intenção que não seja oferecer aos leitores a possibilidade de adquirirem um livro (seja lá por que motivo) e sobre ele poderem tecer as suas considerações.
   Assim que foi colocada à venda, a edição da E-primatur obteve sucesso imediato. Houvesse tal indicador, por certo teríamos ficado a saber que no Natal português de 2015 o Mein Kampf foi um dos livros mais oferecidos. Radicalmente diferente é a edição da Guerra & Paz, colocada no mercado em Fevereiro de 2016. A diferença entre as duas edições é óbvia, desde logo, nas opções gráficas. A segunda cede à estética nazi com um populismo de péssimo gosto, espalhando suásticas pela capa, pela contracapa, na lombada, no corte dianteiro, no corte superior… A capa rija em tons de negro, o lettering gótico, são outros elementos que nos remetem para o imaginário nazi, assim como as guardas reproduzindo fragmentos na língua alemã em caracteres góticos, ou, cereja no topo do bolo, a reprodução da Bandeira do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães no fecho da obra. É uma edição ilustrada, mais do que comentada. É uma edição que vai ao encontro dos tempos, tempos onde a imagem, a superfície, a aparência predominam sobre a essência.





   Esta opção por um grafismo popularucho e sensacionalista é, sem dúvida alguma, um dos factores determinantes no sucesso do livro. O editor sabe da importância que hoje tem a dimensão visual do que quer que seja, muito mais de um livro sobre o qual recai uma curiosidade mórbida natural e um culto desmesurado em torno do autor. Daí que o interior do livro seja toda uma exibição do horror, partindo de pressupostos propagandísticos de sucesso reconhecido como sejam os do nazismo. Até o “provavelmente falso” tem lugar:



   Ora, mais questionáveis se tornam ainda estas opções gráficas quando o próprio editor, Manuel S. Fonseca, pretende sustentá-las com aquilo a que chama “100 páginas de enquadramento histórico prévio (…) fortemente crítico”. Mas o que são, na realidade, essas “100 páginas de enquadramento histórico prévio (…) fortemente crítico”? São, para sermos simpáticos, à volta de 30 páginas escritas com um carácter muito superior ao escolhido para o texto de Hitler, que se alguém quiser de facto ler deverá, já agora, adquirir além do livro uma lupa. Para que se tenha uma noção mais objectiva do que estamos a falar, as cerca de 640 páginas da edição da E-primatur ficaram reduzidas na edição da Guerra & Paz a 360. Talvez o editor não espere que quem adquira a obra pretenda de facto lê-la, para sobre ela tecer as suas considerações. Tal exercício é oferecido logo à partida. O livro? É um livro de ódio. Hitler? Foi um facínora. E pronto. Precisávamos de gastar €26 para ficar a sabê-lo?
   Tudo o mais é mais do mesmo, fotografia e imagem, uma compilação de elementos iconográficos básicos sobre os terrores do nazismo e da II Guerra, misturadas com fotografias de um Hitler bebé, de um Hitler jovem, de um Hitler com Eva Braun, de um Hitler a relaxar, seguidas de imagens do genocídio, de campos de concentração, intercaladas por sínteses deste calibre:



   Será isto um trabalho sério de enquadramento histórico prévio e fortemente crítico? Na minha opinião, não é. Trata-se, por outro lado, de um apanhado populista e vulgar de inúmeras ideias feitas e lugares comuns acerca da história do nazismo. Talvez exista na mente do editor uma intenção pedagógica que o leva a querer mostrar de um modo simples números e factos por demais conhecidos, associando-os ao tal documento histórico que é o livro escrito por Adolf Hitler e que não interessará tanto ler quanto interessa saber o que foi a actividade por ele desenvolvida e levada a cabo. Nesse sentido, o que temos não são “100 páginas de enquadramento histórico prévio (…) fortemente crítico”, mas sim um panfleto anti-Mein Kampf colado ao próprio Mein Kampf. É uma originalidade editorial para a qual só tenho uma designação: oportunismo, o tal oportunismo que me leva sempre a desconfiar das boas intenções da chamada indústria do livro.
   Mais grave se torna esse populismo quando a publicação do Mein Kampf foi inserida numa espécie de colecção onde cabem igualmente o Manifesto Comunista (Janeiro de 2016) e O Pequeno Livro Vermelho (Abril de 2016), de Mao Tsé-Tung. Razão de ser do pacote: «Estes três livros foram os motores de movimentos ideológicos com consequências políticas e sociais que, em todos os casos, desaguaram em tragédias humanas, porventura as maiores tragédias do século XX».



   Recentemente, em conversa de Facebook, Manuel S. Fonseca foi mais longe ao afirmar que «esses livros estão ligados, todos, a ideologias que mataram mais de 100 milhões de seres humanos, a maioria em campos de concentração». Enfim, não consigo contabilizar, a título de exemplo, quantos milhões de seres humanos terão sido torturados e assassinados em nome da Bíblia Sagrada, mas sugiro desde já a Manuel S. Fonseca que comece a fazer as contas. Cingindo-me ao século XX, também não sei quais terão sido os livros que inspiraram os bombardeamentos atómicos de Hiroshima e Nagasaki, a deriva americana no Vietname, o apoio a Osama bin Laden no Afeganistão, os crimes de guerra contra a Palestina, etc., etc., etc., todo um sem número de factos históricos sob os quais haverá, por certo, muita fundamentação ideológica social democrática, republicana, liberal a explorar… A que autores deveremos atribuir responsabilidade pelos irlandeses que morreram às mãos dos ingleses? Quais as ideologias por detrás do colonialismo europeu disseminado pelo mundo?
   Ora, é precisamente por recusar uma tal simplificação da história e do mundo que não consigo entender a inclusão do Manifesto Comunista num trio onde estão duas obras assinadas por dois ditadores. Terão Marx e Engels sido também eles ditadores sem que eu o saiba? Serão eles responsáveis pelas múltiplas e mais diversificadas interpretações que se fizeram das suas obras? Deveremos esgotar no estalinismo o impacto do Manifesto Comunista? Haverá alguma relação directa entre a publicação do Manifesto e os crimes inevitavelmente resultantes das revoluções comunistas? Não, não e não. Parece-me óbvio que não, mas talvez eu esteja equivocado. Tento encontrar resposta nas tais anunciadas “100 páginas de enquadramento histórico prévio (…) fortemente crítico” e tudo o que encontro pode ser resumido a anedotas, fait divers, slogans anticomunistas, o primarismo típico de quem não está tão preocupado com o conhecimento ou com a inteligência dos leitores como evidentemente estará com os efeitos comerciais de tais publicações.




   Dito isto, seria no mínimo exigível que se explicasse por que razão foram os comunistas perseguidos pelo nazismo e um dos grupos mais afectados pelo ódio nazi. Essa explicação não existe no Manifesto, aparecendo apenas o facto aludido nas listas de vítimas que acompanham a introdução ao livro de Hitler. Outro dado curioso, embora muito mais comum, é colocarem-se lado a lado Estaline e Hitler como se fossem faces diferentes de uma mesma moeda. Não são, e o facto histórico mais evidente dessa diferença é terem os aliados negociado com Estaline a vitória sobre Hitler. A preferência por um em detrimento do outro é razão mais do que suficiente para aceitarmos diferenças entre ambos. Por que foi Estaline preferível a Hitler? Mais uma pergunta sem resposta. Colocam-se os dois na mesma caderneta, junta-se-lhes ao retrato uma legenda patética e siga para bingo. Temos Lennon e um escandinavo que gosta de amoras a quem devemos prioridades.

   Se pensar, caro leitor, que defendo Estaline: está errado! Poderá pensar que nego os crimes cometidos sob a bandeira comunista. Está errado. De resto, não é preciso sequer admitir que existiram. Na própria União Soviética esse reconhecimento foi realizado após a morte de Estaline. Ainda aguardo reconhecimento dos burgueses instalados em diversos campos do poder pelos crimes perpetrados contra as massas oprimidas. A quem deveremos imputar no futuro responsabilidades pelos imigrantes e pelos refugiados desaparecidos no Mediterrâneo? Serão exclusivos do nosso tempo, tais fenómenos? Quem me leia também poderá pensar que estou contra a publicação de Mein Kampf. Outro erro. No dia em que eu estiver contra a publicação de um livro exijo que me internem num hospício. O que aqui procuro denunciar é uma péssima edição da obra literária de Adolf Hitler, eivada de um populismo gráfico e de um pseudo-enquadramento histórico que em nada contribuem para um real esclarecimento acerca da popularidade que o livro granjeou à época em que foi originalmente publicado e da sua relevância enquanto documento histórico. Estou em crer que quem pretenda elucidar-se quanto a tais temas vai pelo mau caminho se adquirir a edição da Guerra & Paz. 

3 comentários:

GWB disse...

Que vomito. Tanto o livro da besta como a edição. Um nojo editado com nojo. Não o queria nem q me oferessem.

João Maria disse...

Magnifico.
Isto é verdadeiramente serviço publico.
Esta definitivamente na moda dizer-se que nazismo e comunismo são a mesma coisa.
Como lhes convem, sem que venha alguem dizer que nao é a mesma coisa.
Magnifico

Anónimo disse...

Magnifico, realmente. E me fez lembrar de que no Brasil, quando anunciaram a publicação do 'Minha Luta', duas editoras acabaram sendo forçadas a mudar de planos. À primeira ainda restava a opção: desistiu por força da "pressão popular". Houve grande mobilização nas redes sociais e até um grupo numeroso de escritores, outros artistas, ditos intelectuais, se juntou para exigir que as publicações fossem proibidas. Quanto à segunda editora, já tinha os exemplares no prelo. Seria maior prejuízo desistir. Acionou advogados e recorre há alguns meses contra decisões judiciais que, aproveitando-se do "apelo popular", proibiram a edição de tal livro em todo o território nacional.
Democracia? País laico? Muitas coisas vêm sendo censuradas por aqui, sob o martelo de leis propostas por políticos fundamentalistas-cristãos e decisões judiciais de primeira e segunda instâncias. E o pior é que vejo pouco movimento contra as proibições. Quando há, é frágil, logo é esquecido.
Fico a pensar: uma edição de Mein Kampf não me interessa de modo algum, muito menos "eivada de populismo gráfico", mas o "sucesso" de uma edição tal qual me assusta tanto quanto a veemência (certeza dos ignorantes, talvez?) com que outros tantos defendem a censura.