quarta-feira, 7 de setembro de 2016

APASCENTAR




Que assim passemos a maior fatia do nosso tempo, apascentando em manada frustrações e desenganos, não me inquieta. Há muito perdi as ilusões que podia ter acerca da singularidade humana. No essencial, somos bestas. Alinhamos em tendências e aceitamos mitos, não questionamos, sobretudo não nos questionamos, integramo-nos no caudal corrente das ideias feitas e sublinhamos com o tom de voz que nos coube os lugares comuns que fazem história. O destino é igual para todos, é certo, e ainda que da vida cada qual saiba retirar seus proveitos, no essencial andamos por aqui apenas a pastar para sermos comidos. Há sempre alguém que trata do gado, entre o gado há animais que se distinguem, mas no essencial, no essencial é tudo o mesmo. Desviamo-nos da evidência com um discurso pífio sobre as novas gerações. Mais ou menos carnes à mostra, mais tatuagem, menos tatuagem, a mesma bimbalhice. Foram-se os góticos, os punks, os metálicos, foram-se até os tradicionais betos, agora é tudo top, burgessos e grunhos da bola, miúdas ideais para reality shows e capa de tablóide. Mais do mesmo, portanto. Mais do mesmo.