quinta-feira, 13 de outubro de 2016

RETARDAÇÃO

Dou uma volta pelos weblogs e respectivas caixas de comentários, salto aos jornais para averiguar reacções. Pasmo. Pode-se apreciar mais ou menos o género musical praticado por Dylan, pode-se até duvidar da excelência das suas letras. Para o caso, é essa dimensão das letras que importa. O Nobel da Literatura não é atribuído ao tom de voz nem aos acordes que podem acompanhar um texto, é atribuído a textos. Pois bem, o que para mim é impensável é haver quem inferiorize uma canção a ponto de não a julgar literatura. Supunha que tais preconceitos haviam sido há muito ultrapassados. Discordar-se deste Nobel por ter sido atribuído a um escritor de canções é absolutamente ridículo. Uma sugestão: leiam Era um redondo vocábulo, do José Afonso. Depois mostrem-me quantos poemas melhores do que os versos dessas canção foram escritos na segunda metade do séc. XX português. Afinal, esta questão das classes é mais preocupante do que eu julgava. Sugiro uma busca no Google por "Disease of Conceit".

Adenda: acrescentar este post de contra mundum: «Persiste à nossa volta o erro de confundir os livros com a literatura. De confundir o suporte com o discurso. Nem a literatura é redutível ao livro, nem o livro se esgota na literatura.» A sério que estou estupidamente estupefacto com as reacções por aí encontradas: gente de esquerda, supostamente progressista, com comentários conservadores ao nível do mais obtuso direitista; pessoas que acredito serem inteligentes a menosprezarem o que claramente desconhecem; mentalidades de burgesso em literatos do universo underground. A minha alma está parva, mas ao mesmo tempo esclarecida. Foda-se, queixem-se dos taxistas…

9 comentários:

Rui Almeida disse...

«alguém que para além da riqueza das suas letras se notabilizou pelas suas músicas» [sublinho o «além de»] (deuma nota oficial de S. Exa. o Presidente da República Portuguesa)

hmbf disse...

Quem é esse?

Rui Almeida disse...

É um comentador de livro da TVI.

hmbf disse...

Ah, ok, um crítico literário. O que esperar de um crítico literário, senão que enalteça músicas em detrimento de letras?

Anónimo disse...

Se servir para melhorar a qualidade das letras da música americana que se faz hoje, já foi mais útil que a maioria dos outros Nobel.

MJLF disse...

Ontem almocei com os meus pais e contei-lhes o burburinho em torno do prémio nobel da literatura. Estão ambos na casa dos oitenta anos e surpreenderam-me, porque sem terem alguma relação empática com Bob Dylan, tiveram uma reacção mais tolerante do que por aí vi. Eu lembrei-os que lá em casa o João (meu mano mais velho) ouvia-o horas a fio. O meu pai diz que viu a notícia, onde diziam que para além de músico e poeta, também publicou e fez outras coisas. A minha mãe afirmou que se ele canta a sua poesia, e a poesia tem qualidade, estava correcto darem-lhe o prémio, porque a música e a poesia sempre estiveram ligadas.

Pedro Góis Nogueira disse...

Totalmente contigo, Henrique. E tem sido um cavalo de batalha. Um ponto onde não há antes nem depois. A snobeira e elitismo parolo compartimentado finalmente mostrou a dentafura. É de estarrecer.

hmbf disse...

Em sintonia com o que Pedro Mexia disse ontem no Governo Sombra, este prémio fez saltar debaixo das pedras o reaccionarismo que vive, à esquerda e à direita, dentro das pessoas. Seja como for, ficou tudo muito mais claro. Por cá, tenho finalmente uma resposta para duas dúvidas que me perseguem: porquê 20 anos de Cavaco? Porquê 50 anos de Salazar? Porque somos um povo de reaccionários e de neo-conservadores.

Jorge Melícias disse...

Não estou nem aí para o nobel, nem para o nobel ter siso atribuído ao Bob Dylan. Mas estou em crer que nem a todos que discordam desta atribuição poderás imputar o ónus do desconhecimento. Há quem conheça bem a sua obra, a admire, e, mesmo assim, não concorde, invocando este ou aquele argumento, com essa atribuição. De resto o que lanças aí é um verdadeiro desafio! Ouvi há poucos dias uma coisa semelhante a uma senhora chamada Joana Emídio Marques. Dizia a brincalhona que o "Sempre ausente", do António Variações, redimia as últimas três décadas da poesia portuguesa.