Dei prioridade à mãe com um bebé de meses num carrinho. O
homem que estava à frente insurgiu-se questionando se eu estaria de facto a
cumprir a lei. O que está na sinalética é uma figura feminina com um bebé ao
colo, argumentou. Realmente não está uma figura feminina com um carrinho de
bebé, nem uma figura masculina com uma criança às cavalitas, nem uma figura
adulta com uma criança pela mão, anuí. Mas uma interpretação literal da
sinalética não respeita a civilidade da lei, que diz, muito claramente, terem
prioridade pessoas, independentemente do género, acompanhadas com crianças de
colo. De colo, não ao colo, tentei explicar. O homem indignado não entendeu a
explicação, pretendia discuti-la. Pedi-lhe então que imaginasse uma pessoa
deficiente mental. Depois sugeri-lhe um desenho do que ele tinha imaginado. Não
sei se percebeu a intenção.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2016
quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
DEBBIE REYNOLDS (1932-2016)
Chamei-lhe impagável, a propósito de How The West Was Won (1962). Da relação com o cantor Eddie Fisher (1928-2010), teve um filho e uma filha. A filha era Carrie Fisher (1956-2016), carismática actriz da saga Star Wars que faleceu há dias. A 27 partiu a filha, a 28 juntou-se-lhe a mãe. É a vida.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
A LEI ASSEGURA QUE SOMOS CIVILIZADOS
A Lei assegura a obrigatoriedade de prestar atendimento
prioritário às pessoas com deficiência ou incapacidade, ou seja, que possuam um
grau de incapacidade igual ou superior a 60%, pessoas idosas, que tenham idade
igual ou superior a 65 anos e apresentem alterações ou limitações das funções
físicas e mentais, grávidas e pessoas acompanhadas de crianças de colo, ou seja
acompanhadas de crianças até aos dois anos de idade.
Muito bem, somos um país civilizado com legisladores
hiperactivos. Agora coloquem-se atrás de um balcão com uma fila de gente à vossa frente. E tentem decifrar quem tem mais de 65 anos, qual a percentagem de
incapacidade do jovem com muletas, se aquela senhora está grávida ou é gorda,
se a criança ao colo do pai é de colo ou é de mimo. Tentem decifrar e depois
ensinem-me a ser civilizado, porque nada na lei garante que eu seja perspicaz.
PRIORITÁRIO
Hoje tinha uma grávida muito grávida, uma idosa muito idosa,
um pai com duas crianças ao colo e um jovem de cadeira de rodas na fila. Também
me pareceu ver um deficiente mental. Fiquei sem saber a quem dar prioridade.
Telefonei para a entidade reguladora das prioridades a expor a situação e fui
informado de que nestes casos deverá ter prioridade quem chegou primeiro.
Chegaram todos ao mesmo tempo, expliquei. Então, a entidade reguladora das
prioridades aconselhou-me a entrar em contacto com a entidade reguladora das
pressas. Nisto, o pai com as duas crianças desistiu de esperar. A idosa muito
idosa, cada vez mais idosa, retirou-se em silêncio. A grávida muito grávida
verteu águas. Tive de chamar o INEM. O jovem da cadeira de rodas ergueu-se
subitamente e desatou numa gritaria: milagre, milagre, milagre. Tinha, sem
dúvida, problemas mentais. Perdi todos os clientes, mas foi uma manhã deveras
animada.
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
DRUMS ALONG THE MOHAWK (1939)
Considerado pela crítica um momento menor na vasta
cinematografia de John Ford (n. 1894 - m. 1973), Drums Along the
Mohawk/Ouvem-se Tambores ao Longe (1939) foi um tremendo sucesso de bilheteira.
Para tal contribuiu o facto técnico de se tratar do primeiro filme a cores do
grande cineasta norte-americano. Em conformidade, acabou por almejar uma
nomeação da Academia para a categoria de Melhor Cinematografia a Cores. Mas
também para a categoria de Melhor Actriz Secundária, pelo desempenho
inolvidável de Edna May Oliver. No elenco encontramos ainda alguns rostos
recorrentes nos filmes de Ford, tais como Ward Bond, John Carradine e Chief
John Big Tree. O papel principal foi atribuído a um então jovem em ascensão de
seu nome Henry Fonda, que no mesmo ano estrelou em Young Mr.
Lincoln/A Grande Esperança, do próprio Ford, The Story of Alexander Graham Bell/O Grande Milagre,
dirigido por Irving Cummings (n. 1888 – m. 1959), Let Us Live/Deixem-me Viver!,
de John Brahm (n. 1893 – m. 1982), e Jesse James/A Justiça de Jesse James,
resultado de uma parceria de Irving Cummings com Henry King (n. 1886 – m.
1982).
Em Drums Along the Mohawk, baseado num romance de Walter
D. Edmonds, e com contributos de William Faulkner na adaptação cinematográfica,
Fonda interpreta o papel de Gilbert Martin, jovem recém-casado a tentar vingar
no território hostil do Mohawk Valley. O filme começa com uma sequência algo
picaresca de um casamento na Nova Iorque do final do séc. XVIII, seguida de
viagem na direcção dos territórios selvagens do Oeste. O jovem casal em
lua-de-mel, interpretado por Fonda e Claudette Colbert (Oscar de melhor actriz
em 1934, por It Happened One Night/Uma Noite Aconteceu, de Frank Capra), é a
personificação de um sonho atravessado por receios e expectativas. Instalados
numa cabana desprotegida, experimentam desde cedo a ansiedade de quem vai ao
encontro do desconhecido. Ele, mais determinado, ela, mais hesitante, ambos no
encalço de sonhos ameaçados pelo ambiente político vivido à época. Estamos às
portas da Independência dos Estados Unidos da América, sob a intimação do jugo
britânico em aliança com tribos índias rebeladas contra a ocupação dos seus
territórios.
O jovem casal do filme é, portanto, uma espécie de
metonímia dos Estados Unidos da América, nação una e determinada na afirmação
dos seus valores e da sua independência. Tudo isto fica muito óbvio desde cedo,
pelo que o interesse do filme de John Ford não reside nos elementos narrativos.
Há uma dimensão historiográfica que o valoriza, mas a essa devemos juntar uma
outra que tem que ver com a forma como as diversas sequências vão sendo
desenvolvidas de acordo com uma dinâmica que apõe o trágico ao cómico e
vice-versa. Tipicamente fordiana, esta linguagem conquistou enormes índices de
popularidade precisamente por perceber que o cinema não é um retrato da vida,
acrescenta ao registo dos dias a ilusão de um final feliz. Quando o jovem casal
parte para o desconhecido, deixando para trás a inconsolável mãe da noiva, o
padre que há pouco unia na fortuna e na desgraça homem e mulher lembra que
sempre assim foi desde os tempos bíblicos. Cada geração segue o seu rumo, às
lágrimas seguem-se sorrisos, ao desespero a esperança, ao medo a confiança, à
coragem o temor…
Enaltecimento dos valores fundadores de uma América
inclusiva, Drums Along the Mohawk conjuga o trágico com o cómico, o trivial com
o épico, concentrando nos sonhos de um jovem casal a fé bíblica que faz mover
montanhas. Até onde podemos, no entanto, fazer coincidir fé com sonho? A realidade
apresenta-se como uma sucessão de obstáculos na direcção da utopia, esse horizonte ao qual nunca se chega senão pela vontade. O que Ford parece
transmitir-nos é uma espécie de metodologia que permite contornar os obstáculos
forçados pela realidade, apostando numa poética do sonho onde se mistura a fé com um ideal. E esse ideal é o ideal americano. Por isso mesmo à pergunta sobre
qual a ideologia política professada, a personagem de Fonda responde sem
hesitar: americano. Este nacionalismo característico dos westerns realizados
por John Ford não surge isento de crítica, ele é o resultado de uma reflexão
séria, coerente, objectiva, acerca do pilar que suporta a bandeira de uma nação
onde a divergência e o conflito tendem à união.
DEZEMBRO
Dezembro
é o mais absurdo de todos os meses, mês de paz e confraternização celebrado com
correrias, cansaço, stress, mês de reflexão desfeita em consumismo, toneladas
de papel de embrulho para o lixo, pressas, filas, mês solidário no desperdício generalizado,
mês de mesas fartas para pobres esquecidos. Sobre Dezembro paira uma nuvem de
hipocrisia abençoada por bispos, padres e papas, celebra-se o nascimento de um
mito com uma porca mitologia de abusos tolerados, exploração, ganância,
desespero, mês de crianças obesas mergulhando num pântano de presentes
inúteis, tantos deles produzidos por crianças subnutridas no outro lado do mundo,
mês de merda enfeitado com presépios e árvores iluminadas. E lá no topo, a
estrela das últimas notícias: venda de armas movimentou mais de 75 mil milhões de euros em todo o mundo. Enquanto neste lado do mundo, que dizemos civilizado,
consentirmos dezembros destes, bem que podemos consolar-nos com restantes 11 meses
de servidão.
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
EDNA MAY OLIVER (1883-1942)
Não era muito bonita, mas era muito bonita. Não era uma grande actriz, mas era uma grande actriz. Nasceu e morreu a 9 de Novembro. Celebrou o nascimento com a morte. É uma inspiração.
MISS MUNDO
Num mercado de Natal em Berlim, um assassino abalroa suas
vítimas. Em Zurique, homem dispara contra três pessoas. Três. Em nome do pai,
do filho e do espírito santo. Na Sibéria, dezenas de pessoas morrem depois de
beberem óleo de banho perfumado. O embaixador russo em Ancara foi assassinado
por um homem aos gritos por Alepo. A fuga de cérebros na Síria tem conhecido
fortíssima incrementação nos últimos dias. Dona Maria inquieta-se por não
encontrar o primeiro volume de Massa Fresca que sua neta tanto desejava no
Natal. Uma jovem porto-riquenha está feliz, é miss mundo.
ELFOS
Vão-me chamando elfo, o melhor dos elfos, aquele que produz
e almeja um objectivo como o galgo almeja o coelho. Dia para dia, cada imagem é
pior do que a anterior. Sobrepõem-se como cenas num pesadelo que parece não ter
fim, tal o infantilismo que nos obsidia e serve para disfarçar a incúria, o
descaso, a ganância assassina que deforma o mundo. Patranhas motivacionais que
encalham no mundo do trabalho sem dar à costa nas contas bancárias de quem
trabalha, os elfos. Eles eram belos, mágicos. Anões. Eles continuam anões,
divindades menores de uma natureza esquecida, roubados à floresta para dentro
de Centros Comerciais onde quotidianamente vêem a magia perecer aos pés da
paciência e vêem a paciência falecer aos pés do cansaço.
domingo, 18 de dezembro de 2016
"DR. FILTH, HE KEEPS HIS WORLD INSIDE OF A LEATHER CUP"
Quando foi publicada, Like a Rolling Stone tornou-se
rapidamente na mais icástica canção do Bob Dylan eléctrico. Diversas vezes
referida como a melhor canção de todos os tempos, segundo critérios sempre
discutíveis, a verdade é que Like a Rolling Stone resistiu ao tempo como a
melhor das canções, vindo a conhecer versões excepcionais de Jimi Hendrix, Bob
Marley, The Rolling Stones. Diz-se que a segunda pessoa a quem os versos se
dirigem era Edie Sedgwick (1943-1971), célebre herdeira de uma fortuna à
americana, actriz omnipresente na obra cinematográfica de Andy Warhol, que
acabou arruinada pelo consumo de drogas. Este
lado perturbado do mundo atravessa todo o álbum Highway 61 Revisited (1965)
como quem percorre a auto-estrada do inferno, mas a nona e última canção do
álbum destaca-se pela intensidade poética das imagens convocadas. Nas dez
estrofes de Desolation Row reúnem-se inúmeras referências, reais e oníricas,
literárias e sociais, políticas, religiosas, numa espécie de retrato
apocalíptico cuja paisagem poderia ter sido pintada por Hieronymus Bosch.
Cinderela varre a viela da desolação, Ofélia é uma solteirona que observa da
janela a viela da desolação, Caim, Abel e o corcunda de Notre Dame fazem parte
de um Carnaval onde ou se ama ou se espera que chova, Einstein disfarça-se
de Robin Hood, T. S. Eliot e Ezra Pound lutam na torre do capitão… Mas este
mundo do avesso não é gratuito, ele simplesmente amplifica pela sua dimensão
metafórica o realismo da primeira estrofe. Eis o primeiro verso da canção: «They’re selling postcards of the
hanging”. Dylan refere-se a um episódio ocorrido nos anos 20 da sua
cidade natal. Seis negros que trabalhavam num circo foram acusados de violarem
uma rapariga branca, acabando rês deles linchados por uma multidão em fúria. Do
enforcamento tiraram-se fotografias que serviram para ilustrar postais
posteriormente comercializados nas lojas da cidade. Será deste violentíssimo episódio
factual, e de uma das suas imagens mais paradoxais — três trabalhadores de um
circo enforcados num poste de iluminação — que Dylan fará surgir o Carnaval desolador da sua Desolation Row, terminando com uma estrofe, a última
do álbum Highway 61 Revisited, reveladora do estado de espírito que então o atormentava:
Yes, I
received your letter yesterday
(About
the time the doorknob broke)
When you
asked how I was doing
Was that
some kind of joke?
All
these people that you mention
Yes, I
know them, they’re quite lame
I had to
rearrange their faces
And give
them all another name
Right now
I can’t read too good
Don’t
send me no more letters no
Not unless
you mail them
From Desolation
Row
ISTO É QUE É QUALIDADE
Ao Irritações da semana que ora finda, Carla Hilário Quevedo
levou a ideia peregrina de um canal que só exibisse "as boas séries". Quem
definiria o alinhamento é questão de somenos importância, aqui o importante é relevar a palermice da ideia. Seguiram-se comentários nesse sentido, embora
suavizando com justeza a irrelevância do tema. Uma relevância irrelevante, portanto.
Coube a Domingos Amaral, no
entanto, a frase do debate: “a programação dos canais generalistas é uma
porcaria”. Está cheio de razão. Mas como tantas vezes sucede, seria no mínimo
de elementar justiça que alguém tivesse lembrado a Pedro Boucherie Mendes a
programação dos canais que dirige.
Fiquemo-nos pela SIC Radical, onde o próprio
programa Irritações é exibido. Algumas pérolas do canal: Bad Girls Club,
American Ninja Warrior, Dating Naked, Rebocado e Recuperado, Clubes Eróticos,
Adam Looking For Eve Germany, Hardcore Pawn: Em Nome do Penhor… Enfim, tudo da
mais refinada e inquestionável qualidade televisiva.
sábado, 17 de dezembro de 2016
SOBRAS COMPLETAS
De quando em quando, alguém no mundo se encarrega de
desenterrar pérolas. Seguindo sábios conselhos, não as lança aos porcos.
Coloca-as à disposição. Os leitores que lhes lancem as mãos. Faz agora três
anos, uma parceria Alexandria/Língua Morta permitiu recuperar a poesia de
Manuel de Castro (n. 1934 – m. 1971). Este ano, a Abysmo lembrou-se de José
Manuel Simões (n. 1934 – m. 1999). Entre ambos, descobrimos uma ligação que não
se reduz ao mesmo ano de nascimento. Transcende o dado irrelevante com uma
cumplicidade patenteada nas páginas de Sobras Completas (Abysmo, Outubro de 2016),
nomeadamente quando, no primeiro de dois prefácios, Helder Macedo os coloca à
conversa citando correspondência com mais de 50 anos. Na verdade, ambos os
autores integraram aquele que ficou conhecido como o “grupo do café Gelo”. A
informalidade do agregado presta-se a equívocos, embora seja de assinalar que
por lá, no rastro do surrealismo português, passaram poetas tais como Herberto
Helder e António José Forte.
O desconhecido José Manuel Simões zarpou para Paris no
final da década de 1950, aí se fixando e «vivendo precariamente de traduções».
No prefácio, Helder Macedo conta que recebeu dele, num envelope castanho, com o
título escrito à mão no rosto do envelope, estas Sobras Completas. Em suma, um
conjunto de poemas escritos, na sua maioria, nesses idos de 1950 e 1960: «São
portanto, juvenilia, textos escritos entre os dezanove e os vinte e tal anos,
com óbvias influências e convergências literárias (Drummond, Borges, algum
Cesariny) mas também manifestando uma voz poética muito pessoal de expectativa
sem esperança e de auto-ironia nostálgica» (p. 9). Poderíamos ficar por aqui,
não fosse o caso destas sobras terem mexido connosco como poucas obras e pratos
principais logram mexer.
Num volume graficamente irrepreensível, as diferentes
secções deste pequeno livro (115 páginas) resgatam-nos, também pela brevidade
de cada uma delas, para o que há de fundamental na poesia. Respeitando o
próprio autor, sublinharemos, pois, a auto-ironia, se bem que esta se processe
para lá de um humorismo que pode levar-nos a confundir desafectação com indolência, relativismo com laxismo, uma profunda consciência das tragédias
humanas com apatia. Em matéria de produção artística, aquele que não se leve a
sério não é necessariamente histrião. Desimportantizar é o verbo. Ainda que brincar e criar possam se
interligar, à criação acrescenta-se algo mais. Talvez a consciência do valor
que um testemunho carrega. Ora, se as Sobras Completas chegaram até nós não terá
sido porque em todos os implicados para que tal fosse possível havia apenas uma
vontade de... brincar.
Notemos como no próprio divertimento que José Manuel
Simões possa ter almejado com os seus versos existe, implícita ou
explicitamente, a expressão de um humor que, fintando as armadilhas da gravidade,
acaba ele próprio por nos armadilhar o sentido lúdico das palavras. Como?
Provocando-nos com a imagem recorrente de um isolamento, de uma solidão, de um
exílio íntimo que não aquieta emoções nem permite que o alheamento reine sobre as
palavras. O espírito dos homens livres é assim, na sua ligeireza calcorreia
mundos carregado de uma provocadora solidão. A solidão é um fardo oneroso, o preço a pagar por um espírito livre. Chamar sobras a uma obra, por mais
curta e breve que seja, é já de si uma provocação. Inteligente provocação que
nos deixa na expectativa, a qual inflecte num sentido inverso ao do riso quando
nos deparamos com o título do principal conjunto de poemas aqui reunidos: O Mar
Ausente.
Mais ou menos experimentais, adoptando/subvertendo esquemas
rímicos diversos ou em verso livre, mas sempre cuidadosamente cadenciado, por vezes em prosa, os
poemas de José Manuel Simões denotam uma independência criativa
e uma autonomia existencial absolutas. O amor e a solidão são temas recorrentes,
quase como pólos de uma poesia capaz de se questionar em tão enigmática quão
irónica condição — «Quem é que te conhece, amor, / amor que eu não sei quem
és?» (p. 50) —, para logo de seguida, num outro poema, responder com a
derradeira solução que o problema merece: «Invento-te, invento-nos. / Ponho
nisso o cuidado / com que é costume observarem-se / as entranhas dos vermes e
as evoluções / dos discos voadores. // Mas é preciso, amor, que compreendas / a
minha e a tua solidão. // É preciso que saibas / adivinhar o tempo das lágrimas
/ e fugir antes que te alcance» (p. 51).
Aos seus poemas, juntou o A. versões para poemas de e.e. cummings, Hart Crane, Kenneth Fearing. Convenhamos que num país de "tantos e tão geniais" poetas é sempre
uma agradável surpresa descobrir quem olhe o mundo em linha recta,
distanciando-se, como convém, dos «sensatos cordeirinhos bíblicos» a quem o dom
da poesia foi outorgado por convenção iniciática. Ora, no segundo dos dois
prefácios, assevera José de Sá Caetano em missiva dirigida a Helder Macedo que
foram feitas tentativas, sem sucesso, no sentido de publicar as Sobras
Completas. Quis a ordem natural das coisas que caíssem no Abysmo, para bem de
todos quantos ficam agradecidos por não caírem no “vasio” poemas como aquele
que passamos a citar:
AS MÃOS OFERECIDAS
São as alavancas do inconsciente
que empurram a máquina de fazer versos.
Quando a vida me tornar
num bloco só de gelo ou ferro ao rubro
eu poderei dizer que construo minhas
todas as esperanças de água,
todas as fomes de pão,
todas as antigas necessidades de amor.
Poderei distribuir por todos o amor que em mim sobeja
por não ter terra onde pousar.
Poderei dar como o Cristo
o meu sangue a beber
e o meu corpo a comer
e no entanto ficar inteiro
para a renovação motriz a acabar
em total preparação dos pastos.
Nessa altura, quando a terra
for maior e verdes os nossos olhos,
eu terei rios nos braços
para molhar de azul a terra fecundada
e os homens vermelhos, iguais, então,
aos homens brancos e negros e amarelos
que trago sempre comigo, bem guardados,
no bolso onde um revólver os oculta.
De todos os lados virá para mim
o som dos cabelos loiros
e o cheiro dos corpos jovens.
De toda a parte os mergulhadores
me trarão peixes doirados, corpos
de bronze e mel, cravos roxos para o meu amor,
e porão a flutuar
o claro fundo dos sonhos do homem.
Em todos os lugares os homens
se darão as mãos em cadeias longas
e eu estarei sozinho no meio deles.
POBRES
Maria Filomena Mónica nunca passou fome, nunca foi pobre, mas conhece os pobrezinhos como as palmas das suas mãos. Por isso escreveu um livro sobre os pobres, não queria ficar com todos os conhecimentos só para ela. Leia-se de barriga cheia.
SUGESTÕES DE NATAL
Respeitando as boas tradições da imprensa portuguesa, também
aqui resolvemos (eu e o meu outro eu) enumerar algumas sugestões literárias
para um Natal colorido. São livros que, grosso modo, não cabem nas estreitas
listas da especialidade, pelo que me parece de elementar justiça oferecer-lhes
a oportunidade que merecem. Dado o sucesso comercial e a popularidade que os
toca, pouco haverá a acrescentar ao que a generalidade dos leitores destas
obras já sabem. São livros que não enganam ninguém, excepto quem os leia.
Comecemos pelo bestseller do ano, a biografia de Cristina Ferreira para a qual a conhecida apresentadora de televisão pousou numa pose capaz de tentar qualquer vampiro por mais morto que esteja. Ao olharmos para o livro, sentimos que foi Cristina quem o escreveu. Felizmente, não teremos que ouvir Cristina a lê-lo. É o maior dos méritos desta obra, poupar-nos à voz esganiçada da autora. Uma sinopse para o livro podia ser: era uma vez uma menina muito pobre que se tornou numa mulher muito rica. As pessoas adoram. E a culpa é dos escritores a sério.
Ainda nos domínios da televisão, mas com uma outra consistência metafísica, sugere-se a mais recente obra da bruxa fina que dá pelo nome de Maria Helena. Tudo é luz em torno desta mulher. Maria Helena veio ocupar um segmento outrora governado por Alexandra Solnado, acrescentando-lhe o lado prático da comunicação com tudo o que seja figurinha celestial. Há toda uma parafernália de ensinamentos neste “Rituais de Luz” que o eleva a bíblia da bricolagem espiritual. Imprescindível a quem acredite no mau olhado.
Mais terreno, igualmente sóbrio, o nosso rei da música pimba irá rivalizar neste Natal com inúmeras obras sobre músicos vindas a lume ou reeditadas no ano prestes a findar. Ele foi Bowie, ele é Springsteen, ele foi Cohen, ele é Dylan, ele será agora e sempre Américo Monteiro (aka Emanuel). À biografia do nosso maior singer-songwriter apontamos apenas uma lacuna: devia vir com as letras e cifras para guitarra. Quanto ao título, é todo um programa: nascemos para ser felizes. Ser, sermos, o que importa é sentir a luz da felicidade nas mãos de Deus.
E assim chegamos a Maria Lisboa, uma mulher com histórias para contar cravadas no peito. A pose reverencial da capa não engana, “Nas mãos de Deus” é toda uma oração à vida que o leitor de tragédias portuguesas não poderá desaproveitar. Nick Cave perdeu um filho e concebeu um álbum, Maria Lisboa perdeu um filho e concebeu um livro. Cada qual trata das suas dores como pode e a escrita é quase sempre um gesto terapêutico (sobretudo para a indústria livreira).
Nos domínios da ficção pura, Raul Minh’alma, a quem certos leitores chamam carinhosamente “o alminhas”, surge onde dantes surgia Pedro Chagas Freitas. As chagas de Pedro e a alma de Raul farão as delícias de todos quantos apreciem uma história mal contada, um chorrilho de banalidades, lamechices a rodos. A grande ficção deste e de outros livros como este é a sua própria existência, como perduram nos tops de vendas e conquistam leitores (mais elas que eles) vorazes e dedicados. Depois da marca registada Rebelo Pinto, eis-nos perante estas almas da pós-verdade-pós-moderna que já não são light nem pimba, são apenas top.
Como não podia deixar de ser, num cabaz literário de Natal que se preze temos que contar sempre com o nosso fala-barato motivacional preferido. O livro não é assim tão barato, mas vale a pena pelas lições de vida que permitem descobrir o caminho da vida desbravando os entulhos da vida em direcção a uma nova vida mais vida que a anterior. Luz, sentimento, alma, Deus, vida, felicidade, tudo isto se condensa em Gustavo Santos, essa latinha de valores condensados com a qual produziremos as mais doces teorias acerca de nós próprios e dos outros. Com Gustavo Santos poderemos ser tudo, menos o Gustavo Santos.
E, já agora, menos o Ruben Rua. Para isso precisaremos de uma Cristina.
Comecemos pelo bestseller do ano, a biografia de Cristina Ferreira para a qual a conhecida apresentadora de televisão pousou numa pose capaz de tentar qualquer vampiro por mais morto que esteja. Ao olharmos para o livro, sentimos que foi Cristina quem o escreveu. Felizmente, não teremos que ouvir Cristina a lê-lo. É o maior dos méritos desta obra, poupar-nos à voz esganiçada da autora. Uma sinopse para o livro podia ser: era uma vez uma menina muito pobre que se tornou numa mulher muito rica. As pessoas adoram. E a culpa é dos escritores a sério.
Ainda nos domínios da televisão, mas com uma outra consistência metafísica, sugere-se a mais recente obra da bruxa fina que dá pelo nome de Maria Helena. Tudo é luz em torno desta mulher. Maria Helena veio ocupar um segmento outrora governado por Alexandra Solnado, acrescentando-lhe o lado prático da comunicação com tudo o que seja figurinha celestial. Há toda uma parafernália de ensinamentos neste “Rituais de Luz” que o eleva a bíblia da bricolagem espiritual. Imprescindível a quem acredite no mau olhado.
Mais terreno, igualmente sóbrio, o nosso rei da música pimba irá rivalizar neste Natal com inúmeras obras sobre músicos vindas a lume ou reeditadas no ano prestes a findar. Ele foi Bowie, ele é Springsteen, ele foi Cohen, ele é Dylan, ele será agora e sempre Américo Monteiro (aka Emanuel). À biografia do nosso maior singer-songwriter apontamos apenas uma lacuna: devia vir com as letras e cifras para guitarra. Quanto ao título, é todo um programa: nascemos para ser felizes. Ser, sermos, o que importa é sentir a luz da felicidade nas mãos de Deus.
E assim chegamos a Maria Lisboa, uma mulher com histórias para contar cravadas no peito. A pose reverencial da capa não engana, “Nas mãos de Deus” é toda uma oração à vida que o leitor de tragédias portuguesas não poderá desaproveitar. Nick Cave perdeu um filho e concebeu um álbum, Maria Lisboa perdeu um filho e concebeu um livro. Cada qual trata das suas dores como pode e a escrita é quase sempre um gesto terapêutico (sobretudo para a indústria livreira).
Nos domínios da ficção pura, Raul Minh’alma, a quem certos leitores chamam carinhosamente “o alminhas”, surge onde dantes surgia Pedro Chagas Freitas. As chagas de Pedro e a alma de Raul farão as delícias de todos quantos apreciem uma história mal contada, um chorrilho de banalidades, lamechices a rodos. A grande ficção deste e de outros livros como este é a sua própria existência, como perduram nos tops de vendas e conquistam leitores (mais elas que eles) vorazes e dedicados. Depois da marca registada Rebelo Pinto, eis-nos perante estas almas da pós-verdade-pós-moderna que já não são light nem pimba, são apenas top.
Como não podia deixar de ser, num cabaz literário de Natal que se preze temos que contar sempre com o nosso fala-barato motivacional preferido. O livro não é assim tão barato, mas vale a pena pelas lições de vida que permitem descobrir o caminho da vida desbravando os entulhos da vida em direcção a uma nova vida mais vida que a anterior. Luz, sentimento, alma, Deus, vida, felicidade, tudo isto se condensa em Gustavo Santos, essa latinha de valores condensados com a qual produziremos as mais doces teorias acerca de nós próprios e dos outros. Com Gustavo Santos poderemos ser tudo, menos o Gustavo Santos.
E, já agora, menos o Ruben Rua. Para isso precisaremos de uma Cristina.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2016
ESTRANHO
Falar de Mário Soares como se já tivesse morrido. O princípio da presunção da inocência nunca foi respeitado neste país.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
PÓS-MODERNIDADE
Recebido por e-mail:
Uma pastelaria em Sines, colocou à venda (com o alto
patrocínio, da mana do poeta) um BOLO, baptizado de: AL BERTO.
Agora com imagem. Juntem-se-lhe o vinho Campilho e o boneco Peixoto (aqui) e teremos garantidamente um inesquecível Natal da pós-verdade.
Agora com imagem. Juntem-se-lhe o vinho Campilho e o boneco Peixoto (aqui) e teremos garantidamente um inesquecível Natal da pós-verdade.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
VIAGEM DE COMBOIO COM POEMAS DO ZÉ PETINGA
zé
os poemas escritos com tinta rosa sabem mais a ti
ao longo de todo este caminho pressinto-o
os cigarros são fumados com a promessa
de que o fumo não acabe
e as palavras surgem quando o mar se levanta
consigo perceber muito bem
as tardes no café do tónho do casino
eu habitei as duas casas dessa rua
o imóvel e o habitat natural dos versos escritos com
maresia
de longe vem o vento que bate na janela
continuamente chegam pessoas ávidas pela viagem
outra nem tanto
(acendo um cigarro)
arrastado pela sombra que foge
absolvo a tua perdição
foste um menino celeste que agora transportas
as ruas de bruxelas de paris de amesterdão
a praia do norte
absolvo-te
os outros gesticulam-te primaveras mortas
(a cinza cai em cima do papel)
leio o primeiro poema que ainda é rosa
(o cobrador pede-me o bilhete
pica nervosamente o pedaço de papel vermelho
sem saber que esse pedaço de papel serve de marcador
no livro: confissões de verlaine)
de s. martinho a óbidos
tomo o poema um café com natas
lá fora as árvores chegam ao céu
(já chegámos ao bombarral
no banco da frente dormem duas miúdas estrangeiras)
porque é que o diálogo sustém sempre o sonho
e o pólen eleva no ar o fluido do mundo?
penso à velocidade desta máquina
como se houvesse energia fora do corpo
e produzisse luz de papel
(o cobrador ralha com três putos
diz que gosta de dar educação aos mais novos
apanharam o comboio atrasado na tabela
não têm bilhete
o velho pede dez contos de multa a cada um
o mais novo de rabicho
ri de frente para a janela)
vou escrevendo em linhas tortas
(o velho limpa a testa suada com as mãos
condescende
o puto das notas ajeita o cabelo
enfia na cabeça um boné de pala
paga os bilhetes
suspira)
zé
ainda bem que rebentámos da nossa precoce virilidade
afinal somos da praia
apenas mais um lugar no mundo
penso de novo no livro
antecipo-lhe a capa
as folhas seguem aqui neste comboio
(acendo só mais um cigarro)
as canções que escreves
podiam ser artérias que ligassem todos os livros
de todas as bibliotecas
o debate pela caverna
onde as raízes são astros
apenas isso
consigo imaginar a alegria
dos cabelos compridos
(olha acabámos de passar o apeadeiro do ramalhal)
eles ficam inertes
com o tempo que passa
sabias que nós adquirimos
tempestades de todas as cores?
(leio agora a canção de van horst)
percebo nos poemas
o desfio de borboletas rosa
(em torres vedras entrou um bando de mulheres
muito faladoras e a comer bolachas)
são minúsculas as flores
sim
minúsculas e devoradoras
acredito em ti pela vida fora
não quando pararmos
havemos de ter resposta
quando não conseguirmos mais falar
(o comboio parou a meio do caminho
julgo não ser nada de especial)
m. parissy (n. 1969), in cafurnas (2002). «m. parissy procura nas suas publicações (opúsculos de autor ou livros editados em editoras marginais) criar um ambiente marcado por uma grande amizade pelos outros e uma alegria de viver, fundindo estas emoções com um pensamento interior de solidão e, por vezes, nostalgia de um tempo que se esvai e cuja memória se obriga em fazer perdurar nos seus poemas. / Lugares míticos como Lisboa, Paris ou Bruxelas, autores de culto como Ginsberg, Éluard ou Ferlinghetti, vivem ao lado de personagens de carne e osso (o mizé, o grilo, o pássar'da névoa, o silvino, o petinga) nascidos na geografia do poeta, e de locais que ajudaram a construir o seu edifício poético» (Jaime Rocha, in nota introdutória a cafurnas).
domingo, 11 de dezembro de 2016
TAMBÉM QUERO
Hoje cometi vários erros, o cansaço toldou-me o pensamento. O
cansaço e as perguntas difíceis: «Tem livros sobre começar do zero?» Não sei se
percebi a pergunta, mas sugeri vários. Assim mandam as regras. Não satisfeito, o
requerente insistiu: «Livros para começar do nada, uma vida nova». Também
queria, meu caro. Também queria.
sábado, 10 de dezembro de 2016
A CHAMA E AS CINZAS
Ainda que ancorado nas
naturais limitações de uma síntese, um livro como A Chama e as Cinzas (Bertrand,
Setembro de 2016) padece, à partida, de um mal sem cura: propõe-se realizar o
que sabe irrealizável sem resvalar para generalizações de objectividade
duvidosa. Uma das primeiras generalizações proposta pelo autor é a de três orientações para a literatura
portuguesa produzida depois da Revolução: a que olha para trás (focada na
História), a que olha para a distância (focada em espaços geográficos
exteriores ao território nacional), a que olha para dentro (focada no Eu
próprio). A pergunta que se impõe é: não foi sempre assim? O que há de novo
nestas três, que poderiam ser quatro ou cinco ou seis, orientações? Nada.
Sempre em todas as épocas houve escritores que olharam para fora tanto quanto
olharam para dentro, ainda que rareiem aqueles que preferem olhar-se ao espelho,
não para se contemplarem, mas para se questionarem sobre o que em si há de
verdadeiramente humano e universal. Talvez seja isto o que falta tanto à
literatura portuguesa como à crítica que a fixa, estando porventura essa lacuna relacionada com uma ausência de espaço crítico verdadeiramente autónomo e independente.
Percebemos que esse espaço crítico
é exíguo quando no texto intitulado Literatura e sociedade: as hipóteses de
Abril, se sugere uma ideia de literatura enquanto «fenómeno das margens», a
qual parece desfasada do espectáculo festivaleiro que tem vindo a aglutinar
toda a indústria livresca (falo de indústria livresca pensando em todos os seus agentes
sem excepção). Curioso notar que estes textos tenham sido motivados pela
nomeação de Portugal como país-tema na Feira do Livro de Frankfurt de 1997, a
qual não deixa de ser feira por ser em Frankfurt e, por consequência, ao ser
feira, não deixa de arrastar consigo as vaidades que o autor do livro em causa
parece desdenhar. Que margens serão essas que uma Feira como a de Frankfurt se
encarrega de promover? Não há margens, o espaço de resistência fica ao lado de
quaisquer panorâmicas de pendor académico, por mais que o academista reclame
para si um lugar de exclusão. Tudo isto se integra, portanto, num espectáculo
em torno do livro que o reduz, por um lado, a objecto de mero entretenimento e,
por outro, a certificado para consagração na sociedade anónima da autoproclamada
intelligentsia.
Igualmente redundante resulta
o capítulo intitulado Leituras da História: facto e ficção no romance. Às teses
explanadas nada há que contrapor, a não ser a constatação de um laconismo resultante
de uma decepcionante colagem ao cânone (Saramago, Lídia Jorge, Jorge de Sena,
Vasco Graça Moura). Não estando em causa a noção mais usual de “romance
histórico”, mas antes a relação do romance com tempos históricos concretos para
a metaforização do presente, é difícil aceitar a inexistência de uma
referência, por mais fugaz que fosse, aos romances de J. Rentes de Carvalho,
precisamente pela consciência da História que revelam ao reflectirem o tempo do
autor tanto a partir de uma observação do país anterior à revolução como de uma
análise crítica do que a revolução trouxe a esse mesmo país. A prosa de José Martins
Garcia mereceria também uma referência, nomeadamente pelo olhar desempoeirado,
céptico e desencantado que oferece sobre a Guerra Colonial e os primeiros anos
de regime democrático. As referências que João Barrento respiga num quarto de século de
literatura portuguesa (1974-2000) acabam por ser mais do mesmo, ou seja, as que
encontramos profusamente divulgadas nas páginas dos suplementos literários, no jornal dito da especialidade, nas revistas literárias onde a crítica se vai
exercendo de um modo oficial e oficioso.
Um capítulo sobre a “literatura
de mulheres” é sempre simpático, ainda que discutível nos termos em que aparece
invariavelmente formulado: é discriminatório falar em literatura feminina,
mas... Ora, é precisamente no mas que reside o problema de tal critério. Em
suma, podemos defender que esta separação não faz sentido. Há boa e má
literatura, independentemente do género do autor que a produz. A optar-se pela divisão,
sobretudo colocando o enfoque numa mudança de paradigma social, por que não um
capítulo dedicado à chamada literatura gay? João Barrento está mais interessado
na «transformação radical (…) da perspectiva narrativa (as mulheres narram a
partir de um olhar mais estático e interiorizado, como que à janela, observando
o mundo a parir [sic] da casa)» (p. 64). Não comento. As obras em evidência são
as de Maria Velho da Costa e da inevitável Maria Gabriela Llansol. No entanto,
Barrento apoia-se nelas para sublinhar características que não são exclusivas
de uma suposta narrativa no feminino. O mesmo acaba por reconhecê-lo, socorrendo-se
de livros tais como Finisterra, de Carlos de Oliveira, e esse «belo e estranho
livro de contos que é A Casa do Fim», de José Riço Direitinho, ou ainda a obra
de Rui Nunes, para sublevar estratégias discursivas que, na opinião do
ensaísta, se revelam com maior acuidade na chamada escrita feminina: polifonia
narrativa, supressão da temporalidade linear, a textualização em primeiro
plano, a contaminação do romance por outros géneros (poema em prosa, ensaio,
fragmento, carta, autobiografia…). Mesmo delimitando a análise à experiência
literária portuguesa ocorrida entre os anos de 1974 e 2000, parece-nos algo
forçado, para não dizer contraproducente, sustentar em tais tendências
discursivas uma literatura que é muito mais fruto do tempo do que de um género.
Mais entusiasmante é o
capítulo dedicado ao conto, com uma abordagem certeira à problemática encerrada
nas formas narrativas breves. Ainda que notemos algumas ausências relevantes no
decurso de uma espécie de genealogia do conto português durante o séc. XX —
José Gomes Ferreira, tão injustamente esquecido, será a ausência mais chocante —, é de
sublinhar o esforço de divulgação de obras não tão consensuais (onde cabem
tanto Pedro Paixão como Jacinto Lucas Pires) a par de outras relegadas, sem que
entendamos porquê, para um segundo plano (Teresa Veiga, Maria Judite de
Carvalho ou o supracitado José Riço Direitinho). Incompreensível, porém, que ao
falar-se de conto português num período como o abarcado por esta obra se omita
por completo a influência de Mário-Henrique Leiria e Ana Hatherly, com as
Tisanas, sobre um conjunto de autores que à entrada do séc. XXI intentaram
explorar os territórios mais experimentais da micronarrativa. Da mesma forma,
torna-se difícil aceitar que um contista como Alface, com livros fundamentais
publicados nas décadas de 1980 e 1990, seja ainda hoje, passados quase 10 anos
sobre o seu desaparecimento, um não-autor nas contas da crítica especializada.
Resta a poesia, que para o
drama não houve tempo. Reconhecida a impossibilidade do balanço, João Barrento
toma o pulso à «nossa época pós-moderna, glamorosa e hedonista», uma época que
«quer ver caras e corações, quer nomes, rostos e as vozes humanas dos poetas,
quer espectáculo e histórias (talvez por isso proliferem hoje, pelo menos na
Europa, os Festivais e as leituras de poesia)» (p. 118). Estas coisas
afirmam-se não sem razão, acolhem fácil e rapidamente a empatia de todos
quantos denunciam esse aparato vampírico da nossa época. O problema são os reis
que desfilam nus. Segue-se, então, um longo programa de enumerações
especialmente preparado para a Feira (seja ela a de Frankfurt ou a dos poetas
incipientes à espera de serem citados). Impressionante que um género tão low
profile provoque sempre tamanha celeuma e obrigue a cuidados redobrados. Será
da hipersensibilidade dos poetas? Findo o tempo dos grupos associados a
revistas, siga-se então o tempo das publicações associadas a grupos. O primeiro
passo (um dos) será dado por quatro poetas muito respeitáveis e a publicação de
um Cartucho: Joaquim Manuel Magalhães, o mais lido dos quatro nestas páginas,
João Miguel Fernandes Jorge, António Franco Alexandre, o menos lido dos quatro nestas
páginas, e Helder Moura Pereira.
Na verdade, estamos numa
encruzilhada. Tal como é impossível caminhar num pântano sem ficarmos nele
atolados, também se afigura missão impraticável falar da poesia num tempo
histórico sem nos prendermos à diversidade (imensa, no caso português, mesmo
quando adoptamos a postura exigente do cirurgião) das suas vozes. E nisto, como
em tudo, há sempre um grau de subjectividade inultrapassável. Sublinhe-se o
risco dos traços gerais. Barrento sugere três orientações maiores: 1.ª viragem
para uma poesia da experiência quotidiana, 2.ª regresso às histórias, ao poema
longo e narrativo, 3.º um ecletismo que acolhe tanto o tom elegíaco e
desencantado como o regresso à tradição. Em suma: o primeiro Joaquim Manuel Magalhães.
O problema é que estas são apenas três orientações de uma encruzilhada bem mais
complexa. Onde encaixar aqui, por exemplo, a assimilação da cultura Beatnik no Portugal
atrasado da década de 1970 em diante, nomeadamente nas obras dos três autores
por detrás da antologia Sião (Al Berto, Paulo da Costa Domingos, Rui Baião)? E
que tem que ver com esse realismo apontado por João Barrento o António Ramos
Rosa dos anos 1980 e subsequentes? E o poema em prosa, extremamente metafórico,
de Luís Miguel Nava? E a poesia minimalista de um Jorge Sousa Braga? E o
confessionalismo dito pop de uma Adília Lopes? E a reflexividade ensaística,
situada nos territórios da contracultura, de um Fernando Guerreiro? E a
diarística de um reiteradamente ignorado Silva Carvalho? O novo realismo que
João Barrento ajuda a impor é apenas uma face de um rosto cúbico, com muitas mais
do que duas faces à disposição dos leitores.
Tendemos a crer que não há tendências
dominantes na poesia de uma época senão no discurso tendencioso de um crítico.
Falar de poesia de uma época estando tão dentro dela já se nos afigura
tarefa hercúlea, quanto mais delimitar-lhe tendências. É o crítico quem procura
impor domínios, tentando separar águas que serão sempre mais fecundas se nelas se
debaterem a multiplicidade de discursos possíveis no contexto de uma literatura
polissémica. Dito isto, sobraria a dessacralização da poesia como tendência
geral não fosse, aqui e acolá, a resistência de vates mais dados às coisas do
sagrado que porventura se julgarão no papel de demiurgos a cada vez que
escrevem um verso. Ficou feio ser-se ideológico, é certo, o hermetismo entrou
em desuso, mas mantém-se uma enorme indulgência para com tudo quanto queira ver
Deus (o do Tolentino ou o do Barahona) entre as ruínas do temp(l)o. E uma
poesia do feminino, não há? Deveremos apô-la, contando com as explicações supra,
a estas tendências masculinas? Não existem respostas para estas perguntas em A Chama e as
Cinzas. Há apenas a reafirmação das «tendências elegíacas de alguma da
novíssima poesia portuguesa» como se o mundo aí tivesse parado, como se ao lado
e sobre as lágrimas contidas de uma melancolia rasa não troasse já o riso
escarninho e a ironia fina de uma poesia muito mais lúdica, satírica, solar
até.
Em suma, o diagnóstico é
hiperbólico na leitura negativista que oferece do mundo: «A escala do mundo
define-se hoje por dois parâmetros que se opõem e se completam em cada
indivíduo: o movimento das Bolsas (o único lugar onde a vida se rege ainda por
«valores») e as vivências do corpo (quase só valorizado na sua dimensão
cosmética e hedonista)» (p. 177). Quando as premissas são estas, valerá a pena
partir para a discussão crítica de um tempo? Esta é a questão que talvez devêssemos
formular antes de todas as outras, pois todas as outras serão uma consequência da
resposta a esta pergunta. O mundo parece sempre mais diverso do que esses dois
parâmetros permitem adivinhar. A crise profunda que, segundo João Barrento, afecta
hoje os estudos literários é, como todas as crises, um teste ao paradigma da
tradição que enforma tais estudos. Numa sociedade que espera dos seus cidadãos
apenas competências técnicas, torna-se quase anacrónico exigir-lhes competências
críticas. Digamos que o homem da cidade não está preparado para tanto, ele é ao
mesmo tempo carrasco das velhas figuras e vítima da ausência de tradição (a
qual redunda no desenraizamento histórico). Continuamos a pensar, as leis do
pensamento coligidas por Aristóteles são as mesmas, mas o foco e o interesse
são outros. O diagnóstico elaborado por Barrento é, desta forma, convincente na
denúncia dos perigos que nos espreitam, mas acaba por perder credibilidade
quando ao longo de 170 páginas insiste numa leitura demasiado concentrada da literatura
portuguesa. As redes de comunicação que hoje cativam as massas também têm os
seus méritos. Um deles, é o de dar a entender e mostrar que há mais literatura
para lá do cânone. E ao tempo caberá, mais do que nunca, fazer viver ou
enterrar o que já não está nas mãos dos cangalheiros da universidade.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
CELEBRE-SE A VIDA
Kirk Douglas faz 100 anos. Num ano de lutos sucessivos, celebremos a vida deste bom velho cowboy. Podemos revê-lo em The Indian Fighter, do grande André de Toth. Ou em Last Train From Gun Hill, do inevitável John Sturges. Ou numa das mais inesquecíveis encarnações do célebre Doc Holliday, em Gunfight At The O.K. Corral. Ou, para terminar, num improvável mas extraordinário duelo com o escritor de canções Johnny Cash, em Gunfight. Clique nos títulos a vermelho e será reencaminhado para as boas memórias de um grande actor.
I'M ONLY BLEEDING
A meio da década de 1960, Bob Dylan inflectiu na direcção
dos blues e do rock’n’roll com homenagens a Chuck Berry, Muddy Waters, Sonny
Boy Williamson. A influência de Woody Guthrie mantém-se tanto em termos líricos
como ao nível da composição. Sucede que a tradicional viola acústica a que a
folk music se confinava encontra o ruído das guitarras eléctricas, conjugando-se
para ultrapassar convenções e desbravar o caminho para uma dimensão lírica do
rock até então desconhecida. Já toda a gente sabe do escândalo que foi Bob
Dylan aparecer em palco como uma guitarra eléctrica
a tiracolo, mas poucos se têm interrogado sobre a atitude contestatária
inerente a tal gesto de rebeldia. Em si mesmo, o gesto de Dylan foi uma canção
a derruir as muralhas do preconceito. Acresce que em Bringing It All Back Home
(1965) encontramos alguma da lírica mais alucinada e onírica saída da pena
dylaniana. O ano ficará marcado pela chegada de tropas americanas ao Vietnam,
pelo assassinato de Malcolm X, pela invasão da República Dominicana, por toda
uma série de factos e de acontecimentos que conferiam ao mundo uma imagem
apocalíptica. Canções como On the Road Again, Bob Dylan’s 115th Dream, Mr. Tambourine
Man, reflectem esse estado caótico da sociedade de então, tendo algumas das
imagens surrealistas que as compõem chegado a ser associadas ao consumo de
drogas como se fosse necessário um homem drogar-se para exprimir a vertigem de
um tempo confuso e desarrumado. No zénite deste onirismo, como o velho da
montanha que lá do alto nos observa, surge It’s Alright, Ma (I’m Only
Bleeding). É difícil não falar de génio quando nos deparamos com uma canção
destas. Quem questiona ou duvida das capacidades poéticas de Bob Dylan devia
ser obrigado a ler esta letra em voz alta pelo menos uma vez na vida:
(…)
For them that must obey authority
That they do not respect in any degree
Who despise their jobs, their destinies
Speak jealously of them that are free
Cultivate their flowers to be
Nothing more than something they invest in
While some on principles baptized
To strict party platform ties
Social clubs in drag disguise
Outsiders they can freely criticize
Tell nothing except who to idolize
And then say God bless him
While one who sings with his tongue on fire
Gargles in the rat race choir
Bent out of shape from society’s pliers
Cares not to come up any higher
But rather get you down in the hole
That he’s in
But I mean no harm nor put fault
On anyone that lives in a vault
But it’s alright, Ma, if I can’t please him
(…)
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
DAQUI PARA FORA
Quem percorra a página do Público, deverá fazê-lo com
cautela. Aliás, hoje em dia toda a relação com um órgão de comunicação social
exige enorme cautela. Ao mínimo descuido, sai-se ferido com mazelas para a
vida.
A imagem ao alto é o destaque do dia, sob a qual surge uma notícia
que parece anúncio a thriller de série B: «Rui Rio ensombra Passos ao
participar em almoços e jantares do PSD». O contraste não podia ser maior,
pensamos. Mas logo somos desmentidos pela notícia que se segue: «O que menos
interessa no debate sobre O Último Tango em Paris é a manteiga». Recordar-se-ão
da célebre cena de sexo lubrificado com manteiga. Toda a gente lhe chama cena
de sexo anal, mas eu não me recordo de ver referências a isso no filme. Também
não me apetece revê-lo. Estou mais interessado em conseguir conciliar as ruínas
e a miséria de Alepo com as aparições no interior do PSD e pacotes de manteiga
em cenas filmadas há 42 anos. Não conseguindo, volto-me para a cultura e para o
desporto como quem busca refúgio para a sanidade mental: «Cheerleading e Muay
Thai com estatuto olímpico provisório», «Numa praça de Beja, ficou provado que
substituir calçada por laje não é boa ideia».
Com legitimidade interrogamo-nos
sobre o sentido deste mundo e não vislumbramos resposta minimamente
satisfatória. Parece tudo improvável como num filme de ficção científica. O
mais que podemos supor é estarmos precisamente a viver num filme de ficção
científica, guiados por um génio maligno para o qual a razão não tem filtros.
Ora tentemos conciliar mais dois cabeçalhos: «Trump nomeia um
céptico das alterações climáticas para Agência de Protecção Ambiental» e «Os
americanos acreditam em notícias falsas 75% das vezes». Talvez exista um
sentido escondido por detrás de tudo isto, um sentido que desafia imaginação e
perspicácia, indução e dedução, um sentido ao qual uma outra notícia, também
relacionada com os EUA, oferece maior problematização: «Perdeu o seu amor por
apoiar Trump? Há um site para encontrar um novo par». E assim concluímos que
vivemos no melhor dos mundos possíveis, como pretendia o filósofo e inúmeros
dos seus seguidores. Enfim, não admira o tempo perdido no entretenimento à disposição.
Ontem, a caminho do mar, ouvia, com a boca mais aberta do que os ouvidos, os
comentários em antena aberta à notícia do dia: «Portugal é dos países onde mais
alunos pobres conseguem bons resultados». Os resultados no estudo PISA são
animadores, mas os portugueses, a generalidade dos portugueses, não sabem lidar
com resultados animadores. Se por um lado se discutia a quem devemos dar louros
pelos resultados alcançados, por outro a ladainha do costume fazia as honras da
casa. «É preciso é disciplina, disciplina e mais disciplina, no meu tempo
coisas que se passam hoje eram impensáveis, os professores não têm autoridade,
não há respeito». Poderíamos congratular-nos com a boa notícia, aproveitá-la
para pensar os critérios do estudo em causa e as razões dos resultados obtidos.
Nada disso. Infelizes com a felicidade, buscamos de imediato pretextos para
transformar uma boa notícia num pesadelo.
Tudo isto é de uma insignificância
atroz, obviamente. Alepo, sites de encontros para eleitores de Trump, cenas
com manteiga, fantasmas no PSD, cheerleading com estatuto olímpico, notícias
falsas e a rede social dos literatos lisboetas com o pito aos saltos por causa
de quem pediu prefácio a quem... nada disto tem interesse algum. Farinha do mesmo saco demente. Pela parte que
me toca, concentro-me no feijão mágico que a Beatriz me ofereceu. Cresce a
olhos vistos com um coração em cada face, já rebentou as asas e aguardo
pacientemente que comece a voar e me leve de pendura daqui para fora.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
ANONYMOUS
O anonimato não espelha necessariamente uma atitude cobarde.
Ele pode ser o escudo por detrás do qual o guerreiro se protege num tempo em
que uma das maias poderosas armas é o aparecer. Com o tempo vamos aprendendo a
valorizar tais armas, sobretudo ao constatarmos que, em certos casos, a
supressão do anonimato redundaria apenas no reforço do insuportável teatro das
conveniências. Ou seja, desfeito o anonimato: amigos para sempre.
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
FAZ DE CONTA
Há dias fui jantar com um grupo de amigos. Amigos com histórias para
contar. Algumas com 20, 25, 30 anos. Amigos de infância, amigos de
adolescência. Enfim, velhos amigos. Uns mais, outros menos. Cada qual com a sua
vida, seguindo o seu rumo, em direcções por vezes opostas. Mas amigos. Como
pode alguém ser amigo de alguém de quem jamais seria amigo na vida real? Isto
é, fora de uma rede social. A rede social também é real, mas será real o que se
passa na rede social? Suponho que o conceito de pós-verdade tenha que ver com
isto. Suponho que comece aqui. Não é verdade que as pessoas sejam amigas, entre
elas estabelecem-se elos interesseiros que nada têm que ver com a amizade. São
amigos a brincar. A pós-verdade é uma verdade a brincar, reflecte a tal
infantilização do mundo que temos vindo a denunciar. O mundo está cada vez mais
faz de conta. Recuso juízos de valor sobre isso, limito-me a constatá-lo.
MARIA HELENA E JORGE JESUS
Maria Helena é uma espécie de bruxa fina com direito a espaço mediático nas
manhãs da SIC, em canal aberto. Já publicou livros, os quais vendem que nem
tremoços. Maria Helena diz que resolve problemas de Amor, Trabalho, Saúde,
Dinheiro, tudo através do poder dos astros e das cartas. A popularidade destas
técnicas ancestrais é indiscutível. Podemos, no entanto, interrogar-nos por que
está a Maria Helena nas manhãs da SIC e não o Professor Karamba? Talvez a
resposta resida naquilo a que chamamos poder de comunicação. A Maria Helena
é loura, apresenta-se como um anjo caído do céu com o ar respeitável que um par
de óculos confere. Sente-se como peixe na água à frente das câmaras, não vacila mediante questões palermas. Tem
uma capacidade retórica invejável.
Nos tempos que correm, tudo se reduz ao
poder de comunicação. Não importa o que se diz, os conteúdos podem ser os mais
abjectos e imbecis desde que a forma seja a correcta. Na arte também se passa isto. Maria Helena é o paradigma do artista tagarela que expõe um tijolo
no meio de uma sala mas consegue elaborar um discurso coerente e sedutor acerca
do tijolo, conquistando assim atenções e adeptos para a sua causa. Não importa
a obra, importa o discurso que se tenha acerca da obra. Não importa a
razoabilidade do tarot, importa o palavreado, a conversa, a tagarelice em torno
das cartas.
Há quem não veja mal algum no sucesso destas personagens, afirmando com complacência e certo
desleixo: desde que as pessoas se sintam bem. Pois, desde que as pessoas se
sintam bem. Sempre que ouço alguém falar assim recordo-me de um episódio numa
série (House, M.D.?) em que uma rapariga se queixava de que o seu namorado só
queria ver pornografia e não fazia amor com ela. O rapaz sentia-se bem a ver
pornografia, retirava mais prazer da masturbação enquanto assistia a cenas
porno do que a fazer amor com a namorada. Para a namorada ele tinha um
problema, mas ele achava que não. Sentia-se bem. E se calhar não tinha, e se calhar tinha. Mas o problema dele não o afectava, afectava
a sua relação com a namorada.
Ora, com as Maria Helena deste mundo passa-se o mesmo. O prazer não está no bem-estar que proporcionam a quem as tenha
em boa conta, mas na relação que os espectadores passam a ter com a realidade,
com a ciência, com o saber, com o conhecimento, com o mundo à sua volta. Jorge
Jesus é a antítese de tudo isto. As suas capacidades retóricas são
absolutamente miseráveis. Quem o ouça falar só pode concentrar os seus esforços
na contenção do riso. O homem é uma máquina de produzir calinadas. No entanto,
os seus méritos de treinador são inegáveis. Jorge Jesus é a personificação derradeira da cultura de mérito. Como costuma dizer-se, percebe de
futebol como ninguém. Talvez a linguagem dos homens que lidera seja do mesmo
tipo, talvez exista entre ele e os seus jogadores um patamar comunicacional que
escape ao mundo que os rodeia. Portanto, nada mal desde que resulte.
Não
importa que o português de Jorge Jesus seja miserável, não importa que nas
conferências de imprensa ele diga as maiores barbaridades para a plateia de
milhões que aguarda ansiosamente qualquer uma das suas intervenções. Importa
que resulte. A favor do espectáculo. Não fosse este lado pragmático da
showciedade, poderíamos olhar para Jesus como um contrapoder, um digno representante
da contracultura comunicacional. Mas tal como a Maria Helena nos ensina a
sermos felizes, o Jorge Jesus explica-nos os trâmites do desaire. São ambos figuras de um
alçapão mediático que ajuda a entender o sucesso das iniquidades que têm na
sua origem um crescente desrespeito e desinteresse por tudo quanto leve a um
pensamento articulado, aquele onde a linguagem não fica reduzida à superficialidade
de uma qualquer forma de empatia.
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