sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A POESIA COMO ARTE INSURGENTE

À pergunta sobre a possibilidade da poesia depois do holocausto, um grupo de jovens norte-americanos saturados da cultura ocidental respondeu com o mais instigador dos uivos. Ficaram conhecidos como Geração Beat, o que pode querer dizer muita coisa não nos cabendo aqui especular sobre o tema. Surgiram na década de 1950 com uma atitude verdadeiramente vanguardista, empenhados numa afronta aos valores tradicionais adoptando atitudes éticas e estéticas que foram assimiladas, por vezes muito mal, pelos mais diversos movimentos de contracultura que o Ocidente conheceu nas décadas seguintes. Interessados nas tradições não ocidentais, mormente nos costumes e hábitos indígenas e nas filosofias orientais, professaram eles próprios sistemas de vida exóticos, advogando a sexualidade livre, concepções políticas o mais próximas que consigamos imaginar dos antigos filósofos cínicos e dos hedonistas, sintonizados numa frequência multicultural que não reconhecia barreiras entre artes.
Nunca se reconhecendo como parte integrante do “grupo”, Lawrence Ferlinghetti (n. 1919) acabou por assumir um papel fulcral na sua afirmação. Depois de ter servido na marinha durante a Segunda Grande Guerra, transformou-se num pacifista militante. Formou-se em Literatura pela Columbia University e mudou-se para Paris, onde viveu entre 1947 e 1951, com a intenção de aprofundar estudos literários. Já casado, fixou-se em São Francisco no ano de 1953. Deu aulas de francês, pintou, foi crítico de arte, traduziu e fundou com Peter D. Martin a City Lights Bookstore. Foi precisamente neste contexto que desempenhou um papel determinante no percurso de muitos autores associados à Geração Beat, nomeadamente enquanto editor. Publicou, entrou muitos outros, livros de Ginsberg, Gregory Corso, Charles Bukowski, William Carlos Williams. Foi com o selo da City Lights que em 1956 o mais emblemático dos livros de poesia da Geração Beat viu a luz do dia. Por causa da publicação de Howl and Other Poems (1956), de Allen Ginsberg (n. 1926 – m. 1997), Ferlinghetti acabou por ser detido e acusado de propagandear obscenidades.
Estávamos em 1956 e tudo isto é hoje parte integrante da historiografia oficial. No entanto, Lawrence Ferlinghetti não foi apenas editor. Excelente poeta, publicou dezenas de livros. A Coney Island of the Mind (1958) é um dos mais populares. Infelizmente, apesar das ligações familiares a Portugal, a sua obra nunca mereceu grande atenção por cá. A Poesia como Arte Insurgente (Relógio D’Água, Dezembro de 2016) surge, deste modo, rodeado de expectativas. Originalmente publicado em 2007, coube a tradução portuguesa à também poeta e editora Inês Dias. A edição bilingue facilita o confronto, escusado dada a qualidade da tradução. Reúnem-se neste volume quatro textos que formam, no seu conjunto, uma ars poetica ferlinghettiana, escrita e acrescentada ao longo de diversas décadas. A Poesia como Arte Insurgente é um work-in-progress com várias décadas, a primeira versão de O Que é a Poesia? remonta à década de 1950, os dois manifestos populistas e o micro-ensaio A Poesia Moderna é Prosa surgiram na segunda metade da década de 1970.
Não é tão comum quanto seria de esperar que um poeta se dê ao trabalho de pensar a sua arte, manifestando publicamente o que julga poder servir de resposta às mais intrincadas questões que em todos os tempos se colocaram à poesia ou que no nosso tempo devem ser colocadas: «Consegues imaginar Shelley a participar numa oficina de poesia?» (p. 29). Ferlinghetti executa o exercício com um desassombro e uma clareza admiráveis, ora inventariando num furioso conjunto de aforismos reflexões sobre a utilidade e a natureza da poesia, assim como o papel do poeta na sua relação com o mundo, ora expondo num tom abertamente crítico uma leitura do seu tempo e dos obstáculos que este coloca à prática de uma forma de expressão que se quer absolutamente livre e insurgente. Inevitavelmente poético na concretização das suas reflexões, não deixa de ser igualmente objectivo: «Procura a Baleia Branca, mas não a arpões. Em vez disso, apanha-lhe o canto» (p. 31) ou «Escreve poemas breves com a voz dos pássaros» (p. 35). O acento não destoa quando o assunto é uma possível definição de poesia: «O que é a poesia? O vento agita as ervas, uiva nos desfiladeiros» (p. 49).
O que será então a poesia para Lawrence Ferlinghetti? A questão assim colocada delimita-nos o campo especulativo, obrigando a uma interpretação já mais concentrada na perspectiva do autor. Antes de mais, parece-me evidente em todos os textos coligidos neste volume uma forte convicção na poesia enquanto catarse, associada às emoções quer por via da libertação, quer enquanto ancoradouro de uma intimidade inalienável. Assim é porque «A poesia é o supremo refúgio íntimo» (p. 51) e «É o consolo dos solitários» (p. 57). Da mesma forma, vislumbramos nestes fragmentos uma crença no poder da poesia como motor da transformação do mundo, através da transformação das consciências, aliada à consciência de uma inutilidade que é assumida como a sua maior virtude. Não recusando a dimensão paradoxal de tais conjecturas, podemos compreendê-las na coerência de um discurso que tem sempre por fim uma ideia de poder e de vontade indestrinçáveis do conceito de liberdade, sendo, por isso mesmo, a resistência o lugar mais conveniente à poesia: «É a suprema Resistência». Numa leitura comparada com os fragmentos de Novalis tenderíamos a concluir, com assumida ironia, que de autêntico real absoluto a poesia evoluiu ao longo dos tempos para suprema resistência ao absolutismo do real.
Tanto os manifestos populistas como o ensaio que encerra o volume parecem aceitar tal evolução: «Escutem e estudem os mapas do tempo / Leiam o sânscrito das formigas sobre a areia» (p. 103). E isto traz-nos à curiosa tese desenvolvida por Ferlinghetti no texto A Poesia Moderna é Prosa. Datado de 1978, o texto conserva uma actualidade que não pode passar despercebida. A crítica aí exercida tem em vista uma prosa praticada sob a mancha gráfica de poesia, ou seja, uma poesia em que «o intelecto poético e o prosaico confundem-se, disfarçados com as roupas um do outro» (p. 109). Em linha com inúmeras discussões levadas a cabo ao longo das últimas décadas, a verdade aqui indisfarçável é a de uma aproximação de estilos que resulta no esgotamento das formas e na depauperização do poético. Subsumido no prosaico, o poético tende a perder a riqueza imagética e a força especulativa que outrora exibia. Podemos, quem sabe, concluir que face a um afastamento do filosófico, onde incluímos a intervenção cívica, a poesia tendeu a aproximar-se do prosaico, desembocando num niilismo estético esvaziado do poder transformador que indivíduos como os da Geração Beat julgavam ser o da poesia. Menos que resistência, ela será hoje o espelho de uma desistência. Daí a desolação que a matiza e martiriza. 

2 comentários:

Sandra Costa disse...

Gosto de o ler, Henrique. Gostei muito deste artigo.

hmbf disse...

Obrigado.