quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

UM POEMA DE AMOR POR JACQUES ROUBAUD


Diálogo

Nunca pensei num poema como sendo um monólogo saído algures da parte de trás da minha boca ou da minha mão

Um poema coloca-se sempre nas condições de um diálogo virtual

A hipótese de um encontro   a hipótese de uma resposta, a hipótese de alguém

Mesmo na página: a resposta sugerida pela linha, os deslocamentos, os formatos

Alguma coisa vai sair   do silêncio, da pontuação, do branco   subir até mim

Alguém vivo, nomeado:   um poema de amor

Mesmo quando a omissão, a indirecção, a colocação pronominal tornam possível esta translação: que um leitor esteja diante da página, diante da voz do poema, como no momento em que ele nasce

Ou da sua recepção: leitor leitor   ou   leitor autor

Este poema dirige-se a ti e não encontrará ninguém


Jacques Roubaud (n. 5 de Dezembro de 1932, Caluire-et-Cuire, França), in Alguma Coisa Negro, trad. José Mário Silva, Edições Tinta-da-china, Fevereiro de 2017, p. 207.

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