sexta-feira, 31 de março de 2017

CHEIO DE VIDA & FACTOTUM

Não é segredo para ninguém, até porque o próprio fez questão de registá-lo em diversas ocasiões, que John Fante (n. 1909 – m. 1983) foi a maior influência literária de Charles Bukowski (n. 1920 – m. 1994). Ambos filhos de emigrantes, praticaram uma escrita fortemente autobiográfica e coloquial. Mas se em Fante ainda vislumbramos um sentido poético da existência, em Bukowski essa poética dá lugar a um hiperbólico desencanto. O álcool era outra matéria que os aproximava, embora no autor de Post Office (1971) o alter-ego Henry Chinaski faça de Arturo Bandini um copinho de leite. Em Bandini conseguimos ainda encontrar um forte elo familiar, a manifestação de um respeito pelas origens que Chinaski renega por completo. O Bandini de John Fante é sonhador, tem uma postura autocrítica que não chega a ser autodestrutiva, coloca a actividade de escritor num horizonte atingível. O Chinaski de Bukowski é essencialmente autodestrutivo, tem também a escrita por horizonte mas pelo meio enfia-se num labirinto de álcool, putas e jogo do qual parece não haver saída. Ambos os autores têm vindo a ser profusamente publicados em língua portuguesa nos últimos anos. Mais recentemente, a Alfaguara vem-lhes prestando especial atenção.
Com tradução de Rita Canas Mendes, Cheio de Vida (Outubro de 2016) desvia-se da saga que tem Arturo Bandini como protagonista. A Primavera Há-de Chegar, Bandini (Ahab, 2010) surgiu originalmente em 1938. Seguiram-se Pergunta ao Pó (Ahab, 2009) em 1939, Sonhos de Bunker Hill (Alfaguara, 2014) em 1982 e Estrada para Los Angeles (Alfaguara, 2013) em 1985, apesar de ter sido este o primeiro a ser escrito em 1933. Cheio de Vida foi publicado em 1952 e, como disse, afasta-se do Quarteto Bandini assumindo uma clara componente autobiográfica. A personagem central é o próprio Fante: «Eu, autor, John Fante, escritor de três livros. O primeiro livro vendeu 2300 exemplares. O segundo livro vendeu 4800 exemplares. O terceiro livro vendeu 2100 exemplares» (p. 11). Fante refere-se a A Primavera Há-de Chegar, Bandini, Pergunta ao Pó e Dago Red, ainda inédito entre nós. Casado com Joyce, está prestes a ser pai pela primeira vez. Cheio de Vida é o relato dessa experiência, pulverizado pelas habituais hesitações do escritor, um retrato cru da instituição familiar, uma perspectiva ao mesmo tempo desapaixonada, mas algo romântica, da vida com Joyce. Entretanto, um reencontro com Nicola Fante, pai do escritor, permite identificar uma sequela geracional que é em si mesma a síntese da filosofia de vida que Fante tem para oferecer aos seus leitores:

   «Dez minutos depois, vi o menino. Estava nos braços de uma enfermeira que usava máscara. Não podia tocar nele, pois estavam atrás de uma janela de vidro. Ele estava contraído e feio como um gnomo mergulhado em gema de ovo. Com bigode, teria ficado igualzinho ao avô. Deu um guincho quando a enfermeira mo mostrou. Contei dez dedos nas mãos, dez dedos nos pés e um pénis. Um pai não pode pedir mais do que isso, sem dúvida. Anuí e a enfermeira tapou o seu corpinho horrível com cobertores e levou-o para outro sítio da complexa maquinaria do grande hospital» (p. 153).

Mais cruel no que respeita a reminiscências familiares, também Charles Bukowski relembra amiúde a relação que tinha com os pais. Factotum (Alfaguara, Março de 2017) não é excepção: «Lembrei-me de o meu pai chegar a casa todas as noites e pôr-se a falar do trabalho com a minha mãe. (…) Não havia outro assunto senão o trabalho» (p. 11). Ironia das ironias, não há outro assunto em Factotum a não ser as inúmeras ocupações que permitem a Henry Chinaski ir sobrevivendo nos tempos da II Grande Guerra. Publicado pela primeira vez em 1975, é o segundo romance de Bukowski. Os leitores portugueses têm agora acesso, na língua de Camões, a todos os romances escritos pelo maldito dos malditos norte-americanos. Chinaski salta de Nova Orleães para Los Angeles, passa por El Paso, vai a Nova Iorque, regressa a Los Angeles, anda por Filadélfia, St. Louis, Miami, emprega-se a distribuir revistas, num armazém de peças sobressalentes, na publicidade, numa fábrica de biscoitos de cão, como funcionário de expedição numa loja de roupa feminina, num armazém de bicicletas, num outro de peças para carros, numa loja de roupa, numa empresa de luminárias fluorescentes… De cidade em cidade, aguenta-se tão pouco nos inúmeros ofícios que vai fingindo que desempenha como com as inúmeras mulheres com que se vai cruzando. A história de sobrevivência deste assumido falhado é a de alguém sem outra ambição que não seja a de manter-se vivo, podendo explicar-se com impressionante capacidade de síntese:

   Tocou o telefone. Tocou várias vezes até que eu conseguisse levantar-me a custo da cama para ir atender.
   — Senhor Chinaski?
   — Sim?
   — Fala do Times Building.
   — Sim?
   — Estivemos a analisar a sua candidatura e gostaríamos de o contratar.
   — Como jornalista?
   — Não, como funcionário de manutenção e empregado de limpeza.


Pelo meio, Chinaski vai escrevendo contos que envia para revistas sem esperança de vir a ser publicado, ouve Mahler, Beethoven, Brahms, Debussy, estoura o pouco que ganha no álcool e nas corridas de cavalos. A sua história não é apenas a de um desafortunado, é a de alguém profundamente des-iludido com a sociedade em que vive, incapaz de se inserir nesse mesmo contexto social, é a de alguém que não vê sentido algum numa vida desperdiçada naquilo em que a maioria de nós investe a sua vida: família, emprego. Neste sentido, Henry Chinaski podia ser uma antítese de Arturo Bandini, apesar das pontes que os aproximam e do sentido de humor com que encaram a adversidade. «As pessoas deprimiam-me», confessa Chinaski logo a abrir a sua narrativa. O mesmo poderíamos ouvir a Bandini, mas em ambos parece existir uma noção da irrelevância que esta afirmação tem. Porque ambos sabem que são pessoas, ambos reconhecem-se como tal e como tal ambos se deprimem de si próprios. John Fante e Charles Bukowski foram escritores que souberam não se levar demasiado a sério, riram-se de si próprios tornando-nos a vida, a nós que somos seus leitores, menos onerosa. São uma fonte de inspiração inesgotável, mesmo não sendo exemplares. 

2 comentários:

MCS disse...

"foram escritores que souberam não se levar demasiado a sério, riram-se de si próprios tornando-nos a vida, a nós que somos seus leitores, menos onerosa."

Vim aqui só para sublinhar isto a ferro.

hmbf disse...

Saúde,