quinta-feira, 27 de abril de 2017

HYBRIS

Publicada em 2015, a mais recente reunião da poesia de Jorge Melícias (n. 1970) surge com uma advertência na badana de capa: «Os seis livros adunados na presente recolha (…) constituem aquilo que o autor considera relevante fixar como o seu corpus poético». São, como se refere, seis brevíssimos conjuntos (nunca excedendo a vintena de poemas), organizados entre 2004 e 2015. Manifesta se torna a obsessão do autor por uma arrumação que impõe ao conjunto da obra cisões, cortes, rasuras, num exercício poético que podemos caracterizar de rigoroso. Por detrás de tal labor residirá uma intenção que cabe ao leitor senão descortinar, pelo menos ajudar a construir através do seu subjectivo esforço hermenêutico. 
Os seis conjuntos reunidos sob o título hybris, organizados do mais recente para o mais antigo, são blocos de um só edifício, podendo entre eles ser perceptível uma narrativa que coloca os mecanismos da fé no centro de uma atormentada reflexão no interior do sujeito poético. No entanto, nenhuma poesia entre nós procura mais a antítese de certa narratividade poética do que esta. Os próprios poemas de Jorge Melícias reivindicam para si um carácter fragmentário, aproximando-se do detalhe que não esgota o conjunto. Lidos isoladamente traem a panorâmica geral, deixando num vago vazio toda e qualquer hipótese de sentido. 
Importa sublinhar, na esteira do que fez Ruy Ventura na minuciosa leitura final que acompanha esta edição, que «Jorge Melícias edificou uma estrutura textual de que nunca poderemos aproximar-nos se não formos capazes de abandonar a acédia, o langor e a abulia que nos levam à rejeição, contumaz, de tudo quanto se nos afigura incomum, perturbador ou secreto» (p. 144). Ora, esta estrutura textual de que fala Ruy Ventura começa por ser dissuasiva na regra de leitura que impõe. Despreocupada do ritmo, completamente desinteressada do sentido literal do discurso, o tom anticoloquial adoptado é um teste à resistência do iniciado. Concordamos que seja incomum e que induza certo secretismo, mas não chega a perturbar. 
Antes de mais, há todo um complexo lexical nesta poesia directamente proveniente da tradição judaico-cristã: culpa, blasfémia, fé, fiúza, piedade/impiedade, indulto, graça, oblação, penitência, apostasia, abjuração, liturgia, contrição, orago, anjos, redenção, compaixão, profanar, beatitude, enfim deus. Sucede que o sujeito poético se coloca no lugar atormentado da hybris, ou seja, num lugar de desafio à divindade, nesse lugar de provocação à ordem estabelecida que se traduz no comportamento criminoso que o último verso do livro tão bem remata: «Chega-se ao crime pelo exercício da evidência» (p. 140). Por exercício da evidência podemos talvez entender os desígnios da razão, ligados a um corpo animal que nos separa da ideia de deus e exerce o seu crime desde a concepção à ânsia de conhecer. 
O desejo de conhecimento, mormente quando assoberbado por uma vontade de alcançar a verdade divina, é o maior dos crimes cometido pelo sujeito poético, na medida em que este não só aceita para a palavra poética, como reivindica na sua assumida arrogância, uma manifestação de verdade. O sujeito encarna, deste modo, o papel do escravo que intenta libertar-se do senhor, comercializando o próprio corpo num violento processo de abjuração: «A minha devoção / exige um corpo para profanar. // Que a mesma cobardia / com que apostemo a inocência / seja no meu dorso / pasto para deus» (p. 73, do livro felonia, isto é, rebelião do vassalo para com o seu senhor). 
Não deixa de ser curioso que esta rebelião se faça acompanhar de um código tantas vezes próximo da linguagem comercial — «barganha da penúria» (p. 13), «ágio da hipocrisia» (p. 33), «veniaga da súplica» (p. 36) —, naquilo que parece constituir uma crítica aos negócios da fé que o fragmento da página 44 tão bem exprime: «Tudo se resume à mercancia / do dolo, / ao desvelo / que se concede à onzena / e à simonia. // O denodo / da mentira foi comutado / pela solércia / mais rés. // E deus tornou-se uma evasiva / a quem falta a força / da mendacidade» (p. 44, do livro profligação). Repare-se como a clareza dos três versos da estrofe final (sublinhado meu) dispensavam a linguagem excessivamente enfatuada das estrofes precedentes. 
Num outro poema, do conjunto intitulado felonia, a mesma questão é retomada: «É um comércio vesânico, / mas quando a redenção não se regateia / a usura não atalha. // Nada sei dos mercados / em que se cambiam oblações / por oragos. // Basto-me do que sou: uma fé / onde nidificam as deletérias flores / da abjuração» (p. 72). Da incubação à fome, atravessando a blasfémia e a derrocada, parece estar implícito no sujeito que assim se exprime um violento processo de libertação, o qual acaba por ser a expressão de um desassossego ontológico especialmente tocado pelas questões da teologia. Corpo e espírito são ainda nesta poesia dimensões de uma dinâmica conflituosa interior, a de uma consciência do horror predominante no mundo dos homens. 
Por detrás desta prática reflexiva vislumbramos uma mente de tipo escolástico que, confessemos, não nos perturba propriamente. Há muito assumimos dentro de nós a morte do Senhor, daí que estejamos mais empenhados na denúncia dos escravos que não são senão vítimas de si próprios. hybris [poesia reunida] (Cosmorama, 2015) é, não obstante, um objecto singular no contexto da poesia portuguesa contemporânea. Afastando-se da narratividade em voga, não deixa, porém, de ser confessional na sua reflexibilidade. Ainda que não nos toque especialmente, quer pelos temas aprofundados, quer pela linguagem praticada, seria incorrecto não reconhecer tal singularidade. Bela capa. 

6 comentários:

Anónimo disse...

Há com cada maluco. Maluquice poética. E há quem perca o tempo com isto...

Jorge Melícias disse...

Henrique, hesitei antes de escrever este comentário porque não quero entrar em qualquer tipo de polémica: a tua leitura é a tua leitura e só a ti vincula. A mim cabe estar grato perante o teu esforço (e "esforço" aqui parece-me o termo correcto :)), mas não podia deixar passar esta imprecisão em claro. Até porque creio ser uma imprecisão que muda o sentido todo do verso.

"E deus tornou-se uma evasiva / a quem falta a força / da mendicidade."

Se cotejares com o original verás que não se trata de "mendicidade" (estado ou qualidade de mendigo; acto de mendigar) mas de "mendacidade" (qualidade de mendaz, falsidade). Para mim não faz muito sentido a utilização neste contexto do termo "mendicidade" mas sim de "mendacidade", i.e. deus tornou-se uma desculpa a quem falta até a força da mentira. Se atenderes aos versos logo acima ("O denodo / da mentira foi comutado / pela solércia / mais rés. //) julgo que se te tornará mais perceptível o porquê de ter usado "mendacidade". O ímpeto, o valor, com que os homens um dia poderão ter defendido a mentira (que era então para eles uma verdade inquestionável, em todas as suas formas e expressões), a tal "mercancia do dolo", a tal "onzena", a tal "simonia", foi comutada pela velhacaria mais rasa, pelo oportunismo mais chão.

Estranhei que considerasses esses os 3 versos mais claros de todo o poema, porquanto me parecem os de mais difícil interpretação, precisamente porque poderão ter que pressupor um deslocamento ontológico.
De resto "mercancia do dolo" é "mercancia do dolo", "onzena" é "onzena" e "simonia" é "simonia". Não me parecem que sejam termos "enfatuados" mas apenas o que são, palavras precisas que apontam para conceitos precisos, sobretudo para quem como eu acredita que a poesia não é o campo da paráfrase.

O meu obrigado.

Marina Tadeu disse...

Embora esta poesia me faça sentir reduzida a um insecto, admiro-lhe a coragem. Só através dos extractos seleccionados aprendi cinco palavras que desconhecia e que hei-de esquecer pela força do seu desuso - um esquecimento que, talvez adequadamente, ao menos fica a matar.

hmbf disse...

É gralha, vou corrigir. As minhas desculpas.

Anónimo disse...

Grande Marina Tadeu. Na mouche.

Jorge Melícias disse...

Sim, terá sido isso. Obrigado pela atenção.