sexta-feira, 30 de junho de 2017

O PEIDO

   Calhou a certo músico conhecido encerrar um espectáculo de beneficência. Contra todas as expectativas, começou por interpretar uma belíssima canção de Joni Mitchell, sendo recebido com relativa indiferença, passando depois para o tema que toda a gente esperava. Os aplausos foram estrondosos. A meio do tema, o conhecido músico imitou com a voz o som de um trompete. A plateia delirou. Perante o delírio, o intérprete ensaiou uma piada afirmando que sentia que podia fazer qualquer coisa e as pessoas aplaudiriam. Ia experimentar dar um peido. Continuou o seu número com a canção que todos queriam. Mas o burburinho fez-se sentir na sala, antecipando o que era previsível.
   Vivemos numa sociedade cada vez mais previsível, pelo que é bom ter tipos que façam piadas imprevisíveis em contextos inconvenientes. Esta imprevisibilidade, esta improvisação, vai contra os tempos de condenações em massa, tempos à sua maneira pudicos por fora, boçais por dentro. Uma sociedade que se inquieta tanto com uma simples piada inofensiva pode esperar o quê de si mesma? E tendo-se ofendido, ofendeu-se com o quê? Será que a piada não era assim tão inofensiva?
   Outro não assunto recente tem como protagonista certo jovem jogador da selecção nacional de futebol, o qual apareceu nas redes sociais a exibir um monte de notas. Provavelmente de origens humildes, estrelou recentemente numa das mais caras transferências de sempre envolvendo desportistas portugueses. De um dia para o outro apanhou-se cheio de notas e resolveu exibi-las publicamente, formando um leque sobre o rosto para logo aparecer com um sorriso enorme estampado na cara. Brincava com as notas como uma criança brinca com o brinquedo favorito. Gesto infantil, palerma, pacóvio, mas altamente previsível, vindo de uma personalidade de quem só desprevenidamente poderíamos esperar comportamentos exemplares. Ele é o que é.
   O jovem músico e o jovem jogador de futebol são a tese e a antítese de uma síntese a que chamamos sociedade portuguesa, a qual reagirá sempre pior ao improviso e à imprevisibilidade desafiadora de um artista do que ao exibicionismo de um jogador da bola. Desde logo, porque são mais os pacóvios do que os provocadores nesta nossa querida pátria. Assim sendo, para o jogador da bola haverá sempre a complacência dos desejos materiais. O seu comportamento não pôs em causa nenhum valor, não beliscou sequer a humildade que os portugueses tanto prezam sem que percebam bem o que é. Aquele monte de notas é o símbolo de uma fachada, a mentira por detrás da qual se esconde o rosto. Ninguém vê mal na exibição da mentira, sobretudo deste tipo de mentiras que têm por base o dinheiro, o exibicionismo material, a fortuna.
   Mas o artista pôs algo em causa, inquietou as massas. O valor que ele pôs em causa ao desafiar o seu público foi o valor da autenticidade. Ele soltou num comentário, como quem solta um traque, aquilo que lhe ia na alma. Em suma, foi autêntico, foi verdadeiro. Não sei se alguém reparou, mas o jovem artista não se limitou a ameaçar ou a sugerir. Ele saltou mesmo o peido ao dizer o que disse. Ora, numa sociedade de mentira poucos são os que toleram a verdade de um peido. Mesmo quando envolto na melodia de uma balada em espectáculo de beneficência. Agora imaginem se as notas do jogador da bola fossem para apoiar as vítimas dos incêndios. 

18 comentários:

RFF disse...

Ouvi dizer. Parece-me bem e bate certo. Na mesma medida que somos excepcionais a organizar eventos de solidariedade, somos igualmente irrepreensíveis na sublime arte suprema de fazer merda...
Agora esse rapaz - a continuar assim - já não tira uma selfie com o Nosso Presidente Marcelo.

hmbf disse...

Ainda bem para ele.

Jorge Muchagato disse...

No meu entender, a questão do peido foi apenas uma, e paradoxalmente, nem foi propriamente o peido, e ninguém a refere, o que também é significativo: um cantor tem a obrigação de respeitar o público que o "faz", quer esteja a cantar em cima de uma grade de cervejas para meia-dúzia de pessoas, duas delas a assar sardinhas, quer esteja a cantar no Centro Cultural de Belém para vários milhares de pessoas bem vestidas. Para aquilo que o cantor - que não aprecio, nem o que canta nem como canta, nem a voz - queria significar não precisava da metáfora do peido. Toda a gente sabe o que é um peido e a sua urgência; o que poucos artistas sabem é o que e o respeito pelo público que lhe põe o pão na mesa. Mais uma vez, e como é recorrente neste pobre País, uma polémica de merda.

hmbf disse...

Uma polémica de merda, de acordo.

Quanto à obrigação de respeitar o público, discordo. Desde logo porque a obrigação de um cantor não é senão cantar (bem, de preferência). Também não acho que o artista em causa tenha faltado ao respeito ao público, como não achei, em tempos, que o João César Monteiro tenha faltado ao respeito ao seu público afirmando que queria que o público português se fodesse.

Pessoalmente, senti-me mais ofendido nesse espectáculo com o dueto desastroso que juntou o Jorge Palma e o Sérgio Godinho. Mas essa é outra história.

RFF disse...

Portugal-Junho de 2017, uma trágica comédia tornada Realidade..

Ivo disse...

Ponto fulcral: "foi autêntico, foi verdadeiro." O que incomoda muita gente, que na situação dele seria incapaz de o fazer, preferiria usar a máscara. Mas, temos pena, ele não a sabe usar. Não senti uma ínfima falta de respeito.
Infelizmente, segundo o que ouvi ontem cá por casa pediu desculpa, o que é lamentável. Que com mais 5, 10 anos de carreira o mesmo nomeado Salvador Sobral já outra pessoa evitasse a metáfora, é o mais certo. Pedir a um miúdo que não seja autêntico... Puta que pariu.
Não sei se proferiu algum comentário, mas gostava de saber o que terá a dizer Herman José sobre o sucedido. O que seria um bom barómetro.

hmbf disse...

Sim, ter pedido desculpa foi uma parvoíce.

Jorge Muchagato disse...

... de facto, chega sempre o momento em que o verniz estala ou se verifica que é de má qualidade... Uma pessoa que saiba, de facto, o que é o ouro, nunca será enganada pelo latão mais bem polido.

Jorge Muchagato disse...

«foi autêntico, foi verdadeiro»... que bonito e comovente, capaz de fazer chorar as pedras da calçada... Oh Ivo, o homem não é um «miúdo», tem 27 anos e concorreu ao Festival da Eurovisão...

Jorge Muchagato disse...

... "carreiras" neste cochicho? Só se forem as da Carris... Contentem-se com um papel de figurante na opereta da realidade...

Ivo disse...

Jorge, nem é bonito nem comovente, para mim é um facto. Foi contra o normal, o habitual, o standard? Foi, claramente. À maioria terá chocado, à minoria fez rir. Ai que era solidariedade. E então? Dá-me ideia que a Joni Mitchel nem constava do programa. Alguém falou nisso?
Pois concorreu, e ganhou, o que se lhe tornou um handicap. É o senhor do Amar pelos dois, e agora onde quer que vá vai ter que levar com isso. Entretanto tem um projecto rock com o Júlio Resende, será que alguém vai ligar? Duvido.
É um miúdo é, não é um "miúdo" não, basta ver entrevistas/reportagens com ele e o evento do peido torna-se perfeitamente natural. Só quem o vê tão só como o vencedor da Eurovisão é que estranha e se indigna.

Ivo disse...

A propósito, opinião de João Miguel Tavares no Público de ontem, 1 Julho 2017.
https://www.publico.pt/2017/07/01/sociedade/noticia/o-peido-de-salvador-sobral-1777516

Claudia Sousa Dias disse...

Pena só ler este texto agora...

elisabete reis disse...

Concordo com o primeiro parágrafo e fiquei curiosa com a história do segundo... porque gosto dos dois, mas sempre me fez confusão ouvir um a cantar a música do outro...

elisabete reis disse...

Mas também não foi propriamente ele...

elisabete reis disse...

Ele não concorreu a nada.

elisabete reis disse...

Ele não concorreu ao festival.

elisabete reis disse...

Daquele espectáculo o que ficou na minha memória foi a fantástica interpretação do tema da Joni Mitchell que reconheci ao primeiro acorde e não me canso de ouvir...