quinta-feira, 5 de outubro de 2017

GAME OVER

Aquando da primeira edição de Game Over (&etc, Maio de 2002), Manuel de Freitas (n. 1972) tinha já publicado alguns livros cuja recepção crítica confirmou a sua poesia como das mais relevantes de uma nova geração de poetas surgidos na viragem do século XX para este novo, mas algo repetitivo, século XXI. O texto de Joaquim Manuel Magalhães, originalmente publicado no jornal Público em Agosto de 2002, agora incluído nesta segunda edição de Game Over (Alambique, Março de 2017), dá conta do entusiasmo: «O mundo da literatura, ou o da poesia simplesmente, é habitado por seres que já nem sequer sabem onde têm a caneta, quanto mais a cabeça. Só sabem a melhor maneira para arranjar dinheiro literário. Por mim, posso garantir que admiro Manuel de Freitas pela segurança da sua obra, pela sua intensidade, ainda tão recente» (p. 111). Vinda de onde veio, a admiração não admirava. A poesia de Manuel de Freitas respondia de formas natural e positiva a todo um conjunto de críticas dirigidas à contemporaneidade que Magalhães foi elaborando em textos contundentes, acusando, nomeadamente, a esterilidade dos diversos hermetismos que pendurando-se em obras precariamente entendidas, como, por exemplo, a de Herberto, foram produzindo uma poesia fechada sobre si mesma, indiferente ao leitor, tantas vezes ilegível, outras tantas simplesmente exibidora de um contorcionismo verbal redutor e resistente ao sentido.  
   A poesia de Manuel de Freitas situava-se e situa-se nos antípodas desses contorcionismos, optando por um registo quotidiano por vezes erroneamente confundido com mero confessionalismo. Contra mim falo. A releitura de um livro como Game Over ajuda-nos a compreender nesta poesia elementos que a tornam muito mais forte do que ela seria caso se subsumisse num mero inventário prosódico das amarguras quotidianas. Foquemo-nos no corpo, assim mesmo, isolado, como no primeiro verso deste livro. Foquemo-nos no corpo e nas suas rugosidades, no corpo que ama, no corpo enquanto lugar de paixões, o corpo que caminha junto a outros corpos, o corpo que frequenta a rua, corpo próximo por onde perpassam fenómenos, o corpo que experiencia, o corpo aberto ao mundo através da experiência sensível, o corpo existencial, aquele que experimenta a finitude no confronto com a morte e com a ruína, o corpo cativo do tempo, da experiência do tempo. Os poemas de Game Over são corpos dotados de uma materialidade que liga as palavras à terra, que resgata o poeta do palco nefelibata e o recoloca na rua. Ao contrário do que se diz/disse, não enjeitam a metáfora nem sequer a evitam: «estrume dos conceitos» (p. 14), «infância triste do mundo» (p. 29), «uma pulga dadaísta / salta-me às vezes para as costas» (p. 37)… Simplesmente a usam com a parcimónia de quem reconhece no poema uma capacidade comunicacional ferida de morte quando os poemas acabam reduzidos às cinzas da pura abstracção lírica. 
   Parafraseando Joaquim Manuel Magalhães, «Manuel de Freitas é um poeta do contemporâneo político» (p. 114). Assim é por vislumbrarmos na sua poesia uma paisagem humana e urbana na qual identificamos um tom crítico, por vezes áspero, relativo à modernidade. De aparentes minudências quotidianas, ele dá forma a observações ora violentas, ora irónicas, acerca do estado do mundo. E sendo o tempo ou a morte os seus grandes temas, não deixa de ser sintomático que desse estado do mundo se conclua uma entediante repetibilidade: «Nos cafés também «espero a vida / que nunca vem ter comigo», / a putéfia. Nada mudou. Nada, / Mário. Só que nos «cafés», agora, / pedem-se empréstimos para comprar / carro e casa ou manuseiam-se discos / por sinal merdosos, propícios / a uma época que voa ao rés da Bolsa. / A vida, claro, continua sem aparecer por aqui. // Mas lepidópteros ainda há, uivando de alegria alegre – e restos / de nada nas coisas, a chamarem-nos de tão longe / para a proximidade do fim. // Era só para te dizer isto» (p. 43). A missiva tem destinatário, neste caso um poeta português como muitos outros a quem os poemas de Game Over vão aludindo. 
   Mas importa aqui, antes de mais, desfazer um preconceito relativo à poesia de Manuel de Freitas, como à de outros poetas portugueses que se foram situando, digamos assim, num mesmo campo discursivo. Refere-se esse preconceito à relação desta poesia com um putativo real, de resto bem desmontado num parêntesis do poema Arte Poética I: «(De resto, será o «real» / assim tão real?)» (p. 15) A pergunta não é meramente retórica, já que introduz no seio do poema uma dúvida acerca do princípio pelo qual aparentemente o próprio poema se rege. O real nunca foi nestes poemas uma reivindicação política, muito menos estética, de tipo naturalista, pelo menos não tanto quanto se afirma pela subjectividade daquele que observa. O real não se esgota no corpo, mas tudo quanto dele logramos alcançar passa inevitavelmente pelo corpo. Assim sendo, o corpo impõe as fronteiras subjectivas de captação e assimilação do real. Não o esgota, pois não há um corpo único. Há uma multidão de corpos através dos quais o real se manifesta. E a marca fundamental do real parece ser, assim se nos impõe, a própria finitude do corpo, a percepção da ruína e da morte para que tudo tende. 
   Depois do fim, título do primeiro conjunto deste livro, sobrarão poemas enquanto inscrições de uma passagem pelo mundo salvaguardada pela música, mais do que pela própria poesia, e pelo amor. É relevante a alteração da epígrafe inicial da primeira para a segunda edição deste livro. Também o amor, sobretudo presente no conjunto intitulado O Rumor das Saias de Inês, parece surgir de uma impossibilidade: «Um dia vamos saber que nada disto / aconteceu. Forma corpos, / apenas, numa cidade agonizante / que apagou passos nunca dados» (p. 97). Ou, de um modo mais dilacerante, um verso de All You Need Is Love I: «O amor? Não me fodam. / Apenas um filme sem enredo / que já vimos demasiadas vezes / e que vai continuar a acabar mal // - como a puta da vida, aliás» (p. 99). Não se trata, pois, da confusão de um amor fusão, isto é, de um amor em que dois corpos possam supostamente fundir-se um no outro. O «amor sem trela» protagonizado nos versos de Manuel de Freitas não sujeita o corpo a um esvaziamento da sua individualidade, é também ele motivo de desconfiança. Ao contrário do que geralmente sucede na lírica amorosa tradicional, em que o amor enleva e eleva os amantes num êxtase desmesurado, lírica essa paradoxalmente evocada desde logo na erótica epígrafe camoniana, o amor não surge nestes poemas separado do mundo, não coloca os amantes um palmo sequer acima da terra, não os protege nem os endeusa, antes os ameaça enquanto lugar de incerteza, ameaçado também ele pela morte, pela efemeridade, pela finitude, pelas coisas do mundo. 
   A poesia de Manuel de Freitas é, neste sentido, um permanente desafio às construções herdadas de uma tradição que coloca o poeta acima do mundo. Nestes poemas, o poeta é aquele que entre os demais nos confronta com o mundo. Se isso é muito ou pouco para um poeta, não sei. Também não me cabe determinar a lucidez do diagnóstico. Posso apenas revelar que, ao lê-lo, me questiono. Esta é uma poesia que interpela o leitor, o que é mais do que tantas vezes acontece: «O futuro é dos outros, como tudo, e seria lastimoso / que viessem dar contigo numa antologia chata, / dessas de encomenda e tudo. O que disseste / foi para ser dito, não para ser lembrado. E a eternidade / tem nomes que cheguem para várias gerações / que talvez achem, com a razão lá delas, uma perda / de tempo os versos e a literatura uma coisa vil / como comer carne ou sexo. A posteridade / foi talvez a única puta com quem não desejaste estar, / até porque já cá não estarás então – e a lógica, / para estas coisas, ainda vai servindo, reduzas / ou não ao absurdo os gestos com que foste pó movível» (pp. 54-55).

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