sexta-feira, 3 de novembro de 2017

QUASE INVERNO OUTRA VEZ


Era quase inverno outra vez,
eu escrevia pequenas frases, sobre nada

pois nada havia que se pudesse dizer:

tudo te faria lembrar a vida ou a morte
— e era sempre a mesma pouca delicadeza

escrevia-te
pequenos bilhetes sem poder dizer
não te vejo mais, não te vejo nunca mais,
tu respondias sem nunca dizeres
já não importa

Nada que se pudesse dizer:
escrevia como se fosse possível,
respondias como se não fosse nada

Dizias — quando estivermos juntos outra vez,
e eu lia — nunca mais, não te vejo nunca mais

pequenas frases, feitas de nada

tudo parecia demasiado vivo
para não lembrar que a morte
ia apagando do mundo
tudo quanto se pudesse dizer

escrevia,
e em frente da janela
as árvores perdiam folhas de vidro,
de um vermelho nítido, definitivo

escrevia — não te vejo nunca mais, e
traduzia tudo em palavras inofensivas, banais
— nada que se pudesse dizer 

depois a morte levava as cartas


Rosa Maria Martelo (n. 1957), in Matéria (2014). «A poesia de Rosa Maria Martelo é abstracta, culta, algo irónica; há um sujeito poético que se dissolve num “nós”, que interpela um “tu” ou se transmuta no objecto. O universo antes e depois desse sujeito é irremediável e irreparavelmente disparatado, desunido. O eu retrai-se, recua, desinveste, elegantemente. Delicadeza, elegância, aparente leveza e voo constituem o húmus desta poesia que se depura, passo a passo, até ao osso, até à morte, essa presença antecipada. E não cessa de repetir o mesmo, a não-identidade perene de nenhuma impressão do mundo, nos múltiplos traços da sua diferença, desordem e impossível unidade» (Maria Conceição Caleiro, Público). «Tal como Adorno mostra com a noção de dialéctica negativa, ou Derrida com o conceito de différance, aquilo que está em causa é a impossibilidade de totalizar no discurso ou no mundo qualquer movimento da história ou do conhecimento: a relação com a língua e com o mundo é constitutivamente da ordem do desfasamento. É esta consciência do desfasamento como matriz da língua que encontramos em Rosa Maria Martelo. Não há na língua promessa de revelação, antes a consciência da penetração do dentro pelo fora, e do fora pelo dentro. Do mundo pela língua e da língua pelo mundo. Este é um movimento de reenvio e de subtracção da língua a si mesma, da razão à sensibilidade e da sensibilidade à razão» (H. G. Cancela, Contra Mundum).

2 comentários:

manuel a. domingos disse...

Gosto muito da poesia dela.

Ângela Marques disse...

É um grande nome da poesia contemporânea.