domingo, 25 de fevereiro de 2018

FOLHETIM DOS FOLHETOS


   Há tempos, em crónica intitulada, ao melhor jeito presencista, Ah, a poesia!, queixava-se António Guerreiro no Público da «proliferação imoderada e imprudente de pequeníssimos livros ou plaquettes, que os devotos do círculo de onde eles nascem querem que circulem como relíquias, mas que o leitor, habitando um mundo profano e sem espírito de coleccionador ou de caçador, gostaria que fossem mais nutridos, mais volumosos, e sobretudo que não fosse tão evidente uma perigosa inclinação para a autocomplacência editorial, que arrasta outras complacências». Matando dois ou três ou quatro coelhos de uma cajadada, eis o cronista no lugar do leitor, do crítico e do conselheiro editorial. Pelo menos. Mais recentemente, Diogo Vaz Pinto, para quem palavra de Guerreiro é homilia papal, veio também ele, num estilo mais flatulento, queixar-se das ditas plaquettes. Arroto particularmente malcheiroso, por servir para enaltecer em particular uma obra que não necessitaria de ver reduzidas as demais a “dejectos”. Portanto, DVP quis dizer bem de uma plaquette, mas moeu-se-lhe a consciência. Não conseguiria fazê-lo sem respeitar os ditames da Santa Madre Igreja, isto é, oferecendo à crónica um largo preâmbulo sobre “o lado negativo” das ditas. Viu-se a crítica do “caderninho” reduzida a dúzia de linhas facilmente resumíveis: “Em tão poucas páginas, com recursos aparentemente tão escassos, há, na verdade, de tudo”. De facto, há de tudo.
   Chamemos-lhes plaquetas, folhetos ou cadernos, os livros de pequena espessura sempre conviveram de perto com a edição de poesia. Sempre… e não só com a edição de poesia. Recordemos os menos atentos, ou os mal-intencionados, da relevância de duas colecções nesse formato constantes no muito estimável catálogo da editora & etc: a colecção “subterrâneo três” e a colecção “contramargem”. Não por acaso podemos recordar a tradução de Aníbal Fernandes para a “Proposta Modesta” (& etc, colecção contramargem, n.º 6, Agosto de 1980), de Jonathan Swift (n. 1667 – m. 1745), opúsculo vindo a lume em 1729, elevado pelo tempo à condição de obra-prima da sátira política e da escrita humorística em geral. Nesse texto breve, mas supomos que intenso e nutrido, impera a urgência da denúncia. O tema é a miséria disseminada pela Irlanda, ilustrada pelo espectáculo de mendigos nas ruas de Dublin. Para acabar com a miséria, Swift arquitecta um plano económico que antecipa, em grande parte, as visões estritamente economicistas e, por consequência, desumanas da realidade. Consistiria o plano em aproveitar parte considerável das crianças produzidas na nação, note-se, para alimentar famintos e vulgares comensais. As vantagens seriam inúmeras: baixar o número de papistas, oferecer aos agricultores uma alternativa económica, proporcionar ganhos ao Estado, rendimentos às reprodutoras, renovar as cartas dos restaurantes, reforçar os atractivos do casamento, diminuir o consumo de carne de vaca… Não sabemos se Swift cabe na designação de “pombo”, nem se o texto incluído por Breton na sua “Antologia do Humor Negro” merece o epíteto de “dejecto”. Cremos que enquanto opúsculo do séc. XVIII mantém, ao séc. XXI, uma estimulante cultura subversiva que casa lindamente com o formato em causa. E oferece uma ideia de base, mais vale curto e inteligente que extenso e verborreico.
   Modelos de solidez criativa são igualmente os folhetos publicados por Fernando Guerreiro (n. 1950) durante a década de 1980 (e que bom seria vê-los reunidos num só volume). Regressemos a “Amor Fati” (Edição do autor, Janeiro de 1982), onde os derradeiros anos de Friedrich Nietzsche (n. 1844 – m. 1900) são acompanhados através de uma incursão biográfica e bibliográfica na demanda de relações entre vida e obra. O pretexto é a deriva do filósofo alemão por terras italianas, à procura de um sol que a sul pudesse “vencer a sedução do suicídio”. O título recupera uma fórmula cara à filosofia nietzschiana, designação de espécie de fatalidade que aceita no mundo uma ordem natural, selectiva, desbravando terreno para a revelação do mais forte, do mais terrível, do mais trágico. Nietzsche, já doente, tece um elogio épico do nada, fechado num quarto cujas paredes confinam o território da Natureza. Desta, sobram bocados de comida que sugerem receitas às quais corresponde a química dos elementos no processo transformador da matéria. O corpo, a carne, tende para um nada que é tudo. Guerreiro cita correspondência, aforismos, divaga pelo laboratório culinário: «Uma doação em que a própria vontade é a da massa. Será que se a comerem, compreendem? A matéria antes rígida, sólida, pétrea amolga-se agora e melhor à língua se adapta». Conto? Poema? Ensaio? Texto. E nele, porventura, tanto a relação do motivo com o seu mundo como a daquele que investiga com o objecto de investigação. No fundo, é de assimilar ideias, conteúdos, palavras, imagens, sons, cheiros, que a vida se faz e transforma até ser pólen. As 18 páginas da publicação não determinam a densidade do texto, acerca do qual muito haveria a dizer. Lembre-se, por ora, que o desenho de capa é do saudoso Paulo Varela Gomes. Peça de colecção para habitantes de um mundo profano.
   Questionamo-nos, portanto, sobre quem possam ser os “pombos” que andam a conspurcar a praça da poesia portuguesa e sua respectiva estatuária? Talvez o leitor esteja iludido, talvez o jornaleiro do Sol pretenda projectar sobre outrem suas próprias culpas, talvez esteja num momento de contrição expiando-se de práticas por si levadas a cabo enquanto editor. Pois nessa qualidade reconhecemos-lhe a responsabilidade de ter dado ao mundo muita “dita plaquette, como hoje lhe chamamos, a fazer biquinho à francês”. Algumas valendo aos respectivos autores publicidade que dificilmente se justificaria, outras, menos publicitadas, assaz apreciáveis. Contentemo-nos com esta: “fôlego sem folga” (Língua Morta, Maio de 2012), de Miguel Martins (n. 1969). Escrita de jorro, como o título indica, a prosa de Miguel Martins coloca em cena um homem no reduto doméstico. Escreve pela noite dentro enquanto a mulher dorme. Monólogo impetuoso, embora vigilante, o texto dramatiza a figura do escritor entregue à solidão, fazendo da sua arte missiva com destinatário incerto: «descansem: enquanto for vivo não me suicidarei nem que me mate. não nasci para isso, não tenho jeito para aqueles cinco segundos em que essas coisas acontecem» (p. 12). “Co-responsável” na edição, DVP não enjeitou a facilidade de uma edição menos dispendiosa cedendo à pululante urgência do poeta. Terá sido assim? O texto foi publicado, ainda bem. O leitor agradece. É deste tempo e não de outro, continua a fazer o mesmo sentido que faria no passado por haver nestes actos de escrita e publicação uma força que vem exclusivamente da vontade de fazer. Sem calculismo literário, sem presunções mediáticas, o campo é o da espontaneidade, do fazer. Aqui ninguém se preocupa com perigosas inclinações para a autocomplacência editorial, faz tudo parte de um jogo de imprudências que, afinal, está na raiz do impulso poético.
   Não se referindo a si próprio, a quem se referirá DVP quando acusa o “ambiente de praça fétida em que o que há mais são pombos lerdos e os seus dejectos, as plaquettes” (sic)? É difícil percebê-lo sem entrarmos no universo da columbofilia. Aí compreenderíamos que à espécie de “pombo lerdo” corresponde um voo sem correio específico, sem carta nem agenda, imprudente, sim, sobretudo imprudente, bem distinto do voo de outros pombos armados ao furioso, cheios de cálculos e de teoremas na cabeça. Já que falámos em Miguel Martins, por que não lembrar que também ele é (foi?) editor de inúmeros folhetos. Tomemos de exemplo “Jejum” (Tea For One, Agosto de 2016), de Luís Brito (n. 1986). É o volume 29 da colecção “matéria mínima”, vinte e duas páginas agrafadas para onze poemas, com ilustração de capa assinada por Salvador Salazar. Um prejuízo! Talvez um “dejecto”. Precavendo-se, o poema diz: «Talvez melhor, quem sabe? / E o talvez é de certeza / A coisa mais fodida que há» (p. 7). Porque no poema há vida, há viver, há o sobressalto daquele que se questiona entalado entre Deus e a Natureza, sabendo-se coisa pouca, mínima, que é o que a grandiloquência do jornaleiro atolado em judiações enjeita. E então contrapõe um “Em tempos, por questões de rigor…”, blá blá blá, ao “Hoje há outras razões…”, blá blá blá, num paupérrimo exercício lógico desmontado pela realidade. O “Jejum” de poeta novo, como por aí se diz, prova que há, mais memória, menos memória, mais viagem, menos viagem, mais aventura, menos aventura, presente neste futuro, futuro naquele passado, porque o tempo se faz de coisas que vão sendo feitas. E a História é isso, mesmo que dela queiram depois fazer outra coisa. Da leitura subjectiva do poema, da sua linguagem aberta, retirará cada um sua lição com a certeza de: «Que isto da vida / Isto do amor / Isto das mulheres / É sempre a piorar e o paraíso só chegará quando / Ela morrer nos braços das tuas ideias» (p. 9).
   Luís Brito também publicou na Abysmo, que acaba de "dar à estampa" a colecção “Mão Dita”, de poesia, com uma plaquette assinada por Inês Fonseca Santos (n. 1979): “Suite sem vista” (Abysmo, Janeiro de 2018). Ah, quão óbvios não são os alvos do granadeiro?! Num poema sequência em catorze estâncias, com belíssimo grafismo de Luísa Barreto, Inês Fonseca Santos apresenta-nos a uma rapariga num quarto de hotel. A solidão mistura-se com o desejo, o tédio com o medo, o erotismo com a perda, num cenário com vista para os lugares da intimidade. A cidade está lá, mas é como se não estivesse. Todo o espaço envolvente remete para um espaço interior. Alguém limpa os quartos do hotel, mas o que se retém é o “silêncio após a limpeza dos quartos”. Há reflexos no espelho que enviam para memórias, o dentro é o espaço que a escrita redime da solidão absoluta: «Nessa noite, a rapariga encostou a mão / ao lume. Houve reclamações em todo o hotel: // o cheiro insuportável da rapariga / era o de quem escreve» (p. 20). E do desfecho damos ensejo à leitura, porta aberta, por ironia, ao que surge fechado em si mesmo, cerrado na clausura de um intimismo que separa a rapariga do mundo, como se entre ela e o outro não houvesse exterior. Deste modo, a escrita surge enquanto extensão da intimidade, é, em essência, a fenda a partir da qual a intimidade quebra. Lê-se como quem assiste a uma curta-metragem, fazendo sentido a publicação isolada por não ser a sequência fragmento de algo maior. Não é grão na engrenagem, é poema a valer por si mesmo, micro-drama, na sua também situação de isolamento. Mas que interessa isto quando partimos para a leitura ocupados por preconceitos medíocres?
   Portanto: dejectos, excrementos, poiais de pombos lerdos, os folhetos que “hoje”, supostamente ao contrário do que ontem acontecia, contribuem para o “cagaçal”. Entre todos, a Douda Correria mais que outros tem, assim sendo, contribuído para a conspurcação pátria com volumes pouco nutritivos. É a dieta das 31 páginas. Que julgará o homem dos sete instrumentos da “Carta em Fuga Para Cravo e Drá” (Douda Correria, Junho de 2017), de Mariano Alejandro Ribeiro (n. 1993)? Julgará o homem dos sete instrumentos que nos tempos dos surrealistas, os nossos e os de além, era diferente? Alô, alô, Contraponto? Ou que a geração que ficou para a história como beat marchava em passo de ganso? Ou que entre cultura e contracultura o tamanho importa? Queixa-se da quantidade? Da falta de tempo? Não tenha pressas. Intenso ou não, será Mariano Alejandro Ribeiro um dos que caga sem particular denodo? Cito. Numa coisa estaremos de acordo: «Vai tudo, ou quase, como é óbvio, parar muito longe, a um deserto a que, anos depois, nem grandes expedições conseguem ir lá dar». A croniqueta ainda mais depressa. É a lei da vida. Para quê queixar-se alguém da lei da vida? Até que tudo chegue a bem longe, temos a “mercearia do Ali”. Nos folhetos da Douda com especial ironia gráfica. Para que entre livro e folheto não se intrometam as 48 páginas impostas por lei, vai a publicação sem paginação. Neste particular de Ribeiro, acompanhadas por uma libélula marroquina num poema-missiva pautado pela figura das “maçãs verdes”. Como os versos, se assim posso dizer. Recordações e momentos de nostalgia, num divertimento poético com sinais gráficos e disposição de caracteres à mais lúdica vocação experimental. Pelo meio, uma promessa: «Eu hei de te escrever um dia amigo / Um manifesto às guerras que não vivemos / Às fomes que não sofremos / Aos olmos que não fomos / Às almas que não vemos». Apreciará sua excelência maçãs verdes? Também na Douda Correria publicou Vasco Gato (n. 1978), autor de variadíssimas plaquetes. DVP dedicou duas páginas inteiras no I a uma delas (aqui). Pombo lerdo? Amigo lá de casa? E já agora, quando temos em mão “A Musa Irregular”, de Fernando Assis Pacheco (n. 1937), o que realmente temos em mão senão uma belíssima colecção de plaquetes? Recordemos parte da “nota a fechar”: «Entretanto fui mandando compor entre 1976 e 1986, na oficina de J. J. Magalhães, uma série de plaquetes de oito páginas uma apenas, a última, com o dobro do tamanho: dezasseis estritamente para ofertas». Outro pombo lerdo, a fazer biquinho à francês, contribuindo para o cagaçal com dejectos de 8 páginas.
   Como editor, DVP publicou bastantes folhetos para que aqui não os inventariemos fastidiosamente. Serão pérolas, na legítima opinião do editor. Mas senão ilegítima, tristemente façanhuda, a opinião do jornaleiro a quem cabe escrever sobre os demais além de si. Porquê desacreditar um formato? Pela sua vulgarização? Ora porra, não está mais do que valorizada a publicação de livros? A ideia de que a publicação de plaquettes se vulgarizou é tão válida como a de que agora só se publica porcaria (uma redundância, eu sei), a tentação de julgar uma obra pelo formato é simplesmente ridícula, sugerir que noutro tempo a publicação de folhetos acarretava um rigor que agora não existe é injusto e de um anacronismo patético. Sobre questões de intensidade não me pronuncio, não tenho como medi-las e em matéria de poesia não foi ainda inventada a figura do vídeo-árbitro. A quem se refere, então, DVP? Quem terá ele em mente quando alude a “pombos lerdos” e respectivos “dejectos”? Aos autores que o próprio publicou? Aos que não apreciam o seu estilo enfant terrible com péssimo gosto para camisas? É deste egocentrismo com agenda própria que devemos falar, desta mania de chamar atenções sobre si com flatulências direccionadas aos demais que não entrem no seu círculo. Enganador, sem tempo para reflectir, apressado e historicamente descontextualizado, Pinto configura a miséria jornaleira de dar por dar nas vistas adoptando a postura e o estilo daqueles que diz admirar mas de todo não compreende. Nem pode. A cada qual a vida que escolhe ou lhe sai pela culatra. Mais valia que tivesse ficado pelo Infenro a comentar política internacional. Vejamos se nas suas contas entram outros exemplos de pombos lerdos.
   Eduardo Quina (n. ?) publicou no ano passado “ausência” (Eufeme, Março de 2017), na colecção “Poetas da Eufeme”. A Eufeme é um magazine de poesia que vai no sexto número, trabalho esforçado de divulgação de autores portugueses e traduzidos. Publicações cuidadas, com arranjo gráfico equilibrado, à semelhança do que DVP fez com a revista “Criatura” já lá vão 10 anos. A diferença está numa reserva que DVP, encavalitando-se em figuras da Academia e estimulando polémicas parolas, permutou pelas parangonas do jornalismo cultural mais à mão. O resultado, claro está, é o interesse reduzido dos caciques. Em certa medida, “ausência” também responde a esse estado de coisas. A insistência na poesia vem-lhe de motivos desinteressados, empenhados na avaliação da meditação poética. Qual o lugar de Orpheu, do mytho, dos deuses, na poesia hodierna? A ausência dos deuses obriga a dúvida: «afinal, o que pode a arte / contra o tempo?» (p. 12) Eternos eles, de certa maneira, efémeros nós, de outra, insistimos no poema como alegoria de um “desastre ôntico” que é, afinal, o esvaziamento, o sangramento, de uma certa condição órfica votada à orfandade. Sobre o “sacrifício inútil da poesia” resta a consciência do isolamento, a despeito do esforço: «tenho as unhas sujas de escavar o esquecimento» (p. 25). Em busca de quê? De um resquício de sagrado? De um vestígio de humanidade no meio da barbárie? De uma flor que medre entre ruínas? Homens e deuses, afinal, são órfãos do mesmo destino: não há eternidade, apenas desmemória, esquecimento, ausência. E a poesia uma farsa. 31 páginas das quais não esperamos “grandes coisas”, apenas poesia.
   Erguida das cinzas da non nova sed nove, a volta d’mar tem na sua génese gente que já publicava folhetos ainda o DVP fazia xixi nas cuecas. Por aí começou, imagine-se, um José Luís Peixoto com “a pele branca do teu silêncio” (Março de 1997) o que não abona em favor dos editores, diga-se en passant, a fazer biquinho à francês. O que movia/move os nazarenos? O que os levava/leva à poesia? De onde surde a força, a vontade, a motivação para imprimir folhas rasuradas com poemas, dobrá-las e fazê-las circular numa vila piscatória do distrito de Leiria? Navegar com grandes naus nas águas de um chafariz? Enriquecimento ilícito? Preocupações com a porra do futuro? Sonhos húmidos com literatura? “Baralhar os horizontes”, por certo, “emaranhar-lhe as paisagens”, por certo, não de um qualquer leitor previamente concebido, mas de si mesmos. Porque nisto sempre houve a noção de que mais do que a figura abstracta do leitor importa a quem vê a palavra impressa libertá-la, fazendo disso acto de comunhão que pouco terá que ver com comunicação, história, eternidade. Do it yourself, é esse o espírito. De preferência contra o caciquismo da Kultura! Só isso explica que no catálogo da volta d’mar possam conviver escritores como Jaime Rocha, Carlos Alberto Machado, Amadeu Baptista, insuspeitos de não terem oferecido ao mundo obras volumosas, com outros, desconhecidos, como é o caso de Jorge Vicente (n. 1974). “noite que abre” (Junho de 2016) insinua uma fé no poema enquanto “génese do encontro”. É no poema que a luz e o amor adquirem sentido, e os versos de Vicente, denunciando a fragilidade do humano, oferecem às palavras uma autonomia que confunde e baralha a ordem estabelecida das coisas. O essencialismo desta poesia assume a linguagem enquanto corpo sexuado, tornando física a metafísica do poema: «dizem que a poesia é um modo / de chamar os homens, / de aspirar ao corpo, / de ser esse corpo, / de transformar esse corpo / em bruma de palavras» (p. 17). Mais um “a abandalhar o ambiente”.
   Esta deriva anti-folhetos de AG & DVP Lda inspira uma personagem com a cabeça cheia de piolhos que passa o tempo desassossegada com a desbaratização da sala de estar. Higienizado o couto, sai para a rua e depara-se com um cenário dominado por ratazanas. Volta para casa a coçar a cabeça cheia de piolhos e escreve um poema, como o outro, deveras danado com o mundo, mas satisfeitíssimo consigo próprio. A ideia do poeta soldado, tacticista, em teatro de guerra, tem nestas figuras os promotores de uma ideia de resistência, que, vai-se a ver, são meros agentes duplos, algo esquizóides no discurso e nas práticas, ao serviço do entretenimento. No fundo, soldadinhos de chumbo distraídos com o jogo da batalha naval. Contra a histeria belicista do discurso crítico, proponho “O túnel e o acordeom diário fóssil encontrado após a explosão” (2.ª edição, Novembro de 2013), de Júlia de Carvalho Hansen (n. 1984). É o volume 32 da bonita colecção da não (edições). Texto em prosa, ficciona o diário de alguém que escava à procura de um lugar honesto. Um lugar honesto. De inclinação absurda, enviando-nos a espaços para ambientes kafkianos, há nele homens que coçam: «Acredito nos homens. / Ficam parados coçando. / De repente assassinam alguém» (p. 9). Mas desta acção de escavar um túnel germina uma alegoria da procura, a personagem é ela própria o chão escavado, «O chão que cavo dentro do chão» (p. 13), metáfora do autoconhecimento que permite ao ser ligar-se, encontrar-se, ir ao encontro do outro. O túnel é uma ficção poética da maiêutica, pautada pela ironia de uma colisão do mesmo com a alteridade: «Não estou mais presa do que aqueles que acordam todos os dias e vão dormir todos os dias. O desconhecido é que é uma bela de uma puta, a do gabinete das luxúrias, que te faz tudo o que faz, então cobra um preço alto, que você nunca sabe bem, qual foi, qual é» (p. 23). Acerca de textos breves como este, enchem-se páginas de jornais sem contestação. Compreendemos o entusiasmo. É-nos estranha, pelo contrário, a atitude impaciente, quando não ordinária, para com o máximo que podemos retirar do mínimo. Chamemos-lhes plaquetas, folhetos ou cadernos, estes livros não se esgotam na pequena espessura do formato. Ridículo, palerma, ou maldoso é sugeri-lo.  
   A facilidade de impressão nos dias correntes veio tornar possível a proliferação de projectos editoriais, numa quantidade que não fere a putativa qualidade dos textos, sempre difícil de aferir, sujeita aos critérios subjectivos de quem leia. Bom ou mau, melhor ou pior, pequeno ou grande, deixamos ao cuidado dos interessados (interesseiros?) em pesar e medir. Os chamados tecnocratas da literatura. Por aqui celebra-se o fazer, a poiesis descomprometida, sem cálculo, espontânea, viva, autêntica por não buscar o novo de um modo intencional, como se o novo fosse alcançável, mas por da confusão permitir que algo de diverso possa ainda acontecer. Morta a poesia, que mais podemos ambicionar? A intensidade não tem ordens de medida, é fruto de circunstâncias históricas e pessoais. Ver mal na diversidade, na multiplicidade de vozes dispersadas, enfim, por recantos sempre obscuros, é de um pretensiosismo serôdio que não podemos deixar de denunciar. O que o mestre faz e discípulo copia toscamente é mais do mesmo, atrair atenções para os seus núcleos restritos e restritivos com a clara intenção de determinar tendências e impor discursos castradores da diversidade. Perdem tempo. Caberá no seu mundo selectivo, a dar ares de exigente, uma publicação como “Pôr as Pernas do Lado da Cabeça e Partir” (Edições 50kg, Abril de 2015), de Carlos Alberto Machado (n. 1954)? Os caracteres móveis e a zincogravura utilizados na capa garantirão à publicação algum grau de excepcionalidade que a livre de ser classificada como dejecto ou autocomplacência editorial? «sou um frágil guerreiro em combate / periga o meu último e descuidado pulmão / decomponho a ilusão em cenas breves / com um precário punhado de actores da noite / e eu com eles no esforço inglório de respirar / o ar que me falta por ti / e por mim voaria / em ave calibrada / sobre esta cidade / que é negra / negra» (p. 15). Escrito em 2011, o poema recoloca a questão do divino ao abandono. Já só com um pulmão de sobra, o poeta mergulha no cenário negro da noite e atravessa a cidade. Longe de ser a “cidade de deus”, longe de ser a “cidade ideal”, a cidade do poema confunde-se com a negrura dos seus habitantes. Poema da desolação, “Pôr as pernas do lado da cabeça e partir” sugere uma fuga interior que permita escapar de um exterior opressivo. Não será essa uma ou mesmo a função da poesia? Não sei. Sei que se agora perco tempo com tais matérias é tão-somente porque acima de qualquer sentença jornaleira, ao serviço da decrepitude cultural, coloco eu qualquer verso das publicações supracitadas.

19 comentários:

LMR disse...

Diogo Vaz Pinto, para quem palavra de Guerreiro é homilia papal

Não fui então o único a reparar nisso.

Não se referindo a si próprio, a quem se referirá DVP quando acusa o “ambiente de praça fétida em que o que há mais são pombos lerdos e os seus dejectos, as plaquettes” (sic)?

Ah, sim, a tão tradicional insinuação anónima para qualquer um decidir rever-se ou não nela. É engraçado como DVP, um dos vários que hoje em dia tenta calçar os sapatos de Luiz Pacheco, é tão cauteloso na hora de nomear. Isto lembra-me de um artigo dele precisamente em honra de Pacheco:

O medo que lhes mete – e por uma vez não nos peçam nomes porque a verdade é que seria mais justo e fácil nomear as excepções – que alguém não veja no Pacheco precisamente um exemplo de todas as razões por que devemos observar as maiores cautelas face a esta gente que de nada precisa tanto como de um inimigo para finalmente nutrirem alguma paixão (negativa, pois claro) em comum.

https://ionline.sapo.pt/597563

Mas quem é que lhe pediu nomes? Ele é que está sempre a emular Pacheco. Ele é que devia dar nomes sem lhos pedirem, como Pacheco fazia. Hoje em dia dar nomes não é problema nenhum, a não ser que se queira pertencer ao meio, o que DVP está sempre a deixar claro não é o seu objectivo. Portanto o que tem a perder? Para mim só se recusa a dizer nomes alguém que se julga tão importante, tão visível, tão exposto, que imediatamente todo o meio se viraria contra ele para uma vingança total. É uma forma de megalomania.

Esta sua digressão foi interessante; conheço tão mal o meio poético, que estas viagens ao passado são sempre educativas. E é exactamente essa perspectiva histórica que falta a DVP. Ele primeiro fala e depois (espero eu) pensa. Um jornalista cultural devia ater-se a critérios mais rigorosos.

O que não percebo nele é o queixar-se do formato, que nada importa, em vez do texto lá dentro. Muita da poesia portuguesa contemporânea não tem nada que ver com o que procuro na linguagem, mas o problema é o texto, não o objecto físico. Depois a plaquette é um formato anti-comercial, anti-sistema, tirante a marginal, o que devia agradar a DVP porque ele vive intensamente toda essa nostalgia da Lisboa boémia dos anos 50 e 60 de Pacheco, Cesariny, Café Gelo. Muitos desses tipos nem publicaram livros, isso não era o importante; era a liberdade, o afrontar o sistema; eles possivelmente teriam achado estas plaquettes interessantes. Penso que o primeiro livro de Alexandre O'Neill, "A Ampola Miraculosa", foi uma coisa assim.

Jorge Muchagato disse...

«Lasciate ogne speranza, voi ch'intrare.» / «Deixai toda a esperança, vós que entrais.»
Dante, «A Divina Comédia», Inferno, Canto III, 9.

Anónimo disse...

E disto, ninguém fala? É demasiado embaraçoso?

"Anónimo Anónimo disse...
Fosse esse o único tiro no pé do donzelo! linda linda é a questão dos prémios SPA, onde o menino tem 2 dos títulos da sua editora entre os 3 finalistas na categoria de poesia, cama bem preparada pela Dr.ª Teresa Carvalho, sua camarada no Sol e no I, ilustre constituinte da SPA, e, por acaso, prefaciadora e apresentadora de um dos livros em questão. O 3 livro em questão, o único que não faz parte do catálogo da Língua Morta, é também de uma amigalhaça. E é gente deste calibre que vem para os jornais dar lições aos outros."

hmbf disse...

LMR, a "A Ampola Miraculosa" foi, de facto, uma coisa assim.

Anónimo disse...

A malta acha piada é ao DVP estar sempre a insultar meio-mundo (só ele é que faz bem feito, só ele é que sabe quem são os bons, só sua excelência epigonal de Pacheco é que dita os critérios legítimos de tudo o que há de bom na poesia). Ridículo, ridículo é o sujeito andar a lançar dúvidas sobre festivais e prémios, a insultar premiados, para depois meter a su acólita - Drª Teresa Carvalho, que escreve para o ionline e que é publicada numa editora onde ele é conselheiro editorial (e aí se publica, também, tudo tão impoluto)- a votar nos livros da Língua Morta. Não fosse tudo isto uma farsa, seria patético. É que cuspir para o ar e contra o vento dá nisto...

Diogo Vaz Pinto disse...

Uma vez que o blogger limita a extensão dos comentários, aqui fica a resposta: https://omelhoramigo.blogspot.pt/2018/02/resposta.html

Anónimo disse...

A merda de pombo de que eram feitos os poemas do Diogo Vaz Pinto deram-lhe volta à cabeça. Ele ama os autores mortos porque teme os vivos.

Diogo Vaz Pinto disse...

Não. Nem Teresa Carvalho é constituinte da SPA, nem me fez cama alguma. Como também não assinou qualquer prefácio. Mas diga-me o anónimo, onde é que nomear a um prémio autores publicados pelas edições língua morta lesa qualquer princípio de imparcialidade? Porque há uma relação de amizade entre um elemento do júri e o editor, tudo o que chegue às livrarias com o selo desta editora merece ser irradiado? Era giro que assim fosse. Com certeza não havia mais prémios de poesia neste país. (Digo-lhe já que se, por hipótese, é esta a sua proposta, sou a favor.) Já agora, presumirá com isto que estamos a retirar daqui alguma vantagem patrimonial? Que rebuscado. Tem ao menos consciência de que está a falar de livros com tiragens de 200 exemplares (e um deles já esgotado)? Ou é uma questão de prestígio? E se é assim, onde é que nos viu ostentar essas nomeações? A única coisa que se pode retirar disto é o nível da vossa parvoíce.

hmbf disse...

Não sei quem é Teresa Carvalho, sei o que é a SPA, mas desconheço os meandros do regimento, não percebo nada de prémios nem quero perceber. E julgo que este tema nada tem que ver com a questão levantada pelo artigo do Diogo.

manuel a. domingos disse...

Concordo.

MJLF disse...

Eu tenho pilhas de plaquettes de poesia desarrumadas pela casa e viva a diversidade onde vou tendo encontros e desencontros. Os tijolos são mais fáceis de arrumar. Aprecio o caos do que se vai publicando nas atuais e diversas editoras independentes :D

manuel a. domingos disse...

Concordo.

Carlos Bernardo disse...

"...é publicada numa editora onde ele é conselheiro editorial (e aí se publica, também, tudo tão impoluto)"

Está enganado! A Maldoror não tem conselheitos editoriais. Tudo o que publicamos é da nossa exclusiva responsabilidade. O Diogo Vaz Pinto e a Teresa Carvalho são nossos autores (e amigos) mas não desempenham qualquer função de aconselhamento na editora.

Fazer conjecturas sobre aquilo que não sabemos costuma dar mau resultado. Acabamos a dizer baboseiras e a fazer figuras de parvo...

manuel a. domingos disse...

Um esclarecimento importante.

Anónimo disse...

Vai de anónimo... Eu gosto de ler o António Guerreiro e também gosto deste blogue. E gosto mais deste http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com.es/2011/05/uma-proposta-modesta.html do que do livrinho do Aníbal Fernandes, embora esse senhor seja um bom tradutor, como há poucos no jardim à beira mar etc. Isto parece uma plaquette...

para o de cima... disse...

E tu pareces yuma cassete da Adília Lopes...

Francisco Rebolo disse...

Esta postagem não acrescenta nada à poesia e a resposta do dito atingido muito menos, de tão rebuscada e secante. É talvez mais construtivo aquele evento no Teatro da Rainha.
Mesmo assim vou passando por aqui.

Anónimo disse...

yuma?

Cuca, a Pirata disse...

Tão bom, Henrique! Sempre em grande forma.
:)