sábado, 17 de março de 2018

FORA DO MUNDO


O caso mais conhecido talvez seja o de Henry David Thoreau (n. 1817 – m. 1862), dois anos e dois meses a mais de quilómetro e meio de qualquer vizinhança, a ganhar a vida, como o próprio dizia, apenas com o trabalho das suas mãos. Depois, regressou à civilização. Os pormenores vêm descritos em “Walden ou a Vida nos Bosques”, publicado pela primeira vez em 1854. Da experiência, Thoreau concluiu que a simplificação da vida descomplica as leis do universo. Assim sendo, «a solidão deixará de ser solidão, a pobreza deixará de ser pobreza, a fraqueza deixará de ser fraqueza». Não foram anos de completo isolamento, chegou a dar festas na cabana, falava com quem por ali passasse, mantinha-se sociável. Até escreveu um livro sobre o assunto. A influência de Ralph Waldo Emerson (n. 1803 – m. 1882) é notória, sobretudo para quem tenha lido o ensaio “A Natureza”. Começa logo assim: «Para encontrar a solidão, um homem tem de deixar tanto o seu quarto como a sociedade». Mas por que há-de um homem pretender encontrar a solidão? Não andamos todos a fugir da solidão? Parece paradoxal, mas não é. No meio de multidões, um homem pode sentir-se só. As cidades materializam uma ideia de civilização, assente em grandes aglomerados populacionais pautados pelo frenesi, pela agitação, permanentemente expostos ao ruído (noise) e, por consequência, à náusea. O livro de Sartre também é sobre isto, sobre esta sujeição permanente ao ruído que faz dos outros um inferno. Os outros são o ruído.
   A busca da solidão será uma tentativa do homem reencontrar-se consigo mesmo, o ideal de uma origem pura, simples, livre, autónoma e independente das leis e das regras que configuram a normalidade no seio de uma sociedade. Um tipo começa a trair-se quando aprende uma língua. A norma pode ser altamente agressiva e torturante em certas almas. Cristo afastou-se, Siddharta afastou-se, os anacoretas do deserto afastavam-se…  Lao Zi, ou Lao Tse, lançou as bases com o “Tao Te Ching”, ou o “Tao Te King”. Uns, afastam-se geograficamente. Outros, afastam-se pelo silêncio. Não é por acaso que Matsuo Bashô ficou para a história como “O Eremita Viajante”. Os exemplos são múltiplos, diversos, mas convergem todos para uma ideia de isolamento enquanto encontro. Sozinho consigo mesmo um homem jamais estará só. Não é assim, Thoreau? Isolado nos bosques, no seio da Natureza, ele regressa à terra que o pariu, concretiza uma espécie de retorno ao ventre, empreende, de certo modo, um retorno às origens, à fonte mais pura, que é silenciosa e protectora e auto-suficiente. De regresso ao ventre, o homem volta a sentir-se protegido, a salvo dessa tortura que é o ruído das multidões, a náusea, a salvo do excesso, do desperdício, das tormentas de um mundo em convulsão continuada. É o máximo de liberdade que podemos ambicionar. 
   Christopher McCandles, o rapaz imortalizado por Sean Penn com a adaptação para cinema do livro “O Lado selvagem”, de Jon Krakauer, não era anti-social, não era misantropo, não se pode sequer dizer que revelasse traços esquizóides ou uma qualquer forma subtil de autismo. Inspirado pela experiência de Thoreau, quis embrenhar-se nos bosques. Partiu à aventura rumo ao Alasca, por lá ficou, no ventre da terra, traído pelo veneno da Natureza, por nele não haver a sabedoria indígena que talvez o safasse do fracasso. É outro caso bastante conhecido de uma busca radical do silêncio, do sossego, da paz, fazendo do isolamento e da solidão, do auto-exílio, o meio para atingir esse estado de distanciamento que parece indispensável à consumação de uma ideia de felicidade. Longe dos outros, que oprimem e humilham, distante de tudo quanto torture, desassossegue, inquiete, o homem tem pela menos a hipótese de poder achar-se livre. Não é esse o fim último, o nirvana? Não será isso a ausência de desejo, de ambição, de vontade? Mas para aí chegar, este homem tem de querer. 
   Christopher Knight quis. Tinha vinte anos quando desapareceu, até passarem 27 anos para que fosse novamente capturado pelas armadilhas do social. O jornalista Michael Finkel escreveu a sua história em “Fora do Mundo”, chamando-lhe, como lhe chamavam, eremita. Ele não enjeita o conceito nem o assume, é-lhe indiferente. O nosso mundo parece ser-lhe indiferente. Não me interessa minimamente especular sobre o heroísmo ou anti-heroísmo de Christopher Knight, não quero saber das patologias eventualmente configuradoras da sua personalidade, se era uma fraude, um criminoso, um maluquinho… Não consigo posicionar-me face a um ser humano com tamanha facilidade. Interessa-me a conclusão de Finkel, que dele consegui aproximar-se para procurar entendê-lo: «o mundo não foi feito para pessoas como ele. Nunca fora feliz durante a juventude nem no liceu, nem num emprego, nem na companhia das outras pessoas. Sentia-se constantemente nervoso. Não havia lugar para ele na sociedade e, em vez de continuar a sofrer, decidiu partir. Tratou-se não tanto de um protesto, mas mais de uma busca» (p. 183). 
   Finkel, como é óbvio, representa aqui o papel do invasor. É persistente, obstinado, insistente, até inconveniente nas tentativas de estabelecer uma relação com Christopher Knight, um homem que apenas queria estar só. Não tivesse sido apanhado num dos imensos pequenos furtos que praticou, Knight transformar-se-ia num mito urbano: o eremita que assaltava casas de férias para roubar o que outros deixam para trás, e disso subsistir no meio da floresta, numa espécie de casulo que lhe garantia aquilo de que mais precisava: solidão. Quando em sociedade um homem se sente só, ele isola-se para que deixe de se sentir só. Vai ao encontro de si mesmo. Isto é mesmo assim, nada tem de contraditório. É assim desde sempre. O exílio, o isolamento, são meios para atingir um fim. No caso de Thoreau, como de outros transcendentalistas, a plenitude que advém de um diálogo entre quietude e tranquilidade. No caso de Knight, a solidão que se forma de uma conversa entre o vazio e o desassossego. Só no primeiro vislumbramos a via do ascetismo que caracteriza o eremita. O segundo é um dos nossos, mas mais capaz. O que nele pode haver de anómalo é o ter partido, o ter colocado alicerces para os castelos que construímos no ar.

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