quinta-feira, 30 de agosto de 2018

JAPÃO, PAÍS DE SUICIDAS




   Yasunari Kawabata (n. 1899 – m. 1972) foi criado pelos avós, depois de perder os pais quando contava apenas quatro anos de idade. Passados dez anos, perdeu os avós. Acabou num internato. Foi aí que decidiu ser escritor, embora a pintura tenha sido a primeira paixão. Terra de Neve (D. Quixote, trad. Armando da Silva Carvalho) foi o seu primeiro romance, publicado por fascículos entre 1935 e 1947. É hoje considerado uma obra-prima. O romance coloca em cena a relação entre um homem da cidade e uma jovem gueixa. Shimamura gosta de se refugiar na montanha, longe da agitação da capital e da família. É nesse lugar de isolamento que conhece Komako, ao abrigo da multidão: «Shimamura pensa na Terra de Neve, na sua frialdade. Mas descobre nela qualquer coisa de ardente» (p. 45). A relação que se estabelece entre ambos não é a típica relação de um homem com uma gueixa. Shimamura interessa-se por Komako, de quem se diz ter-se tornado gueixa profissional para poder pagar despesas com remédios do noivo. Ela nega-o. «Shimamura sentia-se cada vez mais desolado, miserável, oprimido, vencido pela inutilidade e pelo vazio absurdo» (p. 67). Só a imagem de Komako o anima, longe da cidade, numa solidão íntima partilhada, sem público, longe das complicações da vida quotidiana, familiar. 
   A paisagem, neste romance, não é apenas cenário. Há entre as descrições da natureza e estas duas personagens uma espécie de fusão, Shimamura e Komako são uma extensão da solidão das montanhas, reflectem a vontade selvagem do «valezinho, apertado entre a massa dos montes cobertos de neve» (p. 85). Não há-de ser por acaso que, no final, Shimamura se funde com a Via Láctea. Mas já lá vamos.
   Osamu Dazai (n. 1909 – m. 1948) é o pseudónimo de Shūji Tsushima. Nascido e criado numa família numerosa, desde cedo se interessou pela literatura. Ryūnosuke Akutagawa (n. 1892 – m. 1927), de quem se diz ser o pai da short story japonesa, era o seu ídolo. Suicidou-se com apenas 35 anos de idade. Dazai seguir-lhe-á o exemplo, depois de incursões pelo marxismo, pelas drogas, pelas prostitutas (não necessariamente por esta ordem). Em 1929 tentou suicidar-se pela primeira vez, em 1930 fugiu com uma gueixa e foi deserdado pela família, tentou suicidar-se novamente, foi preso por se envolver com o Partido Comunista Japonês, e por aí adiante...
   Quem leia o belíssimo romance Não-Humano (Cavalo de Ferro, trad. Ana Neto) aperceber-se-á do estilo autobiográfico. Dazai coloca-se no papel de personagem, disfarçando-o com ligeiros estratagemas técnicos. Mas rapidamente entendemos que o ser angustiado, deprimido, saturado, melancólico, solitário, do livro tem tudo que ver com a criança adoentada, filha de uma família rica, que foi Shūji Tsushima. Entendemos também uma revolta típica para com a sua condição social, o desconforto perante as raízes, uma declarada incompreensão do ser-se humano. Osamu Dazai não se reconhece no outro, recusa imitá-lo, não se quer único porque sabe-se único, excluído pela sua própria excepcionalidade. Observa os seres humanos à sua volta e não os compreende, teme-os, julga o convívio com os outros insuportável, aliena-se através do consumo de drogas, adopta uma vida licenciosa: «álcool, tabaco e prostitutas eram um excelente meio de dissipar (mesmo que só por breves momentos) o meu medo dos humanos» (p. 44).
   Sentindo-se excluído socialmente desde que nasceu, a sua maior tragédia será a farsa em que procurará sobreviver. Não é como o homem da cidade que se refugia nas montanhas em busca de solidão, se deslumbra com uma gueixa com quem trai a família deixada para trás. Toda a sua vida é uma hesitação entre a decisão de fugir e de se matar, não havendo qualquer diferença entre ambas. O que ele detesta nas pessoas é a hipocrisia, a contradição em que vivem, mas não enjeita fazer de palhaço para alcançar os seus objectivos. É um não-humano extraordinariamente humano, diríamos. Ama uma mulher com quem tenta suicidar-se. Ela morre, ele escapa: «De todas as pessoas que conheci, aquela miserável Tsuneko foi mesmo a única que amei» (p. 64). O que o faz ser assim? Por que rejeita o amor dos outros? Por que é incapaz de os amar? Lá iremos.
   Yukio Mishima (n. 1925 – m. 1970) foi tudo o que um escritor pode ser. É difícil de imaginar o que poderia andar pela cabeça deste génio que nunca deixou de exibir o seu talento sob diversas formas. Confissões de uma Máscara (Assírio & Alvim, trad. António Mega Ferreira) não desfaz as dúvidas, como, de resto, o título previne. É uma máscara quem se confessa, não um rosto. Ainda assim, julgo podermos confiar em parte da história. O livro como que expõe a homossexualidade do autor, dos primeiros sinais, por assim dizer, à «expressão da necessidade de afirmar a minha verdadeira natureza» (p. 35). Mishima passeia-nos pelos anos da infância, partilha fantasias, penetra territórios heterodoxos, como sejam os da masturbação a contemplar uma reprodução de S. Sebastião. Sexo e violência são os ingredientes que tem para nos oferecer, tal como eles desabrocham na adolescência e por vezes se retratam na vida adulta. Não há recalcamentos na exposição dos pormenores. A tentação declarada do suicídio, a paixão infeliz por um rapaz, as erecções, o ciúme, os atalhos para a solidão. 
   Curioso como tanto em Kawabata, como em Dazai e Mishima, a palavra solidão surja como uma espécie de estado interior, íntimo, uma fatalidade inerente ao ser. Certo que no primeiro a solidão é procurada no refúgio da montanha, mas, em boa verdade, não é a solidão que se procura, ela simplesmente transporta a sua presa ao lugar que lhe convém. Em Dazai, a solidão como que estabelece entre o eu e o outro um muro intransponível. Em Mishima ela surge do desconforto  de uma sexualidade proibida. No final, fica sempre a imagem dos outros como o inferno que leva ao isolamento. Shimamura e Komako são arrastados pela multidão durante um incêndio, são espezinhados pela multidão, é a multidão quem os afasta, quem lhes impede o amor, numa alegoria do amor impossibilitado pelas convenções sociais. Yozo, o alter-ego  de Dazai a quem se atribui a autoria dos cadernos de memórias reunidos sob o título Não-Humano, olha para a sociedade como para um indivíduo ameaçador, oceano revolto onde o ser naufraga. As aparências matam-no, as evidências levam-no ao isolamento. «Indigno de ser humano. / Deixara então de ser um humano» (p. 127). 
   E Mishima? Tenta enganar-se com Sonoko, na companhia de quem se isola dos outros. Mas é tudo engano. A máscara o confessa: «tornei-me um daqueles seres que só conseguem acreditar nas falsas aparências» (p. 123). E com isto sofre, porque também ele se sente condenado à autodestruição. A obrigação de amar aniquila-o, também ele pensa em fugir, todos pensam fugir. De quê? Da sociedade. Da mentira. E é ele quem o afirma, embora pudesse ser outro qualquer: «De súbito, senti essa dor aguda que nos vem depois de fixarmos demasiado tempo o mesmo objecto. Esta dor proclamava: «Não és humano. És um ser incapaz de relações sociais. És apenas uma criatura desumana e, em certo sentido, estranhamente patética» (p. 178).
   Yasunari Kawabata ganhou o Prémio Nobel em 1968. Em 1972, suicidou-se. Há quem diga que foi acidente. Há quem aponte como razões para o feito uma relação amorosa ilícita, o choque após a notícia do suicídio de Yukio Mishima. Este não deixa dúvidas: seppuku. Dazai desapareceu nas águas do rio Tamagawa. Levou consigo Tomie Yamazaki, amante à época. Não-Humano foi o seu último livro.

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