quinta-feira, 30 de maio de 2019

EUROPEIAS


Mais do que a abstenção, que inclui mortos, gente que simplesmente não quis votar e gente que não pôde votar, impressionam os brancos e os nulos. Estamos a falar de 229662 pessoas que se dirigiram às urnas para manifestarem o seu completo desagrado. Podiam ter ido directamente para a praia, mas não quiseram deixar de  mandar o sistema à merda. São mais do que as pessoas que votaram na coligação PCP-PEV ou no CDS-PP ou no PAN, pelo que seria respeitável oferecer-lhes pelo menos um eurodeputado. Um que fosse branco e nulo. Enfim, julgo que a seu tempo sentir-se-ão dignamente representadas. Não gosto das europeias, nunca gostei. Fui votar por fidelidade ao meu partido e porque respeito o trabalho do João Ferreira. Tentei ver um debate e não consegui. O candidato do PS fazia a propaganda do governo, o do PPD/PSD fazia a contrapropaganda do governo, o do CDS-PP falava de José Sócrates. Só Marisa Matias e João Ferreira estavam interessados em discutir questões europeias. No debate entre os partidos menos representativos aquilo parecia uma anedota com um contraponto chamado Rui Tavares. Uma pena ter de o ver ali, já que tem ideias, é inteligente, destoava. Não me surpreendo nada, portanto, com os níveis de abstenção. A generalidade das pessoas não sabe para que serve o Parlamento Europeu, julga incompreensíveis os vencimentos e ajudas de custo e mais não sei quê dos eurodeputados, o que é perfeitamente compreensível. Será legítimo esperar-se de quem ganhe o ordenado mínimo em Portugal o mínimo respeito pelo Parlamento Europeu? Aquilo a que chamam projecto europeu, alicerçado numa vontade de garantir a paz entre as nações e gerar prosperidade entre os povos, trouxe paz podre (menos mau) e austeridade entre os povos a bem da saúde do sistema financeiro. O Brexit é a bandeira de uma confusão na qual podemos incluir a falta de respostas para a questão das migrações, os muros da vergonha, as tremendas assimetrias nos níveis de vida em cada um dos países da União. Já ninguém fala da Grécia, mas eu ainda me lembro de Dimitris Christoulas, o pensionista que em Abril de 2012 se suicidou na Praça Syntagma. Ficou, para mim, como símbolo desta União Europeia. Dediquei-lhe um poema no meu livro "Estação 2012". Os dois primeiros versos manifestam a dúvida: «Que nos prende a este lugar / onde já nada brilha?»

2 comentários:

Manuel A. Domingos disse...

Pois eu, depois de 20 anos sem votar, quebrei o jejum. Voltei a uma secção de voto e "descarreguei". Fiz aquilo que nunca devia ter deixado de fazer.

hmbf disse...

E fez muito bem.