Mais do que a abstenção, que inclui mortos, gente que simplesmente
não quis votar e gente que não pôde votar, impressionam os brancos e os
nulos. Estamos a falar de 229662 pessoas que se dirigiram às urnas para manifestarem
o seu completo desagrado. Podiam ter ido directamente para a praia, mas não quiseram deixar de mandar o sistema à merda. São mais do que as pessoas que votaram na coligação
PCP-PEV ou no CDS-PP ou no PAN, pelo que seria respeitável oferecer-lhes pelo
menos um eurodeputado. Um que fosse branco e nulo. Enfim, julgo que a seu tempo
sentir-se-ão dignamente representadas. Não gosto das europeias, nunca gostei.
Fui votar por fidelidade ao meu partido e porque respeito o trabalho do João
Ferreira. Tentei ver um debate e não consegui. O candidato do PS fazia a
propaganda do governo, o do PPD/PSD fazia a contrapropaganda do governo, o do
CDS-PP falava de José Sócrates. Só Marisa Matias e João Ferreira estavam
interessados em discutir questões europeias. No debate entre os partidos menos
representativos aquilo parecia uma anedota com um contraponto chamado Rui
Tavares. Uma pena ter de o ver ali, já que tem ideias, é inteligente,
destoava. Não me surpreendo nada, portanto, com os níveis de abstenção. A
generalidade das pessoas não sabe para que serve o Parlamento Europeu, julga
incompreensíveis os vencimentos e ajudas de custo e mais não sei quê dos
eurodeputados, o que é perfeitamente compreensível. Será legítimo esperar-se de
quem ganhe o ordenado mínimo em Portugal o mínimo respeito pelo Parlamento
Europeu? Aquilo a que chamam projecto europeu, alicerçado numa vontade de
garantir a paz entre as nações e gerar prosperidade entre os povos, trouxe paz
podre (menos mau) e austeridade entre os povos a bem da saúde do sistema financeiro.
O Brexit é a bandeira de uma confusão na qual podemos incluir a falta de
respostas para a questão das migrações, os muros da vergonha, as tremendas
assimetrias nos níveis de vida em cada um dos países da União. Já ninguém fala
da Grécia, mas eu ainda me lembro de Dimitris Christoulas, o pensionista que em
Abril de 2012 se suicidou na Praça Syntagma. Ficou, para mim, como símbolo
desta União Europeia. Dediquei-lhe um poema no meu livro "Estação 2012". Os dois primeiros versos manifestam a dúvida: «Que nos prende a este lugar / onde já nada brilha?»

2 comentários:
Pois eu, depois de 20 anos sem votar, quebrei o jejum. Voltei a uma secção de voto e "descarreguei". Fiz aquilo que nunca devia ter deixado de fazer.
E fez muito bem.
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