ESQUELETO
Não
procures, olha.
O poema mostra-se
no que se perde
e não procura, onde
o ser se entrega
e em liberdade respira
a lição animal da terra.
Então
as pedras
tingem-se de aromas
e o mundo cresce
em cores nunca vistas.
O
canto iniciático das manhãs
é um rebanho de sons
apascentando à beira dos lagos.
O
poema mostra-se
na rendição. Escuta, olha,
respira a luz
estirada sobre a erva.
Toca
com as mãos
o sopro da palavra.
Modela o ar
como se barro fosse
e faz do poema a ânfora
em que o vinho ganha forma.
E
cheira e prova e bebe.
*
VILA
VELHA DE RÓDÃO
à
sombra de árvores
os gregos edificavam teorias
sobre a criação do mundo
imaginavam planetas planos
lagos suspensos
outeiros com asas de vento
a terra a levantar voo
e o céu inteiro a planar
um pouco abaixo dos deuses
um pouco acima dos homens
alguns
escreviam poemas
para elevarem a espera
de mulheres dóceis
ou
talvez não escrevessem
talvez seja criação
de uma assembleia
que sob os plátanos
discutiu certo dia
a possibilidade de um lugar
para
a poesia
*
NOSSA
SENHORA DOS REMÉDIOS
Virgem
Soberana do Céu e da Terra
Sede o remédio dos meus males
Livrai-me dos malefícios da voz
que embargada na cervical
me deixa dormente
Sede
a Meu Favor Mãe de Deus
Aliviai-me do peso que carrego
e me enterra nos lameiros
Enxugai-me os olhos quase cegos
de candura e timidez
Aos meus martírios lançai
a misericórdia de vosso olhar
Sede
a Meu Favor Mãe de Deus
Defendei-me da fantasia
que me traz a esmo pelo mundo
sem projecto nem lei
Rogai,
Senhora dos Remédios
ao vosso amantíssimo filho
por todos quantos florescem
Se
vos compadecestes destes algozes
como não fareis a nós que sorrimos
e te ofertamos harpas de vento
enquanto o sol tomba por detrás dos montes?
Virgem
Soberana do Céu e da Terra
escutai o cravo e sobre ele a voz
daqueles que padecem com alegria
as moléstias do sonho e da paixão
A ti ofertamos como paga de promessa
o ex-voto da música e do canto
para que sem temor aceites
o jubiloso cheiro da terra
na corte celestial onde reinais
Sede
o remédio dos meus males
Sede a Meu Favor Mãe de Deus
*
VALE
DA SARVINDA
Acerca
da música
o sopro de um órgão
a bater no peito.
Acerca
da dança
o corpo que se entrega
ao ritmo das águas.
Acerca
da pintura
as mãos que bailam
a música dos olhos.
Acerca
da escultura
o barro de que foi feito
o homem e o adobe
de que são feitas as casas.
Acerca
da arquitectura
esta cama de som
a movimentar-se no aroma
que oferece volume
a um espaço inteiro
de sonhos em construção.
Acerca
da poesia
a forma redonda
do espanto.
Acerca
do cinema
o plano inclinado
das colinas.
Em
tudo o movimento
que abrevia a distância
entre quem vive
e faz do dia algo mais
do que efémeras 24 horas
Henrique
Manuel Bento Fialho, in “Poesia, Um Dia (2012-2022)”, coordenação de Jaime
Rocha, Companhia das Ilhas, Julho de 2023, pp. 155-161.
Poemas
de Ana Paula Inácio, António Poppe, Carlos Alberto Machado, Catarina Barros,
Catarina Nunes de Almeida, Cláudia R. Sampaio, Francisca Camelo, Hélia Correia,
Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Dias, Jaime Rocha, José Anjos, José Luís
Costa, José Mário Silva, m. parissy, Margarida Ferra, Margarida Vale de Gato,
Marta Chaves, Miguel Cardoso, Miguel-Manso, Paulo Campos de Reis, Pedro
Teixeira Neves, Rita Taborda Duarte, Rosalina Marshall, Rui Caeiro, Sandra
Costa, Vasco Gato, Vergílio Alberto Vieira.
(Vale
De Pousadas – Perais)
O poema mostra-se
no que se perde
e não procura, onde
o ser se entrega
e em liberdade respira
a lição animal da terra.
tingem-se de aromas
e o mundo cresce
em cores nunca vistas.
é um rebanho de sons
apascentando à beira dos lagos.
na rendição. Escuta, olha,
respira a luz
estirada sobre a erva.
o sopro da palavra.
Modela o ar
como se barro fosse
e faz do poema a ânfora
em que o vinho ganha forma.
18
de Setembro de 2019.
os gregos edificavam teorias
sobre a criação do mundo
imaginavam planetas planos
lagos suspensos
outeiros com asas de vento
a terra a levantar voo
e o céu inteiro a planar
um pouco abaixo dos deuses
um pouco acima dos homens
para elevarem a espera
de mulheres dóceis
talvez seja criação
de uma assembleia
que sob os plátanos
discutiu certo dia
a possibilidade de um lugar
19
de Setembro de 2019
(Alfrívida)
Sede o remédio dos meus males
Livrai-me dos malefícios da voz
que embargada na cervical
me deixa dormente
Aliviai-me do peso que carrego
e me enterra nos lameiros
Enxugai-me os olhos quase cegos
de candura e timidez
Aos meus martírios lançai
a misericórdia de vosso olhar
Defendei-me da fantasia
que me traz a esmo pelo mundo
sem projecto nem lei
ao vosso amantíssimo filho
por todos quantos florescem
como não fareis a nós que sorrimos
e te ofertamos harpas de vento
enquanto o sol tomba por detrás dos montes?
escutai o cravo e sobre ele a voz
daqueles que padecem com alegria
as moléstias do sonho e da paixão
A ti ofertamos como paga de promessa
o ex-voto da música e do canto
para que sem temor aceites
o jubiloso cheiro da terra
na corte celestial onde reinais
Sede a Meu Favor Mãe de Deus
20
de Setembro de 2019
Para
António Poppe, Cláudia R. Sampaio, Jaime Rocha e Pedro Barateiro.
o sopro de um órgão
a bater no peito.
o corpo que se entrega
ao ritmo das águas.
as mãos que bailam
a música dos olhos.
o barro de que foi feito
o homem e o adobe
de que são feitas as casas.
esta cama de som
a movimentar-se no aroma
que oferece volume
a um espaço inteiro
de sonhos em construção.
a forma redonda
do espanto.
o plano inclinado
das colinas.
que abrevia a distância
entre quem vive
e faz do dia algo mais
do que efémeras 24 horas
21
de setembro de 2019

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