sexta-feira, 20 de setembro de 2019

POESIA, UM DIA

 


ESQUELETO
 
(Vale De Pousadas – Perais)
 
Não procures, olha.
O poema mostra-se
no que se perde
e não procura, onde
o ser se entrega
e em liberdade respira
a lição animal da terra.
 
Então as pedras
tingem-se de aromas
e o mundo cresce
em cores nunca vistas.
 
O canto iniciático das manhãs
é um rebanho de sons
apascentando à beira dos lagos.
 
O poema mostra-se
na rendição. Escuta, olha,
respira a luz
estirada sobre a erva.
 
Toca com as mãos
o sopro da palavra.
Modela o ar
como se barro fosse
e faz do poema a ânfora
em que o vinho ganha forma.
 
E cheira e prova e bebe.
 
18 de Setembro de 2019.
 
*
 
VILA VELHA DE RÓDÃO
 
à sombra de árvores
os gregos edificavam teorias
sobre a criação do mundo
imaginavam planetas planos
lagos suspensos
outeiros com asas de vento
a terra a levantar voo
e o céu inteiro a planar
um pouco abaixo dos deuses
um pouco acima dos homens
 
alguns escreviam poemas
para elevarem a espera
de mulheres dóceis
 
ou talvez não escrevessem
talvez seja criação
de uma assembleia
que sob os plátanos
discutiu certo dia
a possibilidade de um lugar
 
para a poesia
 
19 de Setembro de 2019
 
*
 
NOSSA SENHORA DOS REMÉDIOS
 
(Alfrívida)
 
Virgem Soberana do Céu e da Terra
Sede o remédio dos meus males
Livrai-me dos malefícios da voz
que embargada na cervical
me deixa dormente
 
Sede a Meu Favor Mãe de Deus
Aliviai-me do peso que carrego
e me enterra nos lameiros
Enxugai-me os olhos quase cegos
de candura e timidez
Aos meus martírios lançai
a misericórdia de vosso olhar
 
Sede a Meu Favor Mãe de Deus
Defendei-me da fantasia
que me traz a esmo pelo mundo
sem projecto nem lei
 
Rogai, Senhora dos Remédios
ao vosso amantíssimo filho
por todos quantos florescem
 
Se vos compadecestes destes algozes
como não fareis a nós que sorrimos
e te ofertamos harpas de vento
enquanto o sol tomba por detrás dos montes?
 
Virgem Soberana do Céu e da Terra
escutai o cravo e sobre ele a voz
daqueles que padecem com alegria
as moléstias do sonho e da paixão
A ti ofertamos como paga de promessa
o ex-voto da música e do canto
para que sem temor aceites
o jubiloso cheiro da terra
na corte celestial onde reinais
 
Sede o remédio dos meus males
Sede a Meu Favor Mãe de Deus
 
20 de Setembro de 2019
 
*
 
VALE DA SARVINDA
 
Para António Poppe, Cláudia R. Sampaio, Jaime Rocha e Pedro Barateiro.
 
Acerca da música
o sopro de um órgão
a bater no peito.
 
Acerca da dança
o corpo que se entrega
ao ritmo das águas.
 
Acerca da pintura
as mãos que bailam
a música dos olhos.
 
Acerca da escultura
o barro de que foi feito
o homem e o adobe
de que são feitas as casas.
 
Acerca da arquitectura
esta cama de som
a movimentar-se no aroma
que oferece volume
a um espaço inteiro
de sonhos em construção.
 
Acerca da poesia
a forma redonda
do espanto.
 
Acerca do cinema
o plano inclinado
das colinas.
 
Em tudo o movimento
que abrevia a distância
entre quem vive
e faz do dia algo mais
do que efémeras 24 horas
 
21 de setembro de 2019
 
 
Henrique Manuel Bento Fialho, in “Poesia, Um Dia (2012-2022)”, coordenação de Jaime Rocha, Companhia das Ilhas, Julho de 2023, pp. 155-161.
 
Poemas de Ana Paula Inácio, António Poppe, Carlos Alberto Machado, Catarina Barros, Catarina Nunes de Almeida, Cláudia R. Sampaio, Francisca Camelo, Hélia Correia, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Dias, Jaime Rocha, José Anjos, José Luís Costa, José Mário Silva, m. parissy, Margarida Ferra, Margarida Vale de Gato, Marta Chaves, Miguel Cardoso, Miguel-Manso, Paulo Campos de Reis, Pedro Teixeira Neves, Rita Taborda Duarte, Rosalina Marshall, Rui Caeiro, Sandra Costa, Vasco Gato, Vergílio Alberto Vieira.

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