THE
PEOPLE VS. LARRY FLYNT
O
que é mais obsceno, sexo ou
guerra, perguntou Woody Harrelson
em The People vs. Larry Flynt
E ainda que à época a pergunta
fosse retórica, questiono agora
eu uma plateia semelhante:
quanta lascívia pode um
corpo humano ostentar face
às notícias que o conspurcam
esperando que creiamos divino
esse chão pantanoso que em vez
de uvas vem dando proxenetas, putas
e pedófilos de batina, bispos
cobertos de um silêncio que
não permite ouvir o repúdio
das vítimas prostradas aos pés
do sagrado coração de Jesus
Sim,
pergunto, quanto de doença
há na voz das vítimas e na surdez
dos seus carrascos, que insensíveis
à dor infligida perpetuam
a tortura condenando a carne
e a paixão, o desejo e a vontade
em nome de um amor sem chama
nem brasa, apenas poalha e cinza
acumulada sobre os suplícios
de hipócritas fés e virtudes
Pergunto,
por fim, pela mater dolorosa
que nos braços aconchega a filha
violada em grupo nas ruas
de uma Sodoma ressuscitada
e rendida aos gozos da era digital
que virtualiza tudo quanto é
para que não tenhamos de lembrar
como por detrás de um nome
padece a carne daquele foi e que,
por haver sido, cheira e chora e sente
até chegar a hora de não mais sentir,
de não mais ser, de não mais chorar
Henrique
Manuel Bento Fialho, in “Pecados Correntes”, organização & produção de
Texto Sentido, Lda, coordenação de Manuela Costa Ribeiro, Município da Póvoa do
Varzim, Fevereiro de 2020, pp. 76-77.
Poemas
de Alexandre Teixeira Mendes, Ana Bessa Carvalho, Ana Luísa Amaral, André
Domingues, António Amaral Tavares, Antonio Colinas, Aurelino Costa, Carlos
Quiroga, Catarina Santiago Costa, Daniel Jonas, Daniel Maia-Pinto Rodrigues,
Eduardo Leal, Elisabete Marques, Filipa Leal, Filipe Homem Fonseca, Francisca
Camelo, Francisco Duarte Mangas, Francisco José Viegas, Gisela Gracias Ramos
Rosa, Gonçalo M. Tavares, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Fonseca Santos,
Inês Lourenço, Ivo Machado, Jaime Rocha, João Gesta, João Habitualmente, Laia
Malo, Luca Argel, Luís Filipe Sarmento, Luísa Ribeiro, Manel Cruz, Margarida
Vale de Gato, Maria do Rosário Pedreira, Maria João Cantinho, Marta Bernardes,
Minês Castanheira, Nuno Costa Santos, Olga Santos, Ondjaki, Regina Guimarães,
Renato Filipe Cardoso, Rita Homem de Mello, Rita Taborda Duarte, Rui de Noronha
Ozorio, Rui Lage, Rui Zink, Sérgio Almeida, Sofia M. Teixeira, Uberto Stabile,
valter hugo mãe.
Ilustrações
de Afonso Cruz, Alex Gozblau, Carlos Guerreiro, Constança Araújo Amador, Joana
Mendes, Marta Madureira, Pedro Teixeira Neves, Susa Monteiro.
Poemas
lidos por Ana Afonso, Ana Deus, Ana Luísa Amaral, André Domingues, Aurelino
Costa, Filipa Leal, Francisca Camelo, Isaque Ferreira, Ivo Machado, João Gesta,
Laia Malo, Luca Argel, Marta Bernardes, Minês Castanheira, Olga Santos, Renato
Filipe Cardoso, Rita Homem de Mello, Rui de Noronha Ozorio, Rui Lage, Rui
Spranger, Sérgio Almeida, Sofia Príncipe.
Música
de Ana Deus e Luca Argel.
guerra, perguntou Woody Harrelson
em The People vs. Larry Flynt
E ainda que à época a pergunta
fosse retórica, questiono agora
eu uma plateia semelhante:
quanta lascívia pode um
corpo humano ostentar face
às notícias que o conspurcam
esperando que creiamos divino
esse chão pantanoso que em vez
de uvas vem dando proxenetas, putas
e pedófilos de batina, bispos
cobertos de um silêncio que
não permite ouvir o repúdio
das vítimas prostradas aos pés
do sagrado coração de Jesus
há na voz das vítimas e na surdez
dos seus carrascos, que insensíveis
à dor infligida perpetuam
a tortura condenando a carne
e a paixão, o desejo e a vontade
em nome de um amor sem chama
nem brasa, apenas poalha e cinza
acumulada sobre os suplícios
de hipócritas fés e virtudes
que nos braços aconchega a filha
violada em grupo nas ruas
de uma Sodoma ressuscitada
e rendida aos gozos da era digital
que virtualiza tudo quanto é
para que não tenhamos de lembrar
como por detrás de um nome
padece a carne daquele foi e que,
por haver sido, cheira e chora e sente
até chegar a hora de não mais sentir,
de não mais ser, de não mais chorar

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