A culpa é do Emanuel, que partilhou o tema no Facebook.
Ocorreu-me que tinha dado poema há anos, um daqueles que desaparecem para só
por acaso voltarmos a dar com ele. Encontrei-o aqui. Merece explicação breve, à época tinha um pseudónimo.
E escrevia coisas que dava, desfazia-me delas, sem guardar registo
pessoal das mesmas. Vai fazer 21 anos que os vi ao vivo no Seixal (aqui). O tempo passa rápido, as palavras voam:
Quando chegámos à ilha de Annobon,
a primeira coisa que fizemos foi procurar
um sítio onde arrumássemos as lágrimas.
Não havia como chorar num sítio assim,
com mulheres dançando ao ritmo do vento,
polpas de palmeira em troncos de papel,
sombras conduzidas pelo sopro de deus
como a areia nas dunas de um deserto distante.
A música é o vento que leva o corpo.
E a dança é só uma técnica de respiração.
Assim é em Annobon. Recordo os olhos
das crianças, pequenos focos de luz
a saltarem da carne preta. Os seus sorrisos
de estômago vazio, uma ternura que é impossível
vislumbrar onde as árvores têm nome de gente grande.
Ninguém precisa de saber o nome das árvores
para amá-las. Ninguém precisa de saber o nome
das árvores para amar. Annobon vibra dentro de nós
sempre que os sopros prenunciam a maresia,
o calor, a declinação do sol sobre as águas do Biafra.
Não sei se ainda lhe consegues sentir o cheiro.
Parece distante mas não está.
Basta escutá-lo com atenção.
Gostava de adormecer todos os dias em Annobon,
esses cinco minutos que fazem valer uma vida.
Mesmo quando o sono me trai e o acto de sonhar,
escutar para dentro, rende o silêncio dos nervos à flor
da pele.

2 comentários:
Henrique, os links não funcionam. Saúde e abraço.
Corrigido. Gracias.
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