HOJE
A padaria não é feita de pão branco
Nem está a rua aberta ao sol aberto
As tascas mais pequenas
Recebem raramente o alimento de um bêbado
Têm dentes estragados
E têm más maneiras apesar dos seus lucros
Rua cinza padaria desdoirada cafés frios
Bocas amargas frontes que se fecham
Três transeuntes na pressa de regressar a casa
Que casa já lá estive
Conheço-a funda lúgubre
Que mal instalados estamos
Rua cinza onde a virtude se bebe como água salobra
A ventura não tem raiz na minha rua
Rua cinza veia cinza sobre um braço doente
Onde se bebe e come e anda o menos que é possível
Vive-se sobre a fuligem e o tédio da vida
Névoa de rua ideia de rua ideia nada
Onde no entanto e de tempos a tempos os camiões esmagam um ciclista uma criança
E que acontecimento ver sangue sobre as pedras
Ver um ser vivo em mutação na lama
Vê-lo reverdecer antes de se murchar
O sol eu nada arrisco apenas falei dele
Falar é quase nada o gás a electricidade a água
Matar a fome tinha muito mais luz
Ter a pele bronzeada matar a fome e a gula
Nem sequer falei disso
E pensar que houve quem cantasse deus é glória
Houve aqueles que se amavam nus e sem pedestais
Mas onde está então a poética muralha do bem-estar
Para que a derrubemos
E lancemos raízes nesse mundo impossível
Onde se sorri sempre pela boca dos outros
A fadiga nos enche de calor e não é o do sol
Dá-nos a esmola o mês de Maio
Dá-nos a esmola o lilás branco e o lírio do vale
Mas a nossa mulher desaparece
Ela que no entanto nos queria com paixão
É com inteligência que é necessário querer
Estivemos na nascente e o mar não fica longe
Ah pudéssemos saber todos que está cheia a medida
Não queremos mais ter frio
Na carne e no pensar
Ganhemos cor contra infortúnio e ventura contra o que é injusto
Tudo é eterno nada é eterno nós existimos
Desenraizaremos a nossa rua inútil
E carregá-la-emos para aí morrer
Delirante no santuário dos nossos amos e senhores.
Paul Éluard, in Poemas Políticos, prefácio de Louis Aragon, trad. Carlos Grifo, Editorial Presença, s/d, pp. 63-65.

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