quarta-feira, 28 de abril de 2021

AUM (1988)

 


Diga 33 com Adolfo Luxúria Canibal. Fiquei a saber que a frase derradeira de AumO tempo não espera por mim! — surgiu por acaso, depois de os olhos depararem com as páginas de um daqueles livrinhos de cowboys que também eu li na infância. Isto anda tudo ligado. Entretanto a notícia da morte de Anita Lane, paixão antiga. Lembro-me dela ao lado de Nick Cave, mas também no álbum com que Mick Harvey homenageou Serge Gainsbourg. Não pude deixar de reparar que nasceu no mesmo ano de Adolfo. É isto, o tempo não espera por nós. Disse isso mesmo à Matilde quando a fui deixar a Óbidos, após ter sido questionado sobre qual a idade para termos preocupações. Tinha-lhe dito antes que já não tenho idade para me preocupar. É esta consciência de que o tempo não espera. Como ultrapassá-la? Passei o dia a ouvir Goela Hiante, objecto que não espera pelo tempo. Com suporte sonoro ideado por Marta Abreu a partir de aplicações num iPad, o vocalista dos Mão Morta lê três textos seus entre outros de Manuel de Castro, Maiakovski, António José Forte, Ferlinghetti, Mário-Henrique Leiria, João Damasceno. Gosto de ouvi-lo, mais ainda de pensar que isto foi realizado em pleno confinamento emergencial calamitoso, quando meio mundo olhava os passarinhos pela janela e deitava-se a encarar o tecto de casa onde um arco-íris utópico se formava com a legenda: vai ficar tudo bem. Os textos seleccionados são pertinentes, respeitam um imaginário acerca do qual já quase tudo se disse. E de facto, um dia tudo irá ficar bem. Não é Anita?

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