Até quando aguentar esta violência? Cansaço, can-sa-ço, dito assim, repetidamente, sílaba a sílaba, cuspido para o ar como se nada fosse ou significasse, can-sa-ço. Tinha escutado a palavra no fim do amor, depois em viagem, entretanto à refeição, ricocheteando repetidamente como uma bola no interior da cabeça, disparada por uma força qualquer que a leva de uma parede à outra do cérebro, formando uma teia de sangue no interior do cérebro, do corpo caloso ao cerebelo, deste às circunvalações, daqui ao telencéfalo, na ponte, medula, oblonga, espinal, uma bola de can-sa-ço disparada de um lado ao outro com a velocidade dos neurónios. E depois um sorriso actor fingindo nada haver que perturbe, alegria dissimulada em horas passadas ao telefone falando de tudo quanto não interessa, este can-sa-ço às voltas na cabeça, dito assim, de rompante, após o orgasmo, à sobremesa, do acordar ao deitar, arrastando-se como um bêbado sozinho no meio da estrada. Que violência maior pode alguém aguentar? O preliminar cansaço, o liminar cansaço, o cansaço absoluto das alianças esquecidas nos cinzeiros, nos bolsos, nas gavetas, junto a meias e cuecas, cansaço. Um rótulo estampado no peito, a bula na caixa de medicamentos, uma etiqueta: agora sorri, como as hospedeiras da Francisca, não, sorri antes como a Lillian dos lírios quebrados, agora enfeita, agora finge, agora representa, agora levanta as patas, agora rebola, agora dança cansaço.

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