quarta-feira, 16 de junho de 2021

UM POEMA DE ARTURO CARRERA

 


VISÍVEL, INVISÍVEL
 
Que esta dádiva perdure,
que os pássaros imitem
o balido dos bezerros
ao anoitecer. A gata camuflada
sob o vapor das boas-noites.
 
E misturas, matizes,
mas como duas nuvens se misturam
e como no incenso entra o soluço do incenso
fazendo-nos sentir a sua limpeza,
a sua anulação de falsas sensações.
 
E como no entardecer penetra a noite
sob a sonora solidão dos grilos
— a música silenciosa dos pequenos pirilampos.
 
e que mais uma vez se unam essas rajadas de som
à única voz em que vacilamos juntos.
Sons que ignoravam ser iguais,
eram iguais: exercícios secretos de alegria
 
visível como o espiado,
como um discurso do visível no invisível,
a lagoa.
 
Arturo Carrera nasceu em 1948, em Coronel Pringles, província de Buenos Aires. Com César Aira, aos 18 anos, fundou a revista El Cielo. As primeiras obras surgiram nos anos de 1970: Escrito com un nictógrafo (1972), Momento de simetria (1973), Oro (1975). Privou com Alejandra Pizarnik e Osvaldo Lamborghini. Colaborou, na década de 1980, com a revista XUL. Traduziu Agamben, Pasolini, Mallarmé, Penna, Michaux, Bonnefoy, entre outros. Publicou os ensaios Nacen los otros (1993) e Ensayos murmurados (2009). Em 1985, foi-lhe atribuído o Prémio Mauricio Kohen, o primeiro de várias distinções que a sua poesia tem merecido.

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