Fiquei a tarde inteira parado, a observar uma jarra com flores na mesa do café onde diariamente folheio o jornal e saboreio um brandy. As pessoas deixaram de falar umas com as outras, parece haver entre elas um qualquer receio que as impede de entabular diálogos. Fica cada uma na sua mesa como flores no interior duma jarra, decompondo-se demoradamente em água putrefacta. Emurchecidas nos seus lugares, é como se as palavras perdessem fulgor, como se fossem pétalas secas separando-se dos caules apodrecidos. Interrogo-me se alguém reparará em mim com a mesma nitidez, se ao ver-me parado a olhar para uma jarra com flores julgará como eu julgo estar cada ser encerrado em si mesmo a vacilar entre o silêncio absoluto e a obscuridade total. Talvez um dia alguém me surpreenda. Talvez possa alguém erguer-se para mudar a água às flores, de modo a que as palavras ganhem cor e o perfume rocie a sala. Eu não, eu não. Eu permanecerei no meu lugar, não ousarei mudar as águas, entreter-me-ei a numerar mosquitos atraídos pela podridão.
Juraan Vink, "Diários".
(tradução minha)
2 comentários:
Estou no mesmo espírito que o seu. Só não sei me expressar tão bem e com palavras tão contundentes. Fico presa em minha angústia por não conseguir desabafar. Ninguém mais me procura, nem eu procuro quem não me procura.
Saúde.
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