quarta-feira, 4 de agosto de 2021

BOCA CHEIA

Algumas pessoas, muitas e estimáveis pessoas, referem-se a certas praias como as suas praias, como se fossem proprietárias desses lugares ou manifestando um apreço exclusivo por esta ou aquela fatia de litoral. Não tenho nenhuma praia, nem quero ter, mas por vezes lamento que a mãe natureza dê de si a quem não o merece. Já me referi aos surfistas de piscina e às colunas portáteis, às Bolas de Berlim com 1001 sabores (nos gelados também se verificam tais afrontas), está na hora de mencionar as praias com rede, isto é, com ligação de qualidade à Internet. Estas praias, que podiam ser paraísos, rapidamente se convertem em infernos com chusmas de gente a fazer directos pelo WhatsApp e videochamadas por Messenger. Como um agravo nunca vem só, estas pessoas falam alto, as suas vozes sobrepõem-se ao som das ondas, das gaivotas, do vento, dos insectos, são vozes que fazem questão de colocar o mundo a par de vidas e pormenores de vidas que nada interessam. Ficamos, por exemplo, a saber que a Caetana é uma miúda tipo bué trendy e que mais peaceful do que o Salvador, que presumimos tratar-se do namorado da Caetana, não há neste mundo. É uma pena as pessoas não conseguirem estar caladas e sossegadas na praia, lugares de boa morte para onde se deslocam carregando existências ruidosas e barulhentas. Pelo menos que falassem baixinho, aproveitassem o silêncio, dormissem, enchessem a boca com Bolas de Berlim e mastigassem, mastigassem o tempo todo. Mas talvez falem com a boca cheia. É provável que sim.

3 comentários:

Anónimo disse...

privatizar a praia, o rio, a lagoa, o lago, o charco, a chuva, em geral a água, até o suor se for preciso, é literalmente o sonho molhado de muita gente.

hmbf disse...

não é o meu, deveras. mas será o de muitas escolas de surf em locais onde a prática desse estimável desporto se afigura patética

Anónimo disse...

Vem-me à memória uma certa crónica do Joaquim Manuel Magalhães, publicada n'Os Dois Crepúsculos

José Luiz Tavares