Algumas pessoas, muitas e
estimáveis pessoas, referem-se a certas praias como as suas praias, como se
fossem proprietárias desses lugares ou manifestando um apreço exclusivo por
esta ou aquela fatia de litoral. Não tenho nenhuma praia, nem quero ter, mas
por vezes lamento que a mãe natureza dê de si a quem não o merece. Já me referi
aos surfistas de piscina e às colunas portáteis, às Bolas de Berlim com 1001
sabores (nos gelados também se verificam tais afrontas), está na hora de mencionar
as praias com rede, isto é, com ligação de qualidade à Internet. Estas praias,
que podiam ser paraísos, rapidamente se convertem em infernos com chusmas de
gente a fazer directos pelo WhatsApp e videochamadas por Messenger. Como um
agravo nunca vem só, estas pessoas falam alto, as suas vozes sobrepõem-se ao
som das ondas, das gaivotas, do vento, dos insectos, são vozes que fazem
questão de colocar o mundo a par de vidas e pormenores de vidas que nada interessam.
Ficamos, por exemplo, a saber que a Caetana é uma miúda tipo bué trendy e que mais peaceful do que o Salvador, que
presumimos tratar-se do namorado da Caetana, não há neste mundo. É uma pena as
pessoas não conseguirem estar caladas e sossegadas na praia, lugares de boa
morte para onde se deslocam carregando existências ruidosas e barulhentas. Pelo
menos que falassem baixinho, aproveitassem o silêncio, dormissem, enchessem a
boca com Bolas de Berlim e mastigassem, mastigassem o tempo todo. Mas talvez
falem com a boca cheia. É provável que sim.
quarta-feira, 4 de agosto de 2021
BOCA CHEIA
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3 comentários:
privatizar a praia, o rio, a lagoa, o lago, o charco, a chuva, em geral a água, até o suor se for preciso, é literalmente o sonho molhado de muita gente.
não é o meu, deveras. mas será o de muitas escolas de surf em locais onde a prática desse estimável desporto se afigura patética
Vem-me à memória uma certa crónica do Joaquim Manuel Magalhães, publicada n'Os Dois Crepúsculos
José Luiz Tavares
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