III
Eu senti sempre por ti o que sinto
perante obras raras da natureza
os lagos tremidos trémulos aos olhos
até na pintura longínqua
até na fotografia próxima
tremidas da onda que vem e se suspende
e vem e depois não se suspende
sempre completo estava
o Mundo para ti
e só estaria inacabado
se faltasse a orla perlada
duns lábios
incapazes de resistir
à tua beleza monumental
Para tu depois os saudares com a língua
decidires afastar-te às vezes
já sabedora de que não era uma vaca ou um boi
que procuravas
Tanto esforço perdido Gisberta Salce
até para os que te mataram
que nem conseguiram tirar o proveito monumental
que procuravam
Servir-se de ti para perder o medo
sentir-se Pessoas livres
como tu
Ergueram de facto um monumento a si mesmos
talvez enlouqueçam lá dentro
quando lembrarem as tuas últimas palavras
(...)
Alberto Pimenta, in Indulgência Plenária, Língua Morta, Dezembro de 2018 (1.ª edição, & etc, Maio de 2007), pp. 30-31.

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