Li há muitos anos, já tenho idade para dizê-lo desta maneira, um livro intitulado Adeus à Razão. Julguei aí encontrar uma defesa racional da irracionalidade, leitura precipitada e pouco consentânea com as problemáticas epistemológicas nele abordadas. Hoje interpreto-o antes como uma defesa da espontaneidade apoiada numa constatação de facto: o caos domina o mundo. Supor uma ordem no caos é contrário à natureza do caos, mas favorece a nossa compreensão do mundo. Portanto, todo o conhecimento resulta desta contradição que consiste em tentar arrumar o que não tem arrumação. É como limpar o pó a uma casa. A gente dedica um dia por semana para a tarefa, sabendo quão parco será o efeito. Poucas horas passadas sobre a limpeza a casa estará novamente cheia de pó. Então para quê limpar o pó? Para que ele não se acumule a ponto da nossa vida se transformar num pesadelo. Precisamos de ordem e de organização à nossa volta, precisamos de sentir que há alguma normalidade no mundo mesmo sabendo não ser ele o melhor dos possíveis, então limpamos o pó, arrumamos, arquivamos, fazemos todas essas coisas. Está certo. As pessoas desempoeiradas também são mais aprazíveis do que as que têm pó na cabeça e teias de aranha no sangue. Não obstante, as piores de todas são as racionais. Quero dizer, as estritamente racionais. A racionalização da vida pode transformar-se numa obsessão doentia, mesmo não chegando ao ponto de a considerarmos doença ela é, muitas vezes, simplesmente intragável, pois obriga-nos a lidar com um calculismo contrário à nossa natureza. Esta é espontânea. Mais do que a razão, o que nos livra de uma vontade meramente instintiva é a espontaneidade, o acaso, a liberdade de entregar o pensamento à carne das suas projecções caóticas. Uma balbúrdia como a sentida nos sonhos, isso sim. Desconfio de toda a criação artística essencialmente suportada e enraizada na razão. Longe de acreditar nas tretas surrealistas, também não creio ser a razão o sustento do sublime. A gente ouve um solo de Joe Lovano e percebe isto. Na poesia, a racionalidade deve impor-se à posteriori. Como uma espécie de limpeza semanal que mantenha reluzente o pulso da espontaneidade, a pulsão incontrolável do desejo e da paixão, magmas essenciais em qualquer obra.

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