quinta-feira, 19 de agosto de 2021

LEFT ALONE (1959)


 

Ando há semanas com um poema na cabeça e não há meio de desatá-lo. Às vezes as coisas prendem-se dentro com nós intrincados, dificilmente desemaranháveis. Aconselha-se paciência, não ansiar, desejar sem aflição. Quando menos esperamos, a coisa solta-se por si mesma como objecto estranho no corpo dum animal. Left Alone, uma das poucas canções assinadas por Billie Holiday, nunca foi gravada até o pianista Mal Waldron se lembrar de o fazer. Dedicou o álbum com o mesmo título a Lady Day, em quatro minutos de conversa, reproduzidos no final, com o vibrafonista Teddy Charles. Talvez seja o meu pianista preferido, mas não sei explicar porquê. Um esgotamento provocado pelo consumo excessivo de heroína ia-lhe dando cabo da vida. Estou a ouvi-lo agora mesmo, enquanto espero pacientemente que a imagem de Tony Chu a mastigar um cadáver se liberte e resulte em qualquer coisa menos necrófaga do que a banda desenhada de John Layman. A hipótese de alguém que ao pronunciar uma palavra descortinasse tudo quanto se esconde por detrás dessa palavra, não apenas o significado, as raízes semânticas (a raiz?), a etimologia, mas, por exemplo, aquilo que nos levou a chamar solidão à solidão. De que estirpe será esse sol aumentativamente solidificado? Será uma estrela? Um astro? Será a solidão uma chama transformada em pedra? Será a pedra um fóssil da chama descambada em solidão? E que chama seria essa? A paixão?

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