Ando há semanas com um poema na cabeça e
não há meio de desatá-lo. Às vezes as coisas prendem-se dentro com nós intrincados,
dificilmente desemaranháveis. Aconselha-se paciência, não ansiar, desejar sem
aflição. Quando menos esperamos, a coisa solta-se por si mesma como objecto
estranho no corpo dum animal. Left Alone,
uma das poucas canções assinadas por Billie Holiday, nunca foi gravada até o
pianista Mal Waldron se lembrar de o fazer. Dedicou o álbum com o mesmo título
a Lady Day, em quatro minutos de conversa, reproduzidos no final, com o vibrafonista
Teddy Charles. Talvez seja o meu pianista preferido, mas não sei explicar
porquê. Um esgotamento provocado pelo consumo excessivo de heroína ia-lhe dando
cabo da vida. Estou a ouvi-lo agora mesmo, enquanto espero pacientemente que a
imagem de Tony Chu a mastigar um cadáver se liberte e resulte em qualquer coisa
menos necrófaga do que a banda desenhada de John Layman. A hipótese de alguém
que ao pronunciar uma palavra descortinasse tudo quanto se esconde por detrás
dessa palavra, não apenas o significado, as raízes semânticas (a raiz?), a etimologia,
mas, por exemplo, aquilo que nos levou a chamar solidão à solidão. De que estirpe
será esse sol aumentativamente solidificado? Será uma estrela? Um astro? Será a
solidão uma chama transformada em pedra? Será a pedra um fóssil da chama descambada
em solidão? E que chama seria essa? A paixão?
quinta-feira, 19 de agosto de 2021
LEFT ALONE (1959)
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