terça-feira, 17 de agosto de 2021

TEMPESTADES DE OUTONO


(...)
Estou tão preocupada contigo, diz Signe
O que é que se passa contigo, diz ela
Vá, vem cá, não fiques aí de pé, diz ela
Está bem, diz Assle
e olha docemente para ela
Já vou, diz Assle
e continua de pé no mesmo lugar
Está aqui tanto frio, não podemos ir para a sala, a lareira está bem forte, diz Signe
e vai e pega-lhe ao de leve na mão, mas larga-a logo, e entra na sala e vê-se a si própria, ali deitada no divã, a entrar na sala e vê-o a entrar e vê que atrás dele vem também Aless, e ela entra na sala também, e depois vê-se a ir até à lareira e a pegar numa acha e vê-se a dobrar-se e ele olha para ela, dobrada à frente da lareira, e depois ela põe, de través, a acha na chamas e imediatamente ele vê que é Aless que põe uma acha na lareira, não é ela, é Aless, a trisavó dele, é ela quem está em frente à lareira e põe, de través, uma acha na lareira e o cabelo preto dela brilha e no divão ao fundo no canto ele vê o Kristoffer deitado e aconchegado numa manta e depois vê Aless a ir sentar-se na borda do divã e a pôr uma mão na testa do Kristoffer
Não tens febre, pois não, Kristoffer, diz Ales
Estás um bocadinho quente, diz ela
Continua a dormir, meu menino, diz ela
e ele vê que Kristoffer faz que sim com a cabeça e depois olha para ela que está em frente da lareira a olhar para as chamas
Estás aí a olhar para as chamas, diz Assle
Pois estou, diz Signe
e ele vê que ela fica de pé a olhar para as chamas, e vê que as chamas se juntam à volta da acha e lhe pegam fogo e rapidamente a acha faz parte das chamas, e olha para a janela e vê que as chamas se reflectem na janela e se misturam com a escuridão lá fora e com a chuva que escorre pelos vidros, e depois ouve o vento
Que ventania, diz Signe
E parece estar a aumentar, diz Assle
e olha para o divão e vê que Aless se deita no divã e envolve Kristoffer nos braços e o puxa para si, o embala
Estas tempestades de outono estão cada vez mais fortes, diz Assle
Nos últimos anos têm sido cada vez mais fortes, diz ele
Mas varia, varia de ano para ano, diz ele
Pelo menos antes não era assim, diz ele
(...)

Jon Fosse, in É a Aless, tradução de Pedro Porto Fernandes, Cotovia, Novembro de 2008, pp. 46-47.

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