segunda-feira, 16 de agosto de 2021

UM POEMA DE ANTÓNIO CABRITA


PLANETA DA INSÓNIA

6.

Em Kobani, os cães barbudos não entraram
e desataram a decapitar as suas sombras.
Estas coisas nunca aconteceram, mas existem
sempre, escreveu Salústio,

e é justo que aconteçam, e que importunados
pela impossibilidade de conseguirem urinar
nos canteiros de narcisos, jacintos, violetas,
rosas e tomilho da cidade,

ou de conspurcarem com esterco
a virgindade das resistentes,
os cães barbudos se castrem
antes de se enforcarem num fio de sangue igual

àquele com que decapitaram o seu amigo.
Os cães barbudos perderam o rasto de Sinbad.
Antes o crime aflorava como a cegueira pontual
de a quem inebriara a caligrafia das baleias.

Porém, a âncora extraviou-se, mata-se
por cinco segundos de emissão e enterram-se crianças
vivas no arabesco dos abismos — desapontar
horizontes é por ora a pedra angular.

E lapidam-se mulheres. Só a esperança
de que a reminiscência das estrelas mortas
se perpetue no canto dos grilos não
estiolou. Sim, há que voltar ao mar

para que o homem divagante esqueça
o perímetro da crueldade.
Aí, mesmo que a morte e vida façam
Um — chiça para os números — a alegria

é o nó com que a porta
se abre ao vinho e ao amor
e escuda a casa do olvido, da térmita.
Porque hoje até no crime já há enfado.

António Cabrita, in Anatomia Comparada dos Animais Selvagens - Conversas em quadra, tercetos e sonetos, Coisas de Ler, 2.ª edição, Março de 2019, pp. 16-17.

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