Que sonho estranho fui eu ter esta noite, não sei o que
se passa com a minha cabeça. Será dos doces? Agora fui sonhar com presépios,
mas presépios com gente de carne e osso, uns vivos, outros mortos, outros
mortos vivos. Imaginem só quem me apareceu nas palhas deitado? A Rainha Isabel
II. Essa mesmo, a de Inglaterra. Eu a queixar-me de que não fazia sentido
nenhum, que o menino tinha pilinha, e os cordeiros a balirem que eu era ateu,
ímpio, herege, bárbaro, danado, desalmado, inclemente. O pior é que um dos
cordeiros era cara chapada do Milhazes, o outro era cara chapada do Rogeiro.
Adivinhem quem era a Virgem Maria? Estão a pensar na Clara de Sousa, não é? Mas
não. Isto dos sonhos é tudo muito estranho, a gente faz as associações mais
estrambólicas. A Virgem era a Isabel Jonet, sem tirar nem pôr, um pouco mais
arranjada do que é costume. E eu a reclamar da vestimenta, um absurdo, dizia,
que há 2022 anos ninguém tomava banho, as pessoas viviam numa invejável
frugalidade, sobretudo os judeus oprimidos, aquela Virgem nem um trapo velho
ostentava, vergonhoso figurino. O pior é que exprimia-me como aquele rapaz do
programa Passadeira Vermelha, da SIC Caras, o mais gordo. Como raio é que se
chama a criatura? Acho que tem nome de árvore, Azinheira ou que é. Isto anda
tudo ligado. Não foi numa azinheira que apareceu a virgem em Fátima? Bem, eu a
falar naquele tom insuportável e o José todo indignado. Cale-se, não diga
disparates. Vai nisto reparo que o José era, sem tirar nem pôr, o Marcelo. Ai
é, toma lá e embrulha, calei-o logo com a sua própria retórica argumentativa:
“São disparates e tal, mas concentremo-nos na equipa. Começámos muito bem e
terminámos em cheio." O tipo fez o que sabe fazer, sacou do smartphone e
começou a tirar selfies com os reis magos. Eram eles o Emir do Qatar, Joe Biden
e um outro que não consegui perceber bem mas pareceu-me ser o Elon Musk. E que
presentes traziam eles para o menino, isto é, para a Rainha Isabel II? Estádios
de futebol, armas e redes sociais. Ainda dizem que o melhor dos mundos não é
possível. Havia também um burro, uma vaca e um pastor no presépio. O burro e a
vaca eram mesmo um burro e uma vaca, o que, enfim, a crer nas teorias
freudianas pode querer dizer muita coisa. Já o pastor, não consegui averiguar
exactamente quem seria. Estava de costas. Pelo tom de voz, pareceu-me ser o
Rodrigo Guedes Carvalho com uma daquelas suas mensagens virais em tom moralista
inspiracional que só encontram rival à altura no Tolentino Mendonça. Gostava de
partilhar convosco o que ele dizia, mas não consegui ouvir bem. A Rainha Isabel
esperneava e chorava nas palhas deitada. Acho que tinha cocó.
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