2022, o ano em que a Europa voltou a ser
acordada pela guerra a bater-lhe à porta, ficará na memória pelas piores
razões. Depois de uma campanha eleitoral em que comentadores tiveram mais
protagonismo do que candidatos, gramámos com canhões russos a invadirem a
Ucrânia. A consequência imediata disto foi o Milhazes diariamente em horário
nobre, a cultura de cancelamento aplicada a tudo quanto cheirasse a Rússia
(reparei recentemente que no jogo 8 Ball Pool a mesa Moscovo foi substituída
por uma mesa Lisboa), a censura de novo legitimada em regimes democráticos como
dizem ser os da União Europeia. A Ucrânia e os ucranianos foram acolhidos nos
braços europeus como nenhum outro povo antes fora, nenhum igualmente vítima de
conflitos sangrentos (a taça vai para o Iémen) ou de “apartheides” fofinhos
como o que Israel impõe aos palestinianos. Hipocrisia é a palavra do ano. E não
apenas pela questão ucraniana, que foi o exemplo mais eloquente do princípio
“dois pesos e duas medidas”.
Passados meses sobre a invasão, com a doutora Ana Gomes inchada de tanta pipoca enfardada a deliciar-se com russos que levavam na pinha, eis que fomos brindados por um mundial de futebol corrupto, num país corrupto e assassino, uma dessas ditaduras com as quais a UE e os USA negoceiam, como negociaram anos a fio com Putin. Devemos um agradecimento ao Presidente da República portuguesa pelo esclarecimento: direitos humanos e tal, está bem, mas a bola é que interessa. Portanto, não nos queixemos. Era impossível maior clareza quanto à hierarquia de valores que norteia (detesto esta palavra) as decisões dos nossos governantes. Dinheiro é poder, poder é guerra, guerra é dinheiro. Pelo meio, as causas justas das mulheres iranianas, dos jovens pelo clima, dos desgraçados afegãos, bem podem esperar sentadas. Neste ano em que as mães deram lugar a pessoas lactantes, ficou claro que a penumbra será, em tempos próximos, o lugar reservado às causas justas.
Por estas e por outras sinto-me compelido a citar o Alquimista, quando à semelhança de um animal encurralado se questionou: «— Em tudo isto não se pode reflectir sem enlouquecer, como é que se há-de poder perdoar?» (p. 250) O Alquimista é personagem central no romance “O Grande Cidadão” (Companhia das Ilhas, Agosto de 2022), originalmente publicado na Arcádia decorria o ano de 1963. Portugal era uma das mais vetustas ditaduras europeias, estava em guerra nas colónias que teimava serem suas, o Grande Cidadão a que se referia Virgílio Martinho (1928-1994) podia ser Salazar como qualquer outro ditador que o revisionismo histórico não tenha entretanto camuflado. Putin, por exemplo, inda há tempos não muito distantes era parceiro estratégico e surgia na capa da Time como "o homem que reergueu a Rússia". Grande cidadão. Mudam os tempos, conservam-se vícios. Adiante que se faz tarde.
Ex-presidiário, o Alquimista passara vinte anos na prisão para dela sair entrando noutra: a sociedade do seu tempo. O romance é uma parábola dos tempos vividos, com meio mundo a observar a outra metade, «esbirros, espiões, membros, lacaios, soldados» (p. 205), vigilantes por todo o lado zelando pela higiene propagada em cartazes com mensagens virtuosas de uma integridade moral incontestável. O Grande Cidadão gosta do que é inquestionável e a multidão não está para questionar como está para perseguir os indesejáveis: aqueles que questionam, os viciosos, aqueles que por questionarem devem frequentar campos de regeneração onde acabem com as dúvidas. Podemos sempre pôr-nos do lado do Grande Cidadão, isto é, em não conseguindo vencê-lo, juntarmo-nos a ele. Assim fazem aqueles em que o desejo esmoreceu, a vontade claudicou, a liberdade boceja, o sonho adormeceu. Esses são os estéreis, há deles a rodos e purificados, são «soldados da Ordem Existente» (p. 47).
O romance de Virgílio Martinho não esqueceu tais exércitos, retrata-os como a uma multidão amorfa, isto é, letárgica, ou seja, enraivecida contra tudo quanto se oponha à Ordem determinada por quem ordena. Os outros, aqueles que resistem atolados em dúvidas, ora afundados em pântanos de interrogações, ora capturados em armadilhas para ursos, esses têm o destino traçado. Chama-se solidão, uma solidão feita também de traições, denúncias, desistências, fraquezas, coisas que transformam um homem num animal acossado. Estou a pensar em Julian Assange. Passará pela imaginação de alguém o estado de saúde mental de um indivíduo como Assange, na situação em que se encontra, forçado, passado todo este tempo, ao silenciamento e ao esquecimento, ao abandono? Por mais que se organizem, animais acossados como Assange sabem que acabarão vencidos. No entanto, antes de acabarem vencidos não prescindem de causar estragos. Estragos que abalam a tal Ordem Existente a ponto de gerarem crises que instaurem novos paradigmas. Não é de um dia para o outro.
Thomas Kuhn, o da epistemologia, sabia como eram estas coisas dos paradigmas. Do que ele não falou foi da saturação enquanto processo, dos movimentos inúteis que trazem luz e podem ser alquímicos, isto é, transformadores: «O Alquimista, enquanto descansava, pensava nisto, no que se pode fazer quando a vida está em jogo e não se quer morrer. Quando o Grande Cidadão deixa de ser omnipotente e se transforma em carne vulnerável» (p. 110). É a vantagem do ócio, põe-nos a pensar. Do pensamento retiramos então resposta para o pânico, ainda que a fome perdure; resposta para o medo, ainda que a fome se mantenha. Vem a dúvida: melhor ser capturado e executado ou andar a monte numa tortura lenta e infindável? A palavra abjecção que, a dado momento, reverbera nos pensamentos e nas acções das personagens deste livro fazem-me crer em duas coisas: é lamentável não ser este um livro datado, como é adequado recuperá-lo agora, nestes tempos de polícias da moralidade, apartheid israelita, algoritmo parabolano, hipocrisia generalizada. Mais do que o Grande Cidadão, preocupa-me a ausência de futuro. A sério, a ausência de futuro para tanta gente apanhada por uma «gigantesca máquina de repressão» (p. 268) que a indiferença de uns, a ingenuidade de outros, a maldade de uns tantos, legitimam, apoiam, amparam.
Passados meses sobre a invasão, com a doutora Ana Gomes inchada de tanta pipoca enfardada a deliciar-se com russos que levavam na pinha, eis que fomos brindados por um mundial de futebol corrupto, num país corrupto e assassino, uma dessas ditaduras com as quais a UE e os USA negoceiam, como negociaram anos a fio com Putin. Devemos um agradecimento ao Presidente da República portuguesa pelo esclarecimento: direitos humanos e tal, está bem, mas a bola é que interessa. Portanto, não nos queixemos. Era impossível maior clareza quanto à hierarquia de valores que norteia (detesto esta palavra) as decisões dos nossos governantes. Dinheiro é poder, poder é guerra, guerra é dinheiro. Pelo meio, as causas justas das mulheres iranianas, dos jovens pelo clima, dos desgraçados afegãos, bem podem esperar sentadas. Neste ano em que as mães deram lugar a pessoas lactantes, ficou claro que a penumbra será, em tempos próximos, o lugar reservado às causas justas.
Por estas e por outras sinto-me compelido a citar o Alquimista, quando à semelhança de um animal encurralado se questionou: «— Em tudo isto não se pode reflectir sem enlouquecer, como é que se há-de poder perdoar?» (p. 250) O Alquimista é personagem central no romance “O Grande Cidadão” (Companhia das Ilhas, Agosto de 2022), originalmente publicado na Arcádia decorria o ano de 1963. Portugal era uma das mais vetustas ditaduras europeias, estava em guerra nas colónias que teimava serem suas, o Grande Cidadão a que se referia Virgílio Martinho (1928-1994) podia ser Salazar como qualquer outro ditador que o revisionismo histórico não tenha entretanto camuflado. Putin, por exemplo, inda há tempos não muito distantes era parceiro estratégico e surgia na capa da Time como "o homem que reergueu a Rússia". Grande cidadão. Mudam os tempos, conservam-se vícios. Adiante que se faz tarde.
Ex-presidiário, o Alquimista passara vinte anos na prisão para dela sair entrando noutra: a sociedade do seu tempo. O romance é uma parábola dos tempos vividos, com meio mundo a observar a outra metade, «esbirros, espiões, membros, lacaios, soldados» (p. 205), vigilantes por todo o lado zelando pela higiene propagada em cartazes com mensagens virtuosas de uma integridade moral incontestável. O Grande Cidadão gosta do que é inquestionável e a multidão não está para questionar como está para perseguir os indesejáveis: aqueles que questionam, os viciosos, aqueles que por questionarem devem frequentar campos de regeneração onde acabem com as dúvidas. Podemos sempre pôr-nos do lado do Grande Cidadão, isto é, em não conseguindo vencê-lo, juntarmo-nos a ele. Assim fazem aqueles em que o desejo esmoreceu, a vontade claudicou, a liberdade boceja, o sonho adormeceu. Esses são os estéreis, há deles a rodos e purificados, são «soldados da Ordem Existente» (p. 47).
O romance de Virgílio Martinho não esqueceu tais exércitos, retrata-os como a uma multidão amorfa, isto é, letárgica, ou seja, enraivecida contra tudo quanto se oponha à Ordem determinada por quem ordena. Os outros, aqueles que resistem atolados em dúvidas, ora afundados em pântanos de interrogações, ora capturados em armadilhas para ursos, esses têm o destino traçado. Chama-se solidão, uma solidão feita também de traições, denúncias, desistências, fraquezas, coisas que transformam um homem num animal acossado. Estou a pensar em Julian Assange. Passará pela imaginação de alguém o estado de saúde mental de um indivíduo como Assange, na situação em que se encontra, forçado, passado todo este tempo, ao silenciamento e ao esquecimento, ao abandono? Por mais que se organizem, animais acossados como Assange sabem que acabarão vencidos. No entanto, antes de acabarem vencidos não prescindem de causar estragos. Estragos que abalam a tal Ordem Existente a ponto de gerarem crises que instaurem novos paradigmas. Não é de um dia para o outro.
Thomas Kuhn, o da epistemologia, sabia como eram estas coisas dos paradigmas. Do que ele não falou foi da saturação enquanto processo, dos movimentos inúteis que trazem luz e podem ser alquímicos, isto é, transformadores: «O Alquimista, enquanto descansava, pensava nisto, no que se pode fazer quando a vida está em jogo e não se quer morrer. Quando o Grande Cidadão deixa de ser omnipotente e se transforma em carne vulnerável» (p. 110). É a vantagem do ócio, põe-nos a pensar. Do pensamento retiramos então resposta para o pânico, ainda que a fome perdure; resposta para o medo, ainda que a fome se mantenha. Vem a dúvida: melhor ser capturado e executado ou andar a monte numa tortura lenta e infindável? A palavra abjecção que, a dado momento, reverbera nos pensamentos e nas acções das personagens deste livro fazem-me crer em duas coisas: é lamentável não ser este um livro datado, como é adequado recuperá-lo agora, nestes tempos de polícias da moralidade, apartheid israelita, algoritmo parabolano, hipocrisia generalizada. Mais do que o Grande Cidadão, preocupa-me a ausência de futuro. A sério, a ausência de futuro para tanta gente apanhada por uma «gigantesca máquina de repressão» (p. 268) que a indiferença de uns, a ingenuidade de outros, a maldade de uns tantos, legitimam, apoiam, amparam.

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