segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

PERDIGOTOS

 
Deveras zangado com o mundo, Cuco escrevia sem parar cucospindo chuvas de perdigotos projectados em todas as direcções. Que ninguém via o que só ele estava habilitado a ver. Que eram todos uns vendidos, exceptuando ele e quem estivesse com ele até cucom ele estar. Sol à volta do qual giravam num rodopio de intrigas planetas e vias lácteas, Cuco inflamado explodia para alumiar caminhos e iluminar perdições. Estava muito preocucopado cucom o estado do mundo, o dele, cucom as injustiças do mundo, as que, enfim, não lhe serviam, cucom as pragas em cucolheitas alheias. Ele era o veneno, o remédio, a solução. O que lhe acuconteceu? Nada. Passou a vida nisto, desfiando raivas e fúrias incuconsequentes para entretenimento duns e tédio doutros. Mas um dia, ah, um dia Cuco mordeu a própria língua, mastigou, engoliu, vomitou, voltou a engolir, vomitou novamente, de novo engoliu, mais uma vez vomitou... e assim sucessivamente, incuconsequentemente.

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