domingo, 11 de dezembro de 2022

VIVEM PERGUNTANDO EM REDOR

 
Esta noite sonhei que o Marques Mendes era poeta. Como um mal nunca vem só, além da poesia metera-se-lhe na cabeça a declamação. Andava pelos estúdios da SIC, nas praças e avenidas, nos auditórios, a repetir incessantemente aqueles versos do «ser poeta é ser mais alto». Já não podia ouvi-lo, mas ele insistia: «é ser maior do que os homens». Para o que havia de lhe dar, senhores. Apelei ao sentido crítico aplicando-me numa luta sem tréguas. Impunha-se desmascarar o farsante. Fui perscrutar a altura dos poetas, quem media quanto, e cheguei a esta conclusão insofismável: por cada poeta verdadeiramente alto, cinco eram minorcas. Não incluí o próprio Mendes no estudo, pois não podia correr o risco de ser acusado de intimidação vexatória. O tipo defendeu-se em sede de Jornal da Noite, arguindo interpretações literais dos termos, que desde os tempos do Antigo Testamento que os homens sabiam distinguir uma metáfora de uma asseveração, uma parábola de um axioma, uma alegoria de um silogismo. Claro que a Clara se pôs do lado dele, assim como os comentadores chamados a debater o tema que entretanto se tornara problemática central da pátria lusitana. Para Milhazes ser mais alto significava exactamente o contrário do que era Putin, Rogeiro via na expressão um código secreto relacionado com o envio de sistemas de defesa antiaérea para a Ucrânia. Pedro Marques Lopes estava indignado com a minha interpretação, não era nada contra mim, por certo eu seria excelente pessoa, idónea e capaz, mas, vai-me desculpar, não podia deixar de considerar lamentável, diria mesmo, muito lamentável o resultado do estudo levado a cabo. Até Clara Ferreira Alves se pronunciou. Obviamente que ser mais alto era uma alusão a Elon Musk e à mania das grandezas destes donos do mundo que, preparem-se, vão acabar por nos atirar a todos, sem excepção, começando por nós, para um caos irresolúvel. E citou o The Guardian a propósito de não sei quê. Parra José Miguel Tavarres, sêrr mais alto erra a inevitável solução de uma aperroximação do PSD à IL tendo em vista o derrube da esquêrreda com uma solução goverrenativa que não podia deixárre de forra o Chega de Venturra. Enfim, inúmeras foram as exegeses estapafúrdias dos versos perorados por Marques Mendes. O sonho parecia não ter fim, até que, quando supomos pior ser impossível, apareceu-me o diseur pela frente com novos versos. Diziam assim: «Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor.»

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