Esta noite sonhei que o Marques Mendes era poeta. Como um
mal nunca vem só, além da poesia metera-se-lhe na cabeça a declamação. Andava
pelos estúdios da SIC, nas praças e avenidas, nos auditórios, a repetir
incessantemente aqueles versos do «ser poeta é ser mais alto». Já não podia
ouvi-lo, mas ele insistia: «é ser maior do que os homens». Para o que havia de lhe
dar, senhores. Apelei ao sentido crítico aplicando-me numa luta sem tréguas.
Impunha-se desmascarar o farsante. Fui perscrutar a altura dos poetas, quem
media quanto, e cheguei a esta conclusão insofismável: por cada poeta
verdadeiramente alto, cinco eram minorcas. Não incluí o próprio Mendes no
estudo, pois não podia correr o risco de ser acusado de intimidação vexatória.
O tipo defendeu-se em sede de Jornal da Noite, arguindo interpretações literais
dos termos, que desde os tempos do Antigo Testamento que os homens sabiam
distinguir uma metáfora de uma asseveração, uma parábola de um axioma, uma
alegoria de um silogismo. Claro que a Clara se pôs do lado dele, assim como os
comentadores chamados a debater o tema que entretanto se tornara problemática
central da pátria lusitana. Para Milhazes ser mais alto significava exactamente
o contrário do que era Putin, Rogeiro via na expressão um código secreto
relacionado com o envio de sistemas de defesa antiaérea para a Ucrânia. Pedro
Marques Lopes estava indignado com a minha interpretação, não era nada contra
mim, por certo eu seria excelente pessoa, idónea e capaz, mas, vai-me
desculpar, não podia deixar de considerar lamentável, diria mesmo, muito
lamentável o resultado do estudo levado a cabo. Até Clara Ferreira Alves se
pronunciou. Obviamente que ser mais alto era uma alusão a Elon Musk e à mania
das grandezas destes donos do mundo que, preparem-se, vão acabar por nos atirar
a todos, sem excepção, começando por nós, para um caos irresolúvel. E citou o
The Guardian a propósito de não sei quê. Parra José Miguel Tavarres, sêrr mais
alto erra a inevitável solução de uma aperroximação do PSD à IL tendo em vista
o derrube da esquêrreda com uma solução goverrenativa que não podia deixárre de
forra o Chega de Venturra. Enfim, inúmeras foram as exegeses estapafúrdias dos
versos perorados por Marques Mendes. O sonho parecia não ter fim, até que,
quando supomos pior ser impossível, apareceu-me o diseur pela frente com novos
versos. Diziam assim: «Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor.»
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